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quarta-feira, 31 de março de 2021

Escatologia derrotista e futurismo pessimista?

 

Particularmente é difícil acreditar que estudiosos como Harold R. Eberle & Martin Trench (preteristas parciais) acusem descaradamente os que creem na doutrina do arrebatamento iminente de derrotismo, negligência, pessimismo, indiferença social e etc., afirmando que “Precisamos de uma mudança que conduza a Igreja de uma mentalidade de arrebatamento a uma teologia de colheita”. Tal crítica é por demais infundada. Por que devemos mudar a mentalidade de arrebatamento? Ela não é bíblica? Claro que é! É difícil acreditar nas palavras encontrada no livro: “Os cristãos que estão focados na colheita não têm realmente muito tempo para se preocupar com o arrebatamento. Seu objetivo é levar tantas pessoas quanto possível para o Reino nessa preparação para as bodas [olá, não existe bodas sem arrebatamento da igreja!]. Uma escatologia vitoriosa deixará a mentalidade de arrebatamento para trás e colocará a obra da colheita diante de você”[1]. Como assim? Não devo me preocupara com o arrebatamento da Igreja? Os autores tentam nos fazer acreditar que a “mentalidade de colheita” é incompatível com a “mentalidade de arrebatamento”! Isso é ridículo! Por exemplo, hoje o Movimento Pentecostal, mentalidade de arrebatamento pré-tribulacional, é a maior força missionária, principalmente no Sul Global. É fundamental sobre a nossa crença de um arrebatamento a qualquer momento que façamos missões hoje no poder do Espírito Santo, pois não sabemos a que horas virá o Senhor! É fundamental à crença na doutrina do arrebatamento da igreja que “vivamos no presente século, sensata, justa e piedosamente, enquanto aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo” (Tito 2.12, ARA e 13, NVI).

Com os autores eu afirmo altissonante que nós que acreditamos num arrebatamento a qualquer momento não somos uma “Igreja fracassada, que foge pela porta dos fundos enquanto o diabo entra com violência pela porta da frente”[2]. Pelo contrário, os pentecostais invadem até mesmo as periferias e os mais distantes lugares para destronar Satanás, expulsar demônios, impor as mãos sobre os enfermos e até a falar novas línguas em nome de Jesus Cristo!

A visão destes dois preteristas parciais sobre o dispensacionalismo pré-tribulacional é absurdamente incorreta, falsa e criadora de um espalho para eles mesmos esbofetear. Ridícula exposição destes dois teólogos!

Se eles analisassem o impacto do Movimento Pentecostal – cuja o pivô evangelístico e avivalista advém da crença na Vinda do Senhor pré-tribulacional –  nas vidas e na sociedade como um todo teriam uma abordagem diferente ou honesta e mais respeitosa. Eles deveriam entender a visão de vitória dos pentecostais, o vitorioso Cristo venceu e é poderoso para salvar. Os pentecostais creem que Jesus continua o mesmo ontem, hoje e eternamente, e por isso pregam que Ele continua curando e libertando as pessoas. Quantas vidas e famílias inteiras não foram salvas e ressocializadas? As igrejas pentecostais pré-tribulacionistas estão bem presentes nas periferias mais do que outras (poderia traçar uma dura crítica aqui a outras denominações, mas não o farei!). As pregações autenticamente pentecostais trazem impacto no ser humano demandando aos que creem uma vigilante santificação, bem como uma viva esperança no arrebatamento da Igreja. Isso não tem nada de derrotismo e pessimismo, pelo contrário, a escatologia pentecostal é triunfante, pois o Cristo glorificado continua fazendo milagres poderosos pelo Espírito Santo na Igreja e através dela no campo evangelístico e missional.

Acusar os pré-tribulacionistas e, consequentemente pentecostais que creem no arrebatamento da Igreja a qualquer momento de “escapismo” e “derrotismo” é ser bastante ignorante do impacto eclesial, santificante, missional e social que estas verdades causaram, estão causando e podem causar, mormente quando os pentecostais começarem a rejeitar ensinos alienígenas ao seu curriculum histórico e, concomitantemente a retomar no poder do Espírito os cinco pilares do querigma (pregação) e da disdakalia (ensino) pentecostal.

É claro que nós pentecostais também acreditamos que “a Igreja se levantará em vitória e poder antes da volta de Jesus Cristo”[3]. Isso tem sido verdade no Movimento Pentecostal, apesar dos seus devaneios!

Nossa escatologia também é vitoriosa, pois cremos que Cristo virá pessoalmente para implantar o Seu Reino com poder e glória. Cristo, não a Sua Igreja, diferentemente da crença dos autores, é quem irá estabelecer o Reino de Deus aqui na Terra (cf. Daniel 2.34,35,44,45; João 18.36; 2Timóteo 4.1; Apocalipse 2.26—28; 19.11–20.9). Nenhum cristão edifica o Reino de Deus, e nem a igreja implanta o Reino de Deus. É o Cristo que o faz! Posso dizer que uma “escatologia vitoriosa” é cristológica e não eclesiológica. Noutras palavras, a vitória escatológica da igreja encontra-se e resulta da cristologia, do Cristo vitorioso (Apocalipse 3.21). E, como pentecostal, creio e ensino que a vitória cristológica é evidenciada pneumaticamente na igreja. O Espírito de Deus sempre conduz a Igreja no cortejo triunfal de Cristo (2Coríntios 2.14).

Cristo é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores (19.16). A igreja é mais do que vencedora por meio daquele que a amou! (Romanos 8.37). Temos uma escatologia vitoriosa não porque a igreja irá implantar o Reino, ou rejeitar a “mentalidade de arrebatamento”, mas porque Cristo já venceu na cruz, foi assunto aos céus, está a destra do Pai, derramou o Espírito Santo e voltará outra vez pessoalmente para estabelecer o Seu reino aqui na terra, e, juntamente com Sua eleita, a igreja, Ele regerá as nações como o Rei dos reis e Senhor dos senhores com vara de ferro (Daniel 7.13,14,18,22,27; Apocalipse 2.26-28; 12.5; 19.15; 20.4). Isso é escatologia vitoriosa!

Como pentecostal subscrevo uma escatologia vitoriosa como cristológica em sua natureza (morte e ressurreição de Cristo), pneumática em sua realização (revestimento de poder missional) e eclesial em sua instrumentalidade (a igreja como instrumento do Espírito na implantação do Reino de Deus).

Nós pentecostais não adotamos uma escatologia derrotista, uma “mentalidade de arrebatamento” sem missões ou mesmo uma “visão pessimista do futuro” como afirmam os autores Eberle & Trench sobre aqueles que adotam a doutrina do arrebatamento da Igreja. Nós não negamos, juntamente com Paulo, que “os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados” (2Timóteo 3.13), e que nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis (3.1), e que ainda os homens serão mais “amigos dos prazeres que amigos de Deus” (v.4), e, afirmamos que nos últimos dias as pessoas “não suportarão a são doutrina” (4.3), todavia, nós também cremos que Deus nos últimos continua derramando o Seu Espírito sobre os Seus filhos e filhas para exercerem um ministério carismático e de poder testemunhal do Cristo que virá (Atos 2.17,18). Isso, senhores, não é escatologia pessimista e derrotista, mas realista, esperançosa e pneumática!

Assim é uma escatologia de um pentecostal pneumático!



[1] EBERLE, Harold R. & TRENCH, Martin. Escatologia Vitoriosa: Uma Visão Preterista Parcial, p.12. Brasília, DF, Brasil: Editora Chara, 2014.

[2] EBERLE, Harold R. & TRENCH, Martin. Escatologia Vitoriosa: Uma Visão Preterista Parcial, p.12. Brasília, DF, Brasil: Editora Chara, 2014. Essa frase vem de Cal Pierce no Prefácio, mas claramente reflete a ideia dos autores.

[3] EBERLE, Harold R. & TRENCH, Martin. Escatologia Vitoriosa: Uma Visão Preterista Parcial, p.11. Brasília, DF, Brasil: Editora Chara, 2014.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

PRÉ-TRIBULACIONISMO: A Igreja não passará pela Grande Tribulação


 Estou convicto da visão pré-tribulacional, uma interpretação de que a igreja não será deixada no mundo durante os sete anos da Tribulação descrita em Apocalipse 6-18. Embora seja minha convicção pessoal, reconheço que se uma posição milenar é uma doutrina de segunda ordem, a relação da igreja com o período da Tribulação é ainda menos certa. Os textos podem ser organizados e interpretados para apoiar o pré-tribulacionismo e o pós-tribulacionismo, e também há proponentes do midi-tribulacionismo, arrebatamento parcial e arrebatamento pré-Ira. Qualquer que seja a visão adotada, uma medida de humildade e graça para com os outros é garantida. Com isso em mente, eu entendo que a visão pré-tribulacional seja a mais coerente e plausível.

O pré-tribulacionismo é frequentemente associado ao dispensacionalismo. Duas notas importantes devem ser observadas. Primeiro, a palavra dispensação é uma tradução da palavra oikonomia, referindo-se literalmente à “lei da casa” ou como as coisas funcionam. Das sete ocorrências no Novo Testamento, quatro são traduzidas como “dispensação” na Almeida Revista e Atualizada (ARA: Efésios 1.10; 3.2,9; Colossenses 1.25), mas nenhuma é traduzida por essa tradução na Nova Versão Internacional (NVI). Efésios 3.2, onde o termo é traduzido como “administração” pela NIV, é a instância mais crítica em que a ARA traduz a palavra “dispensação da graça”. Em qualquer caso, a palavra foi associada à teoria dispensacionalista. Essa perspectiva identifica sete períodos ou dispensações em que Deus varia seus métodos de lidar com a família humana. Em segundo lugar, nem todos os milenaristas são dispensacionalistas. Na verdade, nem todos os pré-tribulacionistas são dispensacionalistas. É necessário deixa isso claro. Às vezes certos estudiosos pensam que por aceitar certos elementos de uma estrutura sistemática somos obrigados a abraçar todo o sistema fechadinho. Tenho postulado isso, pois mesmo como pentecostal não sou obrigado a abraçar tudo no universo sistemático do pentecostalismo. Tudo deve ser levado ao tribunal da Palavra de Deus.

Certamente há diferenças entre as maneiras pelas quais Deus lida com os humanos sob a lei e após o advento de Cristo. Mas a própria salvação sempre foi mediada pela graça por meio da fé (Gênesis 15.6; Romanos 4.3) e sempre com base na obra de Cristo na cruz (Apocalipse 13.8). No final das contas, o conceito de dispensações não é realmente determinante para nenhuma das visões. Oportunamente nos deteremos no assunto. Aqui, me limito ao tratamento da visão pré-tribulacional.

Existem, no entanto, boas razões para acreditar que a igreja será tirada do mundo antes da tribulação.

I. O fundamento lógico para um arrebatamento pós-tribulação da igreja é difícil de estabelecer.

Diz-se que os santos de Deus reinam com Cristo na terra milenar. Mas se a igreja está, embora não seja o objeto da Tribulação, e se os verdadeiros crentes vivos na vinda do Senhor forem arrebatados por Cristo na Parusia (1Tessalonicenses 4.15-18), qual poderia ser o propósito desse rapto quando eles retornam imediatamente à terra? Se, por outro lado, a igreja é removida da terra antes da Tribulação e retorna com Cristo no início do Milênio, como é a crença pré-tribulacional, então o êxodo da igreja faz sentido. Primeiro, a igreja não é deixada para sofrer o derramamento da ira de Deus na terra. Em segundo lugar, eventos como o bema, o tribunal de Cristo e as bodas do Cordeiro têm tempo de acontecer no céu. Vejo isso como um dos fatores determinantes para abraçar a crença pré-tribulacional, ou seja, a postulação de que o Senhor Jesus arrebatará Sua Igreja antes da Grande Tribulação.

 

II. Um problema ainda mais abrangente surge se um arrebatamento pós-tribulação for previsto.

O Novo Testamento é claro que quando Cristo é revelado e os cristãos são arrebatados para Ele, tanto aqueles que “dormem” em Jesus e aqueles que estão vivos em Sua vinda serão glorificados (1Coríntios 15.50-53; 1Tessalonicenses 4.13-18). Até onde é possível saber, Jesus parece indicar que os corpos glorificados ou ressuscitados, embora infinitamente superiores aos corpos físicos devastados pelo pecado, não terão a capacidade de atos ou resultados reprodutivos (Mateus 22.29-30). Isso não seria necessário no reino celestial.

Portanto, se todo crente verdadeiro é glorificado em um arrebatamento pós-tribulação e se apenas os crentes entram no milênio (Mateus 25.31-46), como o Reino Milenar é repovoado? Após os resultados devastadores da Grande Tribulação com a dizimação da maior parte da população mundial, o repovoamento durante o Milênio é essencial. Na verdade, quando Satanás é libertado na conclusão do Milênio por um curto período de tempo (Apocalipse 20.1-9), ele tem seguidores imediatos. Como isso é possível se o reino milenar consiste apenas de crentes glorificados? Como é possível para ele ter seguidores? Será que alguns crentes-glorificados se rebelarão e se unirão a Satanás?

Em contraste, o pré-tribulacionismo explica facilmente esses eventos. A igreja é arrebatada a Cristo e glorificada no início da Tribulação. Durante o período da Tribulação, 144.000 judeus e um número considerável de gentios virão à fé (Apocalipse 7.1–9). Aqueles que não foram martirizados pelo Homem do Pecado (isto é, o príncipe por vir) estarão vivos (Daniel 9.26), vivendo em seus corpos físicos, embora caídos, na volta do Senhor; e eles se tornarão os primeiros habitantes da Era do Reino (Mateus 25.31-46). Visto que eles estão em seus corpos ainda não glorificados, eles podem e devem repovoar a Terra durante o Milênio. Claro, sua progênie também deve se arrepender e exercer fé em Cristo para ser salva. Embora tudo confirme externamente o reinado milenar de Cristo, a libertação de Satanás na conclusão do milênio (Apocalipse 20.7-8) dará oportunidade para aqueles cujos corações estão em rebelião se manifestarem como descrentes.

Se alguns sugerem que a salvação das pessoas durante a Tribulação constitui uma segunda chance, eles se deparam com fatos que são diferentes. Afinal, esses ainda estão vivendo uma vida inicial, e “o homem está destinado a morrer uma vez, e depois enfrentará o julgamento” (Hebreus 9.27). Se alguém objetar que após o arrebatamento da Igreja, os restantes teriam maiores evidências, é necessário apenas reconhecer e também notar que todos os homens tiveram um aumento considerável em evidências após a encarnação de Cristo. Além disso, junto com a maior evidência, aqueles que vivem no período da Tribulação também experimentam engano muito maior (Mateus 24.24).

O pré-tribulacionismo, então, explica melhor como esses diversos conceitos de eventos dos últimos dias se aglutinam uns com os outros. Essa capacidade do pré-milenismo pré-tribulacional de dar um sentido razoável aos eventos escatológicos diversificados é significativa.

 

III. Os primeiros três capítulos do Apocalipse mencionam extensivamente as igrejas.

Mas começando com o cap.4, a menção explícita da igreja nunca ocorre novamente no Apocalipse. Inquestionavelmente, pode-se argumentar que a igreja aparece sob outros símbolos ou expressões, e pode-se defender essa visão. Isso não muda a mudança incomum de menção frequente para ausência total. Se, no entanto, o plano de Deus voltar a um foco distintamente judaico para os eventos da Tribulação (também chamado de tempo de angústia de Jacó, Jeremias 30.4-7), então para a igreja estar ausente dos eventos do período, que constitui a maior parte do texto do Apocalipse, não é surpreendente.

Creio que é forçada a interpretação que coloca a igreja no período descrito entre os capítulos 6 a 18 do livro de Apocalipse. A clara presença da Igreja na Era descrita nos capítulos 2 e 3, e sua ausência nos capítulos 6 a 8, a forte evidência de sua glorificação no céu nos capítulos 4 e 5, e ainda o retorno de Cristo no final do período da Grande Tribulação com Sua noiva adornada no capítulo 19 laboram a favor de uma interpretação pré-tribulacional.

 

IV. Em Apocalipse 3.10, uma promessa notável é feita à igreja em Filadélfia.

Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra.

Vários aspectos importantes desse versículo merecem atenção. Primeiro, há uma hora de provação que virá sobre o mundo inteiro. O próprio Jesus falou de tal tempo, dizendo:

Porque nesse tempo haverá Grande Tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais. Não tivessem aqueles dias sido abreviados, ninguém seria salvo; mas, por causa dos escolhidos, tais dias serão abreviados (Mateus 24.21,22).

 

Uma grande angústia inigualável desde o início do mundo e nunca mais igualada, da qual ninguém sobreviveria se o tempo não fosse limitado, apresenta um conceito que só a exegese mais torturada pode atribuir à queda de Jerusalém. O tempo sobre o qual Jesus falou deve ser sinônimo de um julgamento vindouro para toda a terra.

Em segundo lugar, a promessa feita à igreja de Filadélfia é a isenção desse julgamento. Enquanto a igreja na Filadélfia é dirigida, nas mensagens às sete igrejas históricas, uma aplicabilidade universal tem sido frequentemente observada. Os problemas abordados são visíveis nas igrejas de todas as épocas. Assim também são as realizações das igrejas. As promessas às sete igrejas também se aplicam não apenas a essas congregações históricas, mas a todas as igrejas em todas as épocas. Assim como os crentes de todas as épocas estão isentos dos horrores da segunda morte (Apocalipse 2.11), estão vestidos de pureza branca (3.4), se sentarão com Cristo em seu trono (3.21), então eles estarão protegidos da grande hora da prova. A promessa “eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro” implica ausência de cena e, portanto, a retirada da igreja antes da Tribulação.

 

V. O Novo Testamento parece unânime em sua proclamação do retorno iminente de Cristo.

Numerosas passagens ilustram este ponto, incluindo Filipense 3.20; Colossenses 3.4; 1Tessalonicenses 1.10; Tiago 5.8; Apocalipse 3.3; e especialmente Tito 2.13. Poucos contestam essa doutrina da iminência do retorno de Cristo. Mas tal visão, não apresentando nenhum problema para o amilenismo ou pré-milenismo pré-tribulacional, introduz um enigma significativo para todas as outras perspectivas da relação da igreja com a tribulação.

Se, por exemplo, o pós-tribulacionismo for invocado, então é possível contar desde o início do reinado do Anticristo e saber que sete anos depois Cristo retornará, anulando assim a doutrina da iminência do retorno de Cristo. Ou, para ser ainda mais preciso, a partir do momento em que o príncipe que há de vir (o Anticristo) contaminar o templo (Daniel 9.27), após precisamente 1.260 dias, Cristo retornará à terra. Isso não apenas elimina a possibilidade do retorno iminente de Cristo, mas também tem o infeliz resultado de enganar Jesus ao dizer que ninguém sabia a hora do retorno de Cristo (Mateus 24.36,42,44)! Outro grande problema com a rejeição da doutrina da iminência, e um arrebatamento pré-tribulacional, é o fato dos escritores bíblicos sempre chamarem os cristãos a vigiar e estarem preparados, pois o Senhor virá a qualquer momento. Todas as visões da relação da igreja com a tribulação, exceto a do pré-tribulacionismo, enfrentam essa mesma dificuldade.

 

VI. Poucos textos na Bíblia apresentam tanta dificuldade para os intérpretes quanto a profecia das 70 semanas de Daniel em Daniel 9.20-27.

No entanto, a decisão sobre o terminus a quo e o terminus ad quem das 69 semanas é determinado; a última ou septuagésima semana da profecia corresponde ao período de sete anos da Grande Tribulação. Um governante surge na septuagésima semana ou na última semana de anos proféticos que submerge o mundo na guerra, destrói a cidade de Daniel (Jerusalém) e o santuário (templo). Ele faz isso somente depois de fazer uma aliança com o povo de Daniel de sete anos (a septuagésima semana). Mas, na metade do caminho, ele quebra esse pacto e profana o templo, trazendo grande desolação. Tudo isso diz respeito ao povo de Daniel, Israel e à cidade sagrada, que é Jerusalém. Assim, a profecia da septuagésima semana diz respeito ao Israel étnico e é interrompida a partir da sexagésima nona semana por um intervalo de tempo (os tempos dos gentios ou a era da igreja, Jeremias 30.4-7). Embora seja concebível que esta septuagésima semana seja de alguma forma contemporânea com a era da igreja, nenhum argumento convincente foi organizado em favor de tal visão; e ver a profecia como relacionada especificamente a Israel na ausência da igreja, que foi transportada para o céu, é mais lógico[1].

 

VII.  Apocalipse 7 registra o selamento dos 144.000.

Estes são declarados judeus, 12.000 de cada uma das 12 tribos de Israel. Sua herança judaica parece mais tarde estabelecida por João, que os distinguiu de uma grande multidão que, por contraste, surge de todas as nações, tribos, povos e línguas. Este evento é precisamente o que o pré-tribulacionista antecipa, mas apresenta sérios problemas para todas as outras visões.

Os amilenistas devem providenciar alguma interpretação simbólica que designe esses 144.000 como outra maneira de falar da igreja ou do povo de Deus em geral. É claro que não é isso que o texto diz, e a visão não explica por que o autor se deu ao trabalho de listar as tribos, especialmente da forma como estão listadas. A questão da intenção autoral também surge novamente, e João, um judeu, parece ter entendido que se tratava de judeus. Parece-me que a visão amilenista está mais interessada com o que o texto significa para sua visão e intenção sistemática do que com a intenção da própria visão e de João. A descrição é claramente de judeus selados no período inicial da Grande Tribulação.

O pós-tribulacionista enfrenta dificuldades semelhantes. Se a igreja ainda estava presente na terra na época desse selamento, por que esses judeus não foram assimilados pela igreja como foi o caso de João, Pedro e Paulo? Nada na discussão posterior dos 144.000 em  Apocalipse 14.1-5 empresta qualquer evidência da presença da igreja, sugerindo que mais uma vez a era dos gentios passou, a igreja foi removida e, mais uma vez, o foco está em Israel durante a grande tribulação.

 

VIII.  Apocalipse 12 apresenta ao leitor uma mulher radiante que dá à luz o Messias.

Identificar adequadamente essa mulher constitui uma chave importante não apenas para aquele capítulo, mas também para todo o livro do Apocalipse. A mulher dá à luz aquele que governará todas as nações. Ela tem que fugir do dragão para um lugar onde estará protegida por 1.260 dias. Esse tempo é mais tarde dado como “tempo, tempos e meio tempo” (12.14; cf. Daniel 7.25; 12.7) ou três anos e meio.

As razões para identificar a mulher como Israel são fornecidas numa exegese simples, literal e normal do cap.12. Basta dizer que, por entender que a mulher é Israel, a passagem concorda com o entendimento da septuagésima semana de Daniel oferecido acima. Isso coloca o capítulo na última metade da grande tribulação e mais uma vez reflete uma era judaica da qual a igreja está ausente.

 

Conclusão: Novamente, há muitas outras razões para descobrir que a igreja não está presente no período de sete anos da tribulação, por exemplo, a Igreja nunca é tida como sofrendo a orge (ira) de Deus – esse também é um forte ponto, pois descreve a natureza da Tribulação (Apocalipse 6.17). É difícil entender como certos intérpretes desejam que a igreja passe pela Tribulação, vejo nisso um desespero para encaixar os textos bíblicos no Sistema interpretativo. De modo geral, um caso não pode ser construído com finalidade ou rejeitado por esta visão ou outras. A igreja deve estar preparada para o sofrimento e a perseguição porque lhe foi prometida essa inevitabilidade (João 16.18-20). Mas há evidências da intervenção de Cristo em favor de sua noiva, tirando-a da ira que certamente virá.

 

Ivan Teixeira



[1] PATTERSON, Paige. The New American Commentary: Revelation (Volume 39). © Copyright 2012 • B & H Publishing Group.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

A DOUTRINA DO ARREBATAMENTO SOB ATAQUE!

 


 Tenho notado ultimamente um ataque atabalhoado e paupérrimo à doutrina bíblica do arrebatamento da Igreja. Muitos no afã de desacreditarem essa doutrina bíblica tão querida aos cristãos que aguardam o Senhor voltar a qualquer momento têm elencado caricaturas ridículas que não merece nossa preciosa atenção, mas apenas salientar o quão ridículo tem sido o desespero dos críticos para negar essa tão cara e importante doutrina do Cristianismo histórico, principalmente do pentecostalismo histórico e bíblico. Apesar de entender que a articulação Sistemática da doutrina do arrebatamento como a temos hoje surgiu inicialmente sob os auspícios dos professores e eruditos do Trinity College, em Dublin, e nas Conferências proféticas de Powerscourt (1831–1833) no século XIX, nós temos observado, de uma forma ou de outra, que certos estudiosos antigos têm tido uma visão de uma Vinda pré-tribulacional de Cristo Jesus para livrar a Sua Igreja da Grande Tribulação. O que prevalece nos Pais da Igreja e noutros teólogos posteriores – tirando o desvio interpretativo alegorizante do amilenismo e pós-milenismo – é um claro entendimento sobre uma vinda a “qualquer momento” e sobre um reino literal de Cristo na Terra. O entendimento de uma “Vinda a qualquer momento” é importante na articulação sistemática do arrebatamento pré-tribulacional. Novamente afirmo com o Dr. Erickson, que é pós-tribulacionista: “Com certeza, o pré-milenismo dos primeiros séculos da Igreja pode ter incluído uma crença num Arrebatamento pré-tribulacional da Igreja [...]”[1].

Deve-se pontuar que a primeira metade do século XIX viu crescer a crença “milenarista desenvolvida a partir das Igrejas Tradicionais que passava pelos canais perfeitamente sensatos de tratados teológicos, periódicos especiais e conferências em casas aristocráticas”[2] e não a partir de lunáticos escanteados ou de um profetismo individualista. Foram o ensino desenvolvido a partir das Igrejas Tradicionais e de grandes professores da época que influenciou tremendamente o pensamento de John N. Darby.

As Conferência Proféticas de Albury Park, no Surrey, em 1826–28, tiveram como anfitrião Henry Drummond, ex-membro da Câmara dos Comuns. Com raras exceções, Drummond convidava leigos e clérigos das igrejas nacionais da Inglaterra e da Escócia. Sobre as Conferências Proféticas Sandeen observou:

Nas reuniões da Conferência propriamente ditas, o programa era igualmente entre os três tópicos de maior interesse na época – cronologia profética, segundo advento e restauração dos judeus. Não se apelava a qualquer argumento ou autoridade nessas sessões a não ser a autoridade de citações bíblicas diretas ou de um argumento cujo objetivo fosse conciliar referências bíblicas[3].

 

Tais Conferências trouxeram um reavivamento profético em Londres e chegaram ao conhecimento de John N. Darby por meio de um certo Bellert em 1827.

Isso diferente muito das argumentações contra o Arrebatamento que são mais baseadas no que teólogo fulano de tal falou, no lugar de uma análise exegética e uma metodologia apropriada, pois um raciocínio claro favorece conclusões claras sobre as doutrinas bíblicas. Análises irônicas, desrespeitosas e vulgares trazem mais confusão do que edificação para a Igreja de Deus. Quando você compara o debate respeitoso e honesto sobre o tema do Arrebatamento de homens do quilate dos doutores Gleason Archer (midi-tribulacional) Paul Feinberg (pré-tribulacionista) e Douglas Moo (pós-tribulacionista)[4] com comentários desrespeitosos e atabalhoados de muitos hoje, você percebe o quanto esses estão distante da erudição honesta. Isso sem falar do amor fraternal cristão!

Mas, lamentavelmente, homens como o erudito N. T. Wright e John Gerstner e o estudioso Hank Hanegraaff chegaram ao absurdo e a desonestidade em suas afirmações contra os que ensinam o Arrebatamento pré-tribulacional dispensacionalista. Já o erudito Vern Poythress, no seu livro Understanding Dispensationlists (Entendendo os Dispensacionalistas), faz uma crítica ao dispensacionalismo de uma maneira respeitosa que se concentra em questões reais. O teólogo aliancista O. Palmer Robertson demonstrou uma crítica gentil e apropriada digna de respeito. Ele escreveu: “[...]. Espera-se que o contínuo intercâmbio possa ser baseado no amor e no respeito”[5]. Mas nem sempre é assim como se ver nas redes sociais e em certos livros.

John Gerstner acusa os dispensacionalistas de ensinarem vários caminhos da salvação[6]. Hanegraff usa um tom “desprezível”, chegando a afirmar que o ensino dispensacionalista é “perigoso! Ameaça o evangelho de Jesus Cristo! Promove uma vida sem lei. Ameaça a divindade de Cristo. E ainda conduz ao racismo. Ele chega a comparar a visão dispensacionalista com as seitas! Diante de tais acusações deixo apenas um ponto para quebrar as “penas” de Hanegraff sobre a acusação “promove uma vida sem lei”: o Dr. John MacArthur é conhecido mundialmente como o grande defensor do senhorio de Cristo. Ele é dispensacionalista pré-tribulacionista e pré-milenarista! Para quem não sabe, a doutrina do senhorio postulada em três grandes livros do Dr. MacArthur afirma uma vida cristã com a lei de Cristo. Aceita-se Jesus como Salvador e como Senhor também!

Já o erudito N. T. Wright fala com desprezo quando diz: “A obsessão americana com a segunda vinda de Jesus – especialmente com interpretações distorcidas dela – continua inabalável. Visto do meu lado do Atlântico, o sucesso fenomenal dos livros Deixados para Trás parece intrigante, até bizarro. Poucos no Reino Unido acreditam que a popular série de romances se baseia: que haverá um “arrebatamento” literal em que os crentes serão arrebatados para o céu, deixando carros vazios batendo em rodovias e crianças voltando da escola apenas para descobrir que seus pais foram levados para estar com Jesus enquanto eles foram "deixados para trás". Esta versão pseudo-teológica [...] supostamente assustou muitas crianças a algum tipo de fé (distorcida)”[7].

Triste perceber que o Dr. Wright se esquece (?) que as Conferências Proféticas que postularam as primeiras sistematizações do arrebatamento pré-tribulacional aconteceram “do meu lado do Atlântico”. E o mais triste é perceber que um erudito do quilate dele elenca contrapontos baseados na série do Dr. Tim Lahaye e Jerry B. Jenkins que todos sabemos que nada mais é do que uma obra ficcional que narra os últimos dias na Terra. Não é um tratado teológico! O Dr. Wright ainda enfatiza que “Jesus não falou de Seu retorno de maneira tão vívida, mas sugere que apenas Paulo o fez”. No entanto, ele se esquece da afirmação de Paulo: “Isto vos dizemos pela PALAVRA do Senhor” (1Tessalonicenses 4.15)!

O arrebatamento da Igreja é sem dúvidas um ensino bíblico e não meramente uma “metáfora” para falar da transformação que os crentes experimentarão no final dos tempos como sugere o Dr. N. T. Wright! O arrebatamento e os eventos a ele relacionados como a ressurreição dos crentes mortos e a transformação dos crentes vivos é uma verdade e um evento literal que há de acontecer a qualquer momento e que será “num abrir e fechar de olhos” (1Tessalonicenses 4.13-18; 1Coríntios 15.51-53).

 

O ARREBATAMENTO FUNDAMENTADO

Tenho debruçado num trabalho amplo sobre a doutrina do arrebatamento da Igreja. Aqui, faço apenas pequenas observações bíblicas.

O ensino neotestamentário de que Cristo poderia voltar a qualquer momento e arrebatar a Sua Igreja sem sinais ou advertências prévias (i.e. iminência) é um argumento tão poderoso em favor do pré-tribulacionismo que se tornou uma das doutrinas mais ferozmente atacadas pelos oponentes da posição pré-tribulacionista. Eles percebem que, se o Novo Testamento de fato ensinar a iminência, um arrebatamento pré-tribulacional estará praticamente assegurado. Essa é uma das chaves hermenêuticas do Sistema teológico dispensacional.

Uma vez que é impossível saber exatamente quando ocorrerá um evento iminente, não se pode contar com a passagem de determinado período de tempo antes que tal evento iminente ocorra. À luz disso, é preciso estar sempre preparado para que ele aconteça a qualquer momento.

As exortações paulinas à Igreja não são para que se prepare para a Grande Tribulação e a morte, mas para que espere a Cristo, que vem do céu (Filipenses 3.20; Tito 2.13; Hebreus 9.28). Também devemos velar e ser sóbrios (1Tessalonicenses 5.6-8; Mateus 24.42, 48; 25.13; Apocalipse 16.15). Outras citações paralelas têm o propósito de manter os cristãos em uma atitude de expectativa, de estarem alerta, porque a qualquer momento o Senhor Jesus Cristo o Salvador pode chamá-los para os Ares (Marcos 13.32-37; Lucas 12.35-40; 21.34-36; Romanos 8.23; 1Coríntios 1.7; 1Tessalonicenses 1.10).

O Dr. John Walvoord declara: “A exortação a que aguardemos a ‘manifestação da glória’ de Cristo para os Seus (Tito 2.13 ARA) perde seu significado se a Tribulação tiver que ocorrer antes. Fosse esse o caso, os crentes deveriam observar os sinais”. Se a posição pré-tribulacionista sobre a Iminência não for aceita, então haverá sentido em procurar identificar os eventos relacionados à Tribulação (i.e., o Anticristo, as duas testemunhas, etc.) e não em esperar o próprio Cristo. O Novo Testamento, todavia, uniformemente instrui a Igreja a olhar para a Volta de Cristo, ao passo que os santos da Tribulação são exortados a observar os sinais.

A exortação neotestamentária a que nos consolemos mutuamente por causa da Volta de Cristo (João 14.1; 1Tessalonicenses 4.18) não mais teria sentido se os crentes tivessem, primeiro, que passar por qualquer porção da Tribulação. Em vez disso, o consolo teria que esperar a passagem pelos eventos da Tribulação. Não! A Igreja recebeu uma “Bendita Esperança”, em parte porque a Volta do Senhor é, de fato, Iminente.

O arrebatamento da Igreja não é mera ficção científica, não é produto dos cineastas de Hollywood e muito menos uma crença espalhafatosa de sensacionalistas futuristas, mas, como disse Paulo, é a “Palavra do Senhor”!

 

Ivan Teixeira!



[1] ERICKSON, Millard J. Contemporary Options in Eschatology, p.112. Grand Rapids: Baker Book House, 1977.

[2] HEMPTON, D. N. “Evangelicalism and Eschatology”, p.182-183. Journal of Ecclesiastical History 31 (Abril de 1980).

[3] SANDEEN, Ernest R. The Roots of Fundamentalism: Britihs and American Milleniarism 1800 – 1930. p.18-21. Chicago: The University of Chicago Press, 1970.

[4] ARCHER, Gleason L. FEINBERG, Paul & MOO, Douglas. The Rapture: Pre-, Mid-, or Post-Tribulational. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1984.

[5] ROBERTSON, O. Palmer. The Christ of the Covenants, p.202. Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 1980.

[6] GERSTNER, John H. Wrongly Dividing the Word of Truth: A Critique of Dispensationalism, p168. Brentwood, TN: Wolgemuth & Hyatt, 1991.

[7] Apud HINDSON, Ed & HITCHCOCK, Mark. Can We Still Believe in the Rapture? Copyright © 2017. Publicado por Harvest House Publishers. Eugene, Oregon 97408.