Mostrando postagens com marcador igreja pentecostal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador igreja pentecostal. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 31 de março de 2021

Escatologia derrotista e futurismo pessimista?

 

Particularmente é difícil acreditar que estudiosos como Harold R. Eberle & Martin Trench (preteristas parciais) acusem descaradamente os que creem na doutrina do arrebatamento iminente de derrotismo, negligência, pessimismo, indiferença social e etc., afirmando que “Precisamos de uma mudança que conduza a Igreja de uma mentalidade de arrebatamento a uma teologia de colheita”. Tal crítica é por demais infundada. Por que devemos mudar a mentalidade de arrebatamento? Ela não é bíblica? Claro que é! É difícil acreditar nas palavras encontrada no livro: “Os cristãos que estão focados na colheita não têm realmente muito tempo para se preocupar com o arrebatamento. Seu objetivo é levar tantas pessoas quanto possível para o Reino nessa preparação para as bodas [olá, não existe bodas sem arrebatamento da igreja!]. Uma escatologia vitoriosa deixará a mentalidade de arrebatamento para trás e colocará a obra da colheita diante de você”[1]. Como assim? Não devo me preocupara com o arrebatamento da Igreja? Os autores tentam nos fazer acreditar que a “mentalidade de colheita” é incompatível com a “mentalidade de arrebatamento”! Isso é ridículo! Por exemplo, hoje o Movimento Pentecostal, mentalidade de arrebatamento pré-tribulacional, é a maior força missionária, principalmente no Sul Global. É fundamental sobre a nossa crença de um arrebatamento a qualquer momento que façamos missões hoje no poder do Espírito Santo, pois não sabemos a que horas virá o Senhor! É fundamental à crença na doutrina do arrebatamento da igreja que “vivamos no presente século, sensata, justa e piedosamente, enquanto aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo” (Tito 2.12, ARA e 13, NVI).

Com os autores eu afirmo altissonante que nós que acreditamos num arrebatamento a qualquer momento não somos uma “Igreja fracassada, que foge pela porta dos fundos enquanto o diabo entra com violência pela porta da frente”[2]. Pelo contrário, os pentecostais invadem até mesmo as periferias e os mais distantes lugares para destronar Satanás, expulsar demônios, impor as mãos sobre os enfermos e até a falar novas línguas em nome de Jesus Cristo!

A visão destes dois preteristas parciais sobre o dispensacionalismo pré-tribulacional é absurdamente incorreta, falsa e criadora de um espalho para eles mesmos esbofetear. Ridícula exposição destes dois teólogos!

Se eles analisassem o impacto do Movimento Pentecostal – cuja o pivô evangelístico e avivalista advém da crença na Vinda do Senhor pré-tribulacional –  nas vidas e na sociedade como um todo teriam uma abordagem diferente ou honesta e mais respeitosa. Eles deveriam entender a visão de vitória dos pentecostais, o vitorioso Cristo venceu e é poderoso para salvar. Os pentecostais creem que Jesus continua o mesmo ontem, hoje e eternamente, e por isso pregam que Ele continua curando e libertando as pessoas. Quantas vidas e famílias inteiras não foram salvas e ressocializadas? As igrejas pentecostais pré-tribulacionistas estão bem presentes nas periferias mais do que outras (poderia traçar uma dura crítica aqui a outras denominações, mas não o farei!). As pregações autenticamente pentecostais trazem impacto no ser humano demandando aos que creem uma vigilante santificação, bem como uma viva esperança no arrebatamento da Igreja. Isso não tem nada de derrotismo e pessimismo, pelo contrário, a escatologia pentecostal é triunfante, pois o Cristo glorificado continua fazendo milagres poderosos pelo Espírito Santo na Igreja e através dela no campo evangelístico e missional.

Acusar os pré-tribulacionistas e, consequentemente pentecostais que creem no arrebatamento da Igreja a qualquer momento de “escapismo” e “derrotismo” é ser bastante ignorante do impacto eclesial, santificante, missional e social que estas verdades causaram, estão causando e podem causar, mormente quando os pentecostais começarem a rejeitar ensinos alienígenas ao seu curriculum histórico e, concomitantemente a retomar no poder do Espírito os cinco pilares do querigma (pregação) e da disdakalia (ensino) pentecostal.

É claro que nós pentecostais também acreditamos que “a Igreja se levantará em vitória e poder antes da volta de Jesus Cristo”[3]. Isso tem sido verdade no Movimento Pentecostal, apesar dos seus devaneios!

Nossa escatologia também é vitoriosa, pois cremos que Cristo virá pessoalmente para implantar o Seu Reino com poder e glória. Cristo, não a Sua Igreja, diferentemente da crença dos autores, é quem irá estabelecer o Reino de Deus aqui na Terra (cf. Daniel 2.34,35,44,45; João 18.36; 2Timóteo 4.1; Apocalipse 2.26—28; 19.11–20.9). Nenhum cristão edifica o Reino de Deus, e nem a igreja implanta o Reino de Deus. É o Cristo que o faz! Posso dizer que uma “escatologia vitoriosa” é cristológica e não eclesiológica. Noutras palavras, a vitória escatológica da igreja encontra-se e resulta da cristologia, do Cristo vitorioso (Apocalipse 3.21). E, como pentecostal, creio e ensino que a vitória cristológica é evidenciada pneumaticamente na igreja. O Espírito de Deus sempre conduz a Igreja no cortejo triunfal de Cristo (2Coríntios 2.14).

Cristo é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores (19.16). A igreja é mais do que vencedora por meio daquele que a amou! (Romanos 8.37). Temos uma escatologia vitoriosa não porque a igreja irá implantar o Reino, ou rejeitar a “mentalidade de arrebatamento”, mas porque Cristo já venceu na cruz, foi assunto aos céus, está a destra do Pai, derramou o Espírito Santo e voltará outra vez pessoalmente para estabelecer o Seu reino aqui na terra, e, juntamente com Sua eleita, a igreja, Ele regerá as nações como o Rei dos reis e Senhor dos senhores com vara de ferro (Daniel 7.13,14,18,22,27; Apocalipse 2.26-28; 12.5; 19.15; 20.4). Isso é escatologia vitoriosa!

Como pentecostal subscrevo uma escatologia vitoriosa como cristológica em sua natureza (morte e ressurreição de Cristo), pneumática em sua realização (revestimento de poder missional) e eclesial em sua instrumentalidade (a igreja como instrumento do Espírito na implantação do Reino de Deus).

Nós pentecostais não adotamos uma escatologia derrotista, uma “mentalidade de arrebatamento” sem missões ou mesmo uma “visão pessimista do futuro” como afirmam os autores Eberle & Trench sobre aqueles que adotam a doutrina do arrebatamento da Igreja. Nós não negamos, juntamente com Paulo, que “os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados” (2Timóteo 3.13), e que nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis (3.1), e que ainda os homens serão mais “amigos dos prazeres que amigos de Deus” (v.4), e, afirmamos que nos últimos dias as pessoas “não suportarão a são doutrina” (4.3), todavia, nós também cremos que Deus nos últimos continua derramando o Seu Espírito sobre os Seus filhos e filhas para exercerem um ministério carismático e de poder testemunhal do Cristo que virá (Atos 2.17,18). Isso, senhores, não é escatologia pessimista e derrotista, mas realista, esperançosa e pneumática!

Assim é uma escatologia de um pentecostal pneumático!



[1] EBERLE, Harold R. & TRENCH, Martin. Escatologia Vitoriosa: Uma Visão Preterista Parcial, p.12. Brasília, DF, Brasil: Editora Chara, 2014.

[2] EBERLE, Harold R. & TRENCH, Martin. Escatologia Vitoriosa: Uma Visão Preterista Parcial, p.12. Brasília, DF, Brasil: Editora Chara, 2014. Essa frase vem de Cal Pierce no Prefácio, mas claramente reflete a ideia dos autores.

[3] EBERLE, Harold R. & TRENCH, Martin. Escatologia Vitoriosa: Uma Visão Preterista Parcial, p.11. Brasília, DF, Brasil: Editora Chara, 2014.

terça-feira, 2 de março de 2021

TRISTEZA DE CORAÇÃO: Sentimento que Levou Neemias a Fazer uma Grande Obra

Leitura Seleta: Neemias 2.1-2

INTRODUÇÃO: Tenho lamentado profundamente a indiferença dos cristãos atuais. A apatia tem sido um sentimento predominante no meio dos cristãos. Refiro-me a apatia e indiferença para com Deus e Sua obra. Muitos cristãos são indiferentes e não têm nenhum compromisso com as igrejas locais e suas necessidades.


Aparentemente os que se dizem cristãos não têm mais sentimentos de empatia ou estão tão insensíveis às coisas de Deus que não mais se entristecem ao verem a miséria, a ruína e os destroços prevalecendo em nosso meio.

O cenário é estarrecedor!

A situação é desestimulante para qualquer pastor, pregador ou líder que preza pela honra de Deus e pela edificação do povo de Deus.

O Nome de Deus está sendo blasfemado e negado, e nós estamos de braços cruzados.

A casa de Deus que deveria ser um lugar de oração, ensino e adoração têm se tornado um covil de pecadores obstinados.

Em muitos lugares a igreja local têm se tornado um circo. A palavra de ordem é: Divirtam os bodes, negligenciem as ovelhas!

É duro dizer, mas somos conclamados pelos líderes populares a maquiar nossa tristeza com um falso sorriso. Como podemos manter um sorriso se a casa de Deus está em ruínas? Como devemos fingir que as coisas estão bem se as portas estão queimadas a fogo e os muros derribados? Como iremos festejar se as torres do discipulado cristão estão inconclusas?

Ó meus irmãos, os muros doutrinários estão derribados!

Os limites teológicos foram removidos!

As portas da liberdade cristã estão queimadas a fogo!

Lamentavelmente, as torres do discipulado estão inconclusas.

Há igrejas locais que estão se arrastando domingo após domingo. Outras já fecharam as portas, pois a ruína toma conta do cenário eclesiástico e ministerial.

Miséria, desprezo e ruínas são as palavras da vez!

Porém, o mais doloroso e terrível do que os muros derribados, portas queimadas, torres inconclusas tem sido a apatia dos que se dizem povo de Deus. Esses estão mais preocupados com seu ventre e seus pequenos reinados de sucesso do que com Deus e Sua obra.

Muitos dizem que servem a Deus, mas, como disse Paulo, o deus deles é o próprio ventre, visto que só pensam nas coisas terrenas (Fp 3.19: “O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia; visto que só se preocupam com as coisas terrenas”).

É triste, pois, muitos são mais “amigos dos prazeres que amigos de Deus” (2Tm 3.4).

Há pessoas que veem tal cenário no evangelicalismo atual e isso não os inquieta e nem os entristece.

Há pastores que não mais se importam com o bem-estar do rebanho de Deus.

Há muitos líderes que já não amam mais a obra de Deus. Eles não perguntam mais sobre o estado de Jerusalém como Neemias perguntou.

Muitos pastores já se tornaram profissionais do púlpito.

Também enxergamos cristãos que já não lhes interessa o bem-estar da casa de Deus.

Muitas igrejas locais estão em ruínas e as pessoas não ficam tristes com isso.

Enquanto muitos estão pulando e dançando na presença do rei, Neemias estava triste diante do rei por causa da miséria em que se encontrava a cidade de Deus.

O amor de Neemias por Deus e pelo Seu povo era tão grande que ao saber da miséria e desprezo do povo, dos muros derribados e das portas queimadas ele não acreditou nisso e assentou-se e chorou, e lamentou por alguns dias (1.4).

Aí lemos no capítulo dois que ele estava triste diante do rei (v.1). A tristeza era tão profunda que o rei disse: “Tem de ser tristeza do coração” (v.2).

A tristeza de Neemias não era superficial e nem falsa, era uma tristeza de coração. Essa tristeza vinha do profundo do seu ser. Todo seu ser estava envolto de tristeza porque ele não suportava ver a cidade e o povo de Deus em miséria e ruínas.

Tal situação o incomodava sobremaneira.

Neemias não teve aquele sentimento momentâneo que vemos em muitos durante as festas e congressos. Muitos prometem mil coisas durante o congresso de final de semana, porém quando a segunda-feira começa tudo ficou pra trás. Isso era puro emocionalismo banal.

A tristeza de Neemias era profunda e duradoura. Ele não ficou apenas um dia, mas ele chorou e lamentou por alguns dias. Era uma real e permanente preocupação com a honra de Deus e com o bem-estar do povo de Deus.

Um homem de Deus não consegue ficar alegre enquanto a restauração do povo de Deus não acontece. Paulo o expressou desta maneira: “meus filhos, por quem de novo sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós” (Gl 4.19).

É claro que Neemias era uma pessoa falha como nós, porém existem algumas verdades sobre ele que são dignas de nota. Tais verdades explicam a profunda tristeza que solapava o coração deste servo de Deus.

Creio que você que é homem e mulher de Deus se identificará com Neemias. Creio que você se entristece como Neemias se entristeceu ao contemplar o cenário do cristianismo brasileiro em termos gerais.

Ah, que o Deus de Neemias seja conosco e restaure o Seu povo e reconstrua nossos templos! 


IVAN TEIXEIRA

Minister Verbi Divini



sábado, 30 de janeiro de 2021

TRÊS PERIGOS QUE OS PENTECOSTAIS DEVEM EVITAR

 


Nós pentecostais nos ocupamos de relatar os erros e distorções doutras fluentes da Cristandade, porém percebo que nós mesmo devemos ter cuidado com certos deslizes, erros teológicos e asneiras vistas e ouvidas em nossos púlpitos e congregações – tem muita coisa que não passa de heresias com roupagem do pós-modernismo. Vejamos brevemente algumas:

1. DESPERSONALIZAÇÃO PNEUMÁTICA

Certas pregações e cânticos parecem implicar numa tendência cada vez mais crescente de tratar o Espírito Santo como uma força ou fonte de poder do que como uma Pessoa poderosa da Divindade.

Muitas pregações e louvores no meio pentecostal parecem descrever o Espírito Santo como uma “tomada elétrica” ou um “gerador de energia” que se você descobrir os segredos ou os mistérios (está mais para truques!) então encontrará o poder.

Já vi supostos teólogos no Facebook reduzindo as hipóstases (as Três Pessoas) da Trindade a uma única pessoa: uma heresia conhecida como modalismo. A trindade vai sumir! Certo amigo comentou comigo que tal ensino se encontra nas notas de uma Bíblia de Estudo de certo pastor brasileiro.

Esse perigo não é visto apenas nas mídias sociais ou nas congregações locais, pois até mesmo eruditos influenciados pelo filósofo idealista Georg W. F. Hegel estão despersonalizando o Espírito. Para o dito filósofo o Espírito Santo não passava de um “Espírito absoluto”, indistinguível do processo da história que seguia adiante para a consumação imanente total. Além dessa influência existe também um caráter romantizado e panteísta no Ocidente teológico. Um “Espírito” genérico, inclusivo, uma brisazinha domesticável tem tomando lugar do Espírito das Escrituras que se move poderosamente como um vento veemente e impetuoso. O “Espírito” que se ver em certas teologizações se parece mais com uma “Grande Mãozona” que abraça tudo e a todos indistintamente em seus seios espirituosos. Aquele Espírito que peleja contra os rebeldes pecadores descrito por Isaías é coisa do passado mitológico deste profeta (cf. Isaías 63.10). Cuidado pentecostais!

Para muitos uma teologia cristocêntrica e teológica (do Pai) suscita o espectro de divisões. O “Espírito” abraça mais a todos e a tudo, as classes oprimidas sob o bastão de distinções de autoridade como se ver no conceito Pai e Filho. No pluralismo do pós-modernismo, o Espírito parece a pessoa/coisa certa – “ele” é neutro (na concepção Ocidental). Eis o perigo de certas hermenêuticas ditas pentecostais. Essas são oriundas do inferno para enganar os desprevenidos e romantizados cidadãos de uma pentecostalicidade sem Sinai e sem Calvário.

Estes personagens da erudição progressista se distanciam das grandes verdades doutrinárias do passado, eles querem reinventar as doutrinas, romantiza-las e torna-las mais culturalmente adaptável. Querem ser relevantes em suas teses, tornando o Espírito Santo uma abstração ideológica e subjetiva de sua brasileiridade (falando aqui do nosso Brasil!). A pneumatologia de alguns parece afirmar: “O Espírito é brasileiro!”, cheio de gírias e malandragem. Oh prosélitos duas vezes filhos do inferno!

Abordagens com viés fenomenológico social e psicológico têm reduzido o Movimento Pentecostal meramente a conceitos de religiões experimentais pragmatistas. Perdeu-se o foco bíblico-teológico na abordagem do Movimento Pentecostal. Lembremo-nos que o desvio das igrejas na Europa e nos EUA se deu por meio de eruditos que promoveram como resultado dos seus estudos acadêmicos o liberalismo que matou o povo. O pentecostalismo brasileiro (e noutros lugares) corre este risco. Esses tais doutores são instrumentos de Satanás! Vamos vigiar!

 

2. PRECEDÊNCIA PNEUMÁTICA

Um segundo erro, muito trágico, é a tendência pentecostal de dar precedência ao Espírito Santo em detrimento do Pai e do Filho. Talvez alguns pensem pelo fato do Espírito habitar em nós, que o Pai e o Filho estão distante – lá em cima – e, por isso o Espírito é mais íntimo. Ledo engano, pois o Pai e o Filho vieram habitar nos que creem (João 14.23) pelo Espírito Santo. O próprio Espírito constrói a igreja para habitação de Deus, ou seja, de toda a Deidade: Pai, Filho e Espírito Santo (Efésios 2.18,22). Eu não posso ter o Espírito e não ter o Pai e o Filho; se tenho o Pai, tenho o Espírito e o Filho. Não há precedência e nem detrimento das Pessoas da Santíssima Trindade numa abordagem biblicamente saudável.

Somos informados pelas Escrituras que o Espírito Santo é o Espírito de Jesus, o Espírito de Cristo, o Espírito do Pai e o Espírito de Deus.

O principal papel soteriológico do Espírito Santo é nos unir a Cristo e nos conceder a vida do Pai. O Espírito Santo derrama o amor de Deus em nosso coração (Romanos 5.5). Nós estamos na comunhão do Espírito, que é a comunhão do Pai e do Filho (cf. 2Coríntios 13.14; 1João 1.3, ACF).

Pelo fato de o nosso primeiro contato com o Deus Triúno dever-se ao Espírito Santo, que nos ressuscita da morte espiritual e habita em nós, pode-se concluir, de modo errôneo, que o Espírito é a pessoa acessível da Trindade. Em vez disso, deve-se considerar essa obra do Espírito iniciada pelo Pai e paga e mediada pelo Filho. Mediante a ação do Espírito, as Três Pessoas aproximam-se de nós e nos conduzem à Sua comunhão[1].

Como pentecostais bíblicos, nós devemos ter muito cuidado em nosso fazer teológico.

 

3. PENTECOSTES SEM CÁLVARIO

Tenho alertado sobre este perigo constantemente. Como pentecostais somos tendenciosos a descansar à sombra do evento de Pentecostes, esquecendo-nos do fato de que só chegamos ao Pentecostes porque primeiro passamos pelo Calvário. Pentecostes sem Calvário é uma grande comédia, e Calvário sem Pentecostes seria uma grande tragédia. Calvário e Pentecostes nos conduzem para o plano arquitetônico redentor de Deus aliado ao Sinai.

A eficácia da missão do Espírito por ocasião do Pentecostes é medida por nossa concentração em Cristo no Calvário. O Pentecostes encontra-se inextricavelmente ligado ao Calvário: Noutras palavras, a Missão pentecostal do Espírito resulta e é inerente a Missão do Calvário de Cristo.

Certo escritor fez uma analogia precisa: “No templo jamais se verá a bacia de água colocada antes do altar. O altar é o Calvário, e a bacia de água é o dia de Pentecostes. Um representa o sangue do sacrifício, o outro representa o Espírito santificador”[2]. Exatamente isso, nós não podemos nos banhar nas águas da bacia pentecostal, se ainda não fomos aspergidos pelo sangue do altar do Calvário. No Antigo Testamento, primeiramente se aplicava o sangue sobre a ponta da orelha direita, sobre o polegar da mão direita e sobre o polegar do pé direito com vista a purificação do leproso. Depois disso seria colocado o óleo sobre a orelha direita, no polegar da mão direita e no polegar do pé direito – o óleo sobre o sangue da oferta pelas transgressões (Levítico 14). Nunca se deve colocar o sangue sobre o óleo. É impossível o Pentecostes preceder o Calvário, ou que o derramamento do Espírito pudesse ter vindo antes do derramamento do sangue. Antes do derramamento do Espírito (Pentecostes), é necessário o derramamento do sangue (Calvário).

O berço de Belém deve anteceder o berço do Cenáculo. O nascimento do Filho de Deus, deve anteceder o nascimento da Igreja. O Espírito não pode vir, se o Cristo não for. Se o Espírito está conosco, é prova de que o Cristo já foi e assentou-se à destra do Pai.

Os pentecostais precisam entender que o Espírito Santo não deseja manter nenhuma ligação com um cristianismo sem Cristo. O Cristianismo do Pentecostes é cristológico – centrado em Cristo. Assim como o Cristianismo do Calvário aponta para o Pentecostes pneumatológico.

A primeira experiência de uma pessoa com Deus é promovida pelo Espírito, mas sempre unindo o pecador a Cristo e transformando o crente à imagem de Cristo. Não pode haver Pentecostes sem Calvário, e Calvário sem Pentecostes!

Podemos concentrar-nos no Pentecostes somente depois de termos compreendido o Calvário. O evangelho não é o evangelho do Pentecostes se primeiramente não for o evangelho da cruz de Cristo.

A pregação do evangelho não é sobre o Espírito e este no Pentecostes, mas sobre Jesus Cristo e este crucificado, uma pregação que deve ser realizada na demonstração do Espírito e de poder.

Só é possível ter certeza de onde o Espírito está ativo: onde quer que Jesus Cristo seja declarado o Salvador de pecadores!

 

CONCLUO estes alertas aos pares pentecostais afirmando o meu compromisso de fazer uma teologia nos seguintes moldes: do Pai, em Cristo e pelo Espírito. A salvação é obra do Pai, em Cristo e realizada na vida do pecador pelo Espírito.

Eu não temo adorar ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Sigo o grande Credo Niceno: “o Espírito é adorado e glorificado com o Pai e o Filho”. Não devemos manter o Espírito dividido do Pai e do Filho, e nem preceder o Pai e o Filho pelo Espírito. Devemos preservar e perseverar tanto na confissão da fé quanto na doxologia a doutrina ensinada nas Escrituras da Bendita Triunidade. É nas reuniões congregacionais que essa crença e esse louvor são mantidos ou perdidos. Nós devemos invocar O Pai, NO Filho, PELO Espírito.

Não despersonalize o Espírito, muito menos faça malabarismos interpretativos nos moldes da pós-modernidade. Abraçamo-nos as diretrizes bíblicas e a sabedoria dos séculos em nossa teologia e vida.

 

Ivan Teixeira



[1] HORTON, Michael. Redescobrindo o Espírito Santo: a presença santificadora de Deus na criação, na redenção e na vida cotidiana, p.28. São Paulo, SP, Brasil: Cultura Cristã, 2018.

[2] GORDON, A. J. O Ministério do Espírito, p.28. São Paulo, SP, Brasil: Editora dos Clássicos, 2012.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O ESPÍRITO ANIMA A IGREJA

  


Desde cedo como estudante de teologia aprendi que as doutrinas bíblicas estão interligadas, e o crescimento na compreensão de uma lança luz nas demais. O fato de estudarmos elas separadamente, visa a didática, mas nunca um entendimento separatista e isolacionista. Uma doutrina lança luz noutra doutrina, e o conjunto das doutrinas produzem uma imagem perfeita da verdade revelacional de Deus.

A pneumatologia (doutrina do Espírito Santo) está relacionada com a eclesiologia (doutrina da igreja). Por isso, é legítimo articular uma pneumatologia eclesiológica e uma eclesiologia pneumatológica.

Nós temos tanto as verdades sobre o Espírito Santo relacionadas à Igreja, quanto verdades sobre a Igreja relacionadas ao Espírito. Aliás, sem a pneumatologia não há eclesiologia. O Espírito gera e anima a Igreja!

Claro que a Igreja não anima o Espírito, ela não deriva o Espírito. A Igreja não produz ou caracteriza o Espírito.

Mas o Espírito gera e anima a Igreja. O Espírito faz nascer a Igreja. O Espírito caracteriza e produz a Igreja. A Igreja é de Cristo e do Pai por causa da obra do Espírito Santo. O Espírito é o vínculo entre a Igreja e a Divindade, assim como Ele é o vínculo entre o Pai e o Filho.

Avivamento é uma obra do Espírito vivificando os que estão em Cristo para viver a vida plena do Pai. A vida cristã é animada pelo Espírito. A Igreja tem e vive a vida de Cristo, a imagem do Deus invisível, por meio da animação do Espírito.

O BATISMO pelo Espírito forma o Corpo de Cristo, a Igreja!

A OBRA do Espírito forma a família de Deus Pai, a Igreja!

A CONSTRUÇÃO do Espírito forma o santuário de Deus Espírito Santo, a Igreja!

Sim, o Espírito tem que estar presente para uma verdadeira eclesiologia!

Inácio dizia: “Onde está Cristo está a Igreja”; Tertuliano afirmava: “Onde estão os Três, Pai, Filho e Espírito Santo, aí também se encontra a Igreja, que é o corpo dos Três”; eu afirmo: “Onde está o Espírito, está a Igreja; e onde está a Igreja está o Espírito”. A consistência da Igreja é dependente da presença e ação do Espírito Santo. A Igreja é fruto das Duas Missões do Pai: O Verbo e o Espírito!

 

Sim, o Espírito anima a Igreja!

 

Ivan Teixeira

 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

PENTECOSTALICIDADE DO ENCONTRO

 


Teologia Bíblica Pentecostal da Presença Relacional de Deus

 

Nós pentecostais somos fascinados pela presença de Deus. A presença de Deus nos cativa, nos acorrenta, nos impulsiona e é o maior desejo de um crente pentecostal. A presença de Deus é a marca da espiritualidade pentecostal. Apesar de entender que o querigma cristológico (pregação centrada em Cristo) é central na espiritualidade do pentecostalismo histórico, todavia o âmago deste centro espiritual e querigmático é a presença de Deus. Ou, como tenho argumentado noutro lugar, o encontro presencial com Deus é o centro da nossa espiritualidade e doxologia pentecostal.

Tenho proposto e desenvolvido a tese nos meus escritos que o encontro com Deus deve ser central em todo o contexto pentecostal. Defendo que o Evento de Pentecostes é o evento que torna a presença de Deus em nós – Igreja – pelo Espírito Santo. Apesar de que entendo que existam acusações de que o pentecostalismo seja uma religião subjetivista ou emocionalista, ou ainda centrada no homem – claro, que discordo peremptoriamente. Minha proposta é postular um pentecostalismo centrado no encontro com Deus. Apensar de o encontro litúrgico pentecostal ser teológico (ser centrado em Deus), eu entendo que também seja antropológico[1], pois pessoas se reúnem ali para esse encontra.

Creio que por meio do Espírito Santo nós podemos ter um encontro presencial e relacional com Deus. A Bíblia Sagrada revela que a presença de Deus é relacional e que Ele deseja Se encontrar com o Seu povo.

Olhando a Teologia do Antigo Testamento percebemos que “conhecer a Deus” significa, na mente judaica, ter um relacionamento com Deus, desfrutar de Sua presença relacional. O “conhecer a Deus” no Antigo Testamento não significa meramente obter informações sobre uma pessoa, mas conhece-la e manter comunhão com ela. Noutras palavras, desfrutar de sua presença. Por isso, defendo que a teologia pentecostal – conhecimento de Deus pentecostal – deve seguir esse matiz da mentalidade judaica e não escorregar para um mero conhecimento filosófico e especulativo que traz mais confusão do que edificação para a igreja. Ou usando as palavras de Paulo: nossa teologia deve equilibrar-se numa admoestação que visa o amor que procede de coração puro e de consciência boa e de fé sem hipocrisia, e não se perdendo em loquacidade frívolas. Nossa teologia pentecostal deve promover o serviço de Deus e na fé (cf. 1Timóteo 1.4-6). Noutras palavras, nossa teologia pentecostal ou o labor pentecostal teológico deve nos levar a um encontro com Deus, ao mesmo tempo que leva o povo que ministramos para encontrar-se com Deus.

O pentecostalismo de encontro pode ser desdobrado num variado contexto: Adoração, pregação, missão, discipulado, ministério, hermenêutica, teologia e etc.,

Para exemplificar posso dizer que o encontro com Deus é o centro da adoração pentecostal (Salmo 27.4; 84.2; 95.2; 100.2; Miquéias 6.6-8).

O centro proposital da PREGAÇÃO deve ser mostrar a centralidade de Deus em Cristo por meio do dinamismo do Espírito Santo (1Coríntios 2.1-5; 1Tessalonicenses 1.5-6). Em Gálatas 3.1,2, Paulo usa uma expressão gráfica para dizer que apresentou o Cristo crucificado diante dos olhos das igrejas na Galácia.

A MISSÃO da Igreja deve ser a proclamação da centralidade da glória e das obras de Deus às nações (Salmo 96.3), ou seja, levar os povos a se encontrar com este Deus glorioso e que faz maravilhas. Certa ocasião li nalgum lugar que “liberalismo é levar as pessoas a Cristo, e o Cristianismo é levar Cristo às pessoas”. Talvez haja alguma diferença noutro contexto, mas entendo que tanto levar as pessoas a Cristo como levar Cristo às pessoas resulta num encontro da pessoa com Cristo.

A IGREJA deve levar às pessoas a terem um encontro com Cristo para serem salvas e receberem o refrigério pela presença do Senhor (Atos 3.20).

O DISCIPULADO e o MINISTÉRIO pentecostais devem também se centralizar em levar o novo crente à maturidade de Cristo Jesus por meio da pedagogia do Espírito Santo (Efésios 4.12-16; 1João 2.20; Colossenses 4.12).

A VIDA CRISTÃ deve ser um contínuo desfrutar da presença justa, alegre e tranquilizadora de Jesus por meio do Espírito Santo (Romanos 14.17).

Na COMPREENSÃO das Escrituras o Espírito Santo nos guia na verdade, testifica dela, ilumina a verdade e nos faz conhecer a Deus por meio da verdade (João 14.26; 15.26; 16.13.13-15; 1João 2.20,27). Chamo isso de hermenêutica do Espírito onde o Espírito no leva a compreender a verdade de Deus e nos conduz a um encontro salvador e santificador com Cristo Jesus. O Espírito Santo faz com que a verdade seja viva a tal ponto de nos transforma. Ele é o Espírito que vivifica a Palavra de Deus (João 6.63). E essa Palavra nos vivifica (Salmo 119.25,50,93,107,154).

Assim como estudiosos têm apontado clara e convincentemente que a presença relacional de Deus é realmente o tema central da teologia bíblica[2], seguindo essa visão nós devemos postular que o encontro com a presença relacional de Deus deve ser o coração da teologia pentecostal.

Desde o início no Gênesis percebemos que os seres humanos foram criados para a glória de Deus e para desfrutar a presença relacional de Deus. Todavia, esse relacionamento foi quebrado pela desobediência e pecado. O restante da Bíblia descreve a restauração e renovação desse relacionamento, culminando com Deus habitando com o Seu povo no livro de Apocalipse.


Ivan Teixeira 

 



[1] Isso não tem nada a ver com um culto antropocêntrico.

[2] DUVALL, J. Scott & HAYS, J. Daniel. God Relational Presence: The Cohesive Center of Biblical Theology. PO Box 6287, Grand Rapids, MI 49516-6287. Ebook edition created 2019.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

A IGREJA O REFÚGIO CONTRA AS HERESIAS

 


Santo Ireneu descreveu os hereges como aqueles “que abandonam a doutrina da Igreja”. Ele diz que os hereges acusam de “ingenuidade” e simplicidade os líderes da igreja, pensando que encontraram “algo superior à verdade” (Adv. Haer. V, 20.2). Isso soa (“algo superior”) semelhante as palavras que o Cristo glorificado condenou nas heresias da profetisa Jezabel: “profundezas de Satanás” (Apocalipse 2.24). Essas “profundezas de Satanás” equivalem a doutrinas falsas ou mesmo a “algo superior” que a igreja normalmente ensina. Notem que os seguidores de Jezabel caçoavam dos cristãos “que não conheciam as profundezas de Satanás” (v.24). Mas Cristo diz para estes cristãos: “[...] Outra carga não jogarei sobre vós” (v.24). O Senhor ressurreto vai guarda-los destes hereges jezabelitas. O Cristo glorificado condena fortemente os falsos ensinos!

Heresias nada mais são do que “profundezas de Satanás” produzidas na “sinagoga de Satanás” vindo direto do “Trono de Satanás” (Apocalipse 2.9,13). Os cristãos devem ter cuidado com aqueles que se dizem possuidores de “verdades superiores e reveladas”, mas que diferem gritantemente das doutrinas essenciais da Igreja Cristã.

Normalmente os hereges dizem que encontraram uma “nova verdade” ou “verdades profundas” que os líderes da igreja não conseguiram detectar. O herege sempre sai, segundo eles, da “bolha religiosa”, postulando novas revelações.

Santo Ireneu diz que os tais hereges “[...] andam por caminhos tortuosos, sempre novos e inseguros, mudam continuamente de opinião e como cegos conduzidos por cegos fatalmente cairão na fossa da ignorância aberta diante deles, destinados a procurar sempre e nunca encontrar a verdade” (Adv. Haer. V, 20.2). Pode-se dizer que os tais nunca chegarão ao conhecimento da verdade. Os hereges são homens que resistem à verdade como Janes e Jambres. São pessoas “de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé; eles, todavia, não irão avante; porque a sua insensatez será a todos evidente, como também aconteceu com a daqueles” (2Timóteo 3.7-9). Um herege se autodestruirá, pois, disse o apóstolo Paulo “nada podemos contra a verdade senão em favor da própria verdade” (2Coríntios 13.8).

 

Igreja: Refúgio contra as heresias e Seio para alimentar os crentes!

As igrejas devem ser refúgios contra as heresias perniciosas. As igrejas locais devem ser o seio da educação doutrinária. Posso dizer altissonante que o Espírito Santo alimenta os novos convertidos nos seios da Igreja-Mãe por meio de mestres ungidos. Os mestres são como pais e mães dos cristãos (1Tessalonicenses 2.7,11,12; 2Timóteo 2.1), existe tanto o cuidado disciplinar e firme do pai quanto o afeto, a ternura e o amamentar da mãe. Os Pais já diziam que aqueles que não tem a igreja como Mãe não podem ter a Deus como Pai. São Cipriano de Catargo escreveu: “Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe. Como ninguém se pôde salvar fora da arca de Noé, assim ninguém se salva fora da Igreja”. São Cipriano fala dos obstinados que, conhecendo a verdade, insistem, por ódio ou comodismo pagão, em se apartar da Igreja de Cristo. As palavras de São Cipriano devem ser entendidas no contexto daqueles que estão nas congregações locais e promovem cismas, divisões, dissensões e acabam por prejudicar a unidade congregacional. Sobre os tais o apóstolo Paulo falou que o próprio Deus os destruirá (1Coríntios 3.16,17).

Os pastores devem se dedicar para proporcionar um ambiente de refúgio nas congregações locais aos santos contra as heresias. Os pastores devem proporcionar um ambiente materno nas congregações para alimentar bem os novos convertidos. Os hereges não dormitam em sua semeadura herege. Os pastores devem vacinar os cristãos com a verdade do evangelho para resguardá-los dos vírus mortais dos falsos ensinos.

Nós, disse João, não precisamos que os hereges nos ensinem suas profundezas porque já temos a Unção do Santo que nos ensina todas as coisas e essa Unção é verdadeira (1João 2.20,27). O crente não precisa destes falsos mestres com suas “revelações” e verdades “profundas”, pois o Espírito Santo já vem educando os cristãos por meio de mestres capacitados e ungidos por Ele.

A tonalidade bíblica é que qualquer um que não fale de acordo com o evangelho de Cristo Jesus seja amaldiçoado por Deus! Até mesmo, disse Paulo, se um anjo anunciar outro evangelho (ou perverter o evangelho que recebemos) deve ser rejeitado peremptoriamente (Gálatas 1.6-9). Esses ditos mestres querem “perturbar” a paz doutrinal da Igreja (Gálatas 1.7), e aliciar os incautos e inconstantes que não se firmam na verdade da fé doutrinal. Paulo salientou em Efésios 4.14 que os tais usam de artimanha e astúcia para conduzir os “meninos” ao erro.

Paulo salientou que a igreja deve ser a coluna e firmeza da verdade (1Timóteo 3.15). Ireneu escreveu que “com efeito, em todo lugar, a Igreja prega a verdade, verdadeiro candelabro de sete braços, trazendo a luz de Cristo” (Adv. Haer. V, 20,1). Para o grande bispo de Lyon “A Igreja é como paraíso plantado neste mundo. Portanto, comereis do fruto de todas as árvores do paraíso, diz o Espírito de Deus, o que significa: alimentai-vos de todas as Escrituras divinas, mas não o façais com intelecto orgulhoso e não tenhais nenhum contato com a dissensão dos hereges. Eles afirmam possuírem o conhecimento do bem e do mal e elevam seus pensamentos acima do Deus que os criou, e com a sua inteligência ultrapassam a medida da inteligência” (Adv. Haer. V, 20,2).

Os hereges sempre apontam para o “fruto do conhecimento do bem e do mal” como um passo para alcançar a divindade. Nós, os cristãos, devemos nos deleitar no conhecimento de Deus que foi revelado em Cristo e que nos é ensinado pelo Espírito da Verdade (João 14.17). Nós, os cristãos, não precisamos conhecer as grandes “gnoses” da “árvore do conhecimento do bem e do mal” proposta pelos hereges, pois já temos o Paraklêtos que nos guia em toda a verdade substancializada nas coisas do porvir e na glorificação do Cristo (João 16.13,14).

Nós, cristãos, não precisamos, tal como os hereges, conhecer as “profundezas de Satanás”, pois já temos conhecimento pelo Espírito Santo das “profundezas de Deus” (1Coríntios 2.10) e estamos, pelo mesmo Espírito, crescendo para alcançar o pleno conhecimento do Cristo (Colossenses 1.9,10).

Concluo com as palavras do grande bispo de Lyon: “Todos os hereges são estúpidos e ignorantes quando tratam da economia de Deus e estão por nada ao corrente das obras relativas ao homem, e como cegos, diante da verdade, eles próprios se levantam contra a sua salvação” (Adv. Haer. V, 19.2).

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

DOUTRINA PENTECOSTAL DA IGREJA

 

(Insights iniciais)


Qualquer observador entenderá que a igreja evangélica brasileira enfrenta crises, e que certas deficiências são notadas em seu meio. Nós não precisamos nos esforçar muito para diagnosticar o quão moribunda se encontra as igrejas locais. É claro que há suas exceções e muitos pastores estão orando, pregando e liderando as igrejas para uma desenvoltura, reforma e avivamento. Apesar disso, vemos vários sinais de declínio, capitulação e deficiências nas igrejas locais.

Particularmente, eu creio e prego que nós devemos voltar àquela dependência do Espírito vista nos cristãos neotestamentário sob à luz do Evento do Calvário e do Pentecostes para uma restauração poderosa das nossas congregações locais. Caso as igrejas locais almejam ser bíblicas precisam andar nos trilhos das verdades reveladas tanto no Calvário quanto no Pentecostes. Noutras palavras, a igreja deve ser centrada e edificada por Cristo e n’Ele, mas também é construída pelo Espírito e vivificada, crescente e capacitada n’Ele. Nossa eclesiologia se sustenta sobre o Evento do Cristo crucificado e ressurreto, no Calvário, e sobre o Evento fundante, capacitante e movente do Espírito Santo no Pentecostes. Calvário e Pentecostes são a glória da redenção da humanidade.

Acredito que a eclesiologia pentecostal deve ser construída sobre os pilares do Pentecostes tendo uma consciência retrospectiva da redenção realizada no Calvário. O Calvário aponta para o Pentecostes, e o Pentecostes retrocede para o Calvário. O Cristo e o Espírito, como é peculiar ao Movimento Pentecostal, não são (e não deve ser!) meros adendos externos na construção do edifício eclesiástico. Cristo é a pedra angular, e o Espírito o construtor da morada espiritual de Deus sobre o fundamento dos apóstolos. Os cristãos são pedras vivas na edificação, construção e crescimento do edifício eclesial (1Pedro 2.5). Na eclesiologia fundada pelos apóstolos com o Cristo como pedra angular, nota-se a perpétua e movente ação carismática e pneumática do Espírito para tornar o edifício eclesial numa morada pneumática ou espiritual para Deus Pai (Efésios 2.20-22). Nós pentecostais devemos propor uma eclesiologia formada pelo Espírito sobre o fundamento dos apóstolos tendo o Cristo como a pedra angular.

Essa edificação eclesial pelo Espírito torna os cristãos uma casa do Espírito (ou espiritual) para que sejam um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais (pelo Espírito ou pneumático), agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo (1Pedro 2.5).

Uma eclesiologia pentecostal deve se desenvolver, primeiro, a partir do evento do Calvário que pelo sangue (morte) do Cristo destruiu toda hostilidade do pecador para com Deus Pai, e reconciliou toda a humanidade crente com Deus, formando um só corpo, a Igreja (Efésios 2.14-17). Segundo, articula-se no evento do Pentecostes afirmando que no Cristo, pelo Espírito e por meio do mesmo Espírito, todos os cristãos têm acesso ao Pai (v.18). Essa Igreja Pentecostal, fundada, inaugurada e nascida no Dia de Pentecoste, é totalmente dependente do Espírito para centrar-se no Cristo e n’Ele ser construída. Terceiro, a igreja pelo Espírito fundante-movente e pelo dinamis (poder) capacitador se torna missionária (uma eclesia enviada) e testemunhal (uma eclesia orante) do Cristo ressurreto e exaltado à Destra do Pai (uma eclesia adoradora). A Igreja Pentecostal é missionária, testemunha e adoradora do Cristo que morreu no Calvário e ressuscitou ao terceiro dia e foi assunto à Destra do Pai.

Pode-se dizer que no Cristo, a pedra angular do edifício eclesial, existe uma mega construção pneumática (do Espírito) para morada espiritual de Deus Pai (Efésios 2.20).

O planetário eclesial pentecostal deve orbitar no Calvário e no Pentecostes!

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

JOÃO CALVINO: TEÓLOGO DO ESPÍRITO?

Ministério de “bastidores” do Espírito?

 

O pastor Augustus Nicodemus num livreto tem postulado e popularizado que Calvino é considerado “o teólogo do Espírito Santo”. Ele diz que “esse título não foi dado a Calvino pelos seus contemporâneos, mas sim pelos estudiosos modernos”.

Particularmente, apesar do meu apreço ao grande reformador por alguns dos seus escritos, preciso discordar altissonante desta afirmação dos estudiosos modernos. Isso é forçar demais a barra. O próprio Nicodemus afirmou que Calvino “nunca escreveu uma obra específica sobre o assunto, como, por exemplo, John Owen e Abraham Kuyper, cujos livros sobre o tema são fundamentais para a Igreja contemporânea[1]. Embora em suas Institutas de Religião Cristã João Calvino trate frequentemente da pessoa e obra do Espírito Santo, não dedicou ao assunto um capítulo exclusivo[2].

 

 

Ministério de holofote?

Augustus Nicodemus em sua tentativa para manter o epíteto sobre Calvino como teólogo do Espírito Santo afirma que o mesmo “tinha a visão bíblica-neotestamentário de que o Espírito Santo geralmente agia nos bastidores, como o agente da Trindade”.

O teólogo anglicano J. I. Packer, no seu livro Na Dinâmica do Espírito, falou que o Espírito Santo tem o ministério do holofote. Disse ele:

O Espírito age como um holofote oculto que focaliza a sua luz no Salvador, fazendo-o resplandecer. A mensagem do Espírito para nós nunca é: olhe para mim; escute-me; venha a mim; conheça-me; mas sempre é: olhe para Jesus e veja a Sua glória; ouça-o e escute as Suas palavras; vá a Ele e tenha vida. Conheça-o e prove o Seu dom de alegria e paz.

 

Tal ideia, devo afirmar, não é de todo bíblica. O ministério do Espírito Santo não pode ser definido como um ministério de “holofote” ou como o agente da Trindade que age nos “bastidores” do plano da Redenção. Lendo as Escrituras vemos um ministério claro, ativo e bem presente na vida dos cristãos e das congregações locais.

Devo descartar tanto a assertiva do Dr. Nicodemus de que a visão de Calvino é “bíblica-neotestamentário” quando descreve a atividade do Espírito Santo nos “bastidores” bem como rejeito as postulações do Dr. Packer quando explica o “ministério de holofote” do Espírito: “A mensagem do Espírito para nós nunca é: olhe para mim; escute-me; venha a mim; conheça-me”. No primeiro caso, não há base neotestamentária para um ministério de bastidores do Espírito. Uma simples leitura do livro de Atos desmonta isso! Já no segundo caso, o Cristo glorificado afirmou altissonante: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas”. Isso ressoa pelo menos por sete vezes no livro de Apocalipse. É o Espírito Santo dizendo: “olha para mim; escute-me; venha a mim; conheça-me”, pois tenho muita coisa a te ensinar sobre o Cristo crucificado e exaltado (dos Evangelhos e das Cartas), bem como sobre o Cristo glorificado e entronizado (do livro de Apocalipse). Tenho que descartar peremptoriamente as postulações destes dois estudiosos! Se tem uma coisa certa é que o Espírito Santo atua presente e palpavelmente na Igreja e nos Seus. Se porventura vemo-lo nos bastidores de algumas igrejas, a responsabilidade é dos que apagam o fogo dos Seus carismas e O entristecem com seus pecados. Isso sem falar daqueles que ultrajam o Espírito da graça que revela o gracioso Salvador, Jesus Cristo!

O Livro de Atos dos apóstolos e os escritos de Paulo e de outros no Novo Testamento pontuam de forma extraordinário o ministério bem presente e pungente do Espírito Santo. Esse ministério presente, atuante e movente do Espírito Santo claramente se centraliza na obra e pessoa de Jesus Cristo no convencimento dos pecadores e na edificação dos santos. Mas, Ele não pode ser descrito como um ministério de bastidores.

Uma pequena amostra para você sentir o peso da presença movente do Espírito Santo no livro de Atos. Agora, se isso pode ser chamado de ministério de “holofote” e de “bastidores”, nós precisamos urgentemente ressignificar muita coisa nas Escritura, na Teologia e, é claro, na gramática.

1) Capítulo 1 — A promessa do Espírito Santo (vv.4,5).

2) Capítulo 2 — O derramamento do Espírito Santo (vv.1-4).

3) Capítulo 3 — milagres pelo Espírito Santo (vv.8-10).

4) Capítulo 4 — ousadia pelo Espírito Santo (vv.29-31).

5) Capítulo 5 — a deidade do Espírito Santo (vv.3,4).

6) Capítulo 6 — trabalho no poder do Espírito Santo (vv.2-5).

7) Capítulo 7 — pregação inspirada pelo Espírito Santo (vv.51,55).

8) Capítulo 8 — expansão da igreja pelo Espírito Santo (vv.1-8,15-17,39).

9) Capítulo 9 — conversão pelo Espírito Santo (vv.1-6,31).

10) Capítulo 10 — Céu aberto para salvar pelo Espírito Santo (vv.19,20,44).

11) Capítulo 11 — salvação para todos pelo Espírito Santo (vv.11-14).

12) Capítulo 12 — livramento pelo Espírito Santo (vv.5-11).

13) Capítulo 13 — obra missionária dirigida pelo Espírito Santo (vv.2-9,52).

14) Capítulo 14 — confirmação da obra pelo Espírito Santo (vv.21-27).

15) Capítulo 15 — assembleia de líderes sob o Espírito Santo (vv.8,28).

16) Capítulo 16 — prisão desfeita pelo Espírito Santo (vv.23-34).

17) Capítulo 17 — avanço incessante da igreja pelo Espírito Santo (w.22-30).

18) Capítulo 18 — liderança da igreja através do Espírito Santo (w.9-11,21-23).

19) Capítulo 19 — demonstração de poder pelo Espírito Santo (w.2,11-20).

20) Capítulo 20 — revelação concedida pelo Espírito Santo (vv.22-31).

21) Capítulo 21 — previsão de fatos pelo Espírito Santo (vv.4,11).

22) Capítulo 22 — presença constante do Espírito Santo (vv.6-30).

23) Capítulo 23 — proteção contínua do Espírito Santo (vv. 10-24,35).

24) Capítulo 24 — coragem contínua pelo Espírito Santo (vv.10-I6).

25) Capítulo 25 — convicção total pelo Espírito Santo (vv.6-12,23-26).

26) Capítulo 26 — heroísmo pelo Espírito Santo (todo o capítulo).

27) Capítulo 27 — consolação pelo Espírito Santo (vv.9,10,21-25,35).

28) Capítulo 28 — progressão da igreja pelo Espírito Santo (vv.23-3I)[3].

Parece-me impossível detectar qualquer cristão, ministério e igrejas locais do Primeiro século, pelo livro de Atos, que não tenha sido regenerado, renovado, revestido e impactado pela Pessoa e obra de Deus Espírito Santo. Algumas referências são impressionantes: Atos 13.52: “Os discípulos, porém, transbordavam de alegria e do Espírito Santo”. Atos 9.31: “A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judeia, Galiléia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número”.

Poderíamos dizer que nenhuma atividade, ministério ou reunião era feita sem a Pessoa e a Obra do Espírito Santo. Ele falava, separa, revestia, ajudava e fazia muito mais para a glória de Deus Pai na proclamação do evangelho de Jesus Cristo.

 

Soli Deo Gloria!

  



[1] Jown Owen, The Holy Spirit: His Gifts and Power (Grand Rapids: Kruegel, 1960); Abraham Kuyper, The Work of the Holy Spirit (Grand Rapids: Eerdmans, 1946). Outros autores poderiam ser acrescentados, como o Puritano inglês Thomas Goodwin, e mais recentemente, Benjamim B. Warfield e George Smeaton.

[2] Cf. João Calvino, As Institutas, ou Tratado da Religião Cristã, 4 vols., trad. Waldyr C. Luz (São Paulo: CEP e Luz para o Caminho, 1989). Calvino trata da divindade do Espírito em I.13.14-14, e da sua obra redentora (aplicando a salvação) no livro III, especialmente nos capítulos 1-2.

[3] GILBERTO, Antônio. Teologia Sistemática Pentecostal, p.178. Bangu, RJ, Brasil: CPAD, 2ª Edição: 2008.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

BATISMO NO ESPÍRITO SANTO: APENAS PARA OS APÓSTOLOS?

O conhecido pastor John MacArthur, o qual admiro, em seu Comentário do Livro de Atos, reconhece que o batismo no Espírito foi um evento posterior à conversão, afirmando que eles receberam-no "em forma pouco comum" (p.24), mas postula que é uma experiência exclusivamente para os apóstolos tendo em vista "os seus deveres especiais" (p.24).

Nenhuma descrição de foto disponível.TODAVIA, numa página anterior (p.23) ele tinha afirmado claramente que " ainda que a promessa do poder foi PRINCIPALMENTE para os apóstolos, também prevê SECUNDARIAMENTE que o poder habilitador do Espírito Santo se daria a TODOS os crentes" (p.23).

O ponto é que ele afirma que o evento como posterior à conversão se deu apenas para os apóstolos deixando de identificá-lo como um revestimento de poder - posterior à conversão - para TODOS os crentes, com vistas a missão de testemunhar ousadamente de Jesus.

Isso é um claro exemplo de como nossa Teologia Sistemática ou pressupostos teológicos que levamos ao texto nos impede de ver exatamente o que o escritor bíblico tem a nos dizer sobre o que ele escreveu - neste caso, o batismo no Espírito Santo como revestimento de poder e não como referência à conversão! O Dr. MacArthur num ponto de exegese bíblica chega a dizer isso. Ele afirma que esse batismo de poder - promessa do Pai - é primeiramente para os apóstolos, mas também para todos os crentes. Porém, no final seu pressuposto teológico e a não distinção da linguagem lucana da paulina o leva a dizer que, primeiro que essa experiência pós conversão é apenas para os apóstolos; segundo que TODO o crente já foi batizado no Espírito Santo ignorando assim a perspectiva de Lucas e o uso de suas terminologias. Ele enxerga tudo na óptica paulina! Isso é lamentável.

Para não ser muito extenso nestas minhas observações, apenas afirmo que o pastor MacArthur deixou escapar que para Pedro (e Lucas e os demais) o "batismo no Espírito Santo", "a promessa do Pai", o "poder do Alto", o "revestimento de poder" e etc., não é uma propriedade (ou promessa) SOMENTE para os apóstolos, mas, como disse Pedro em Atos 2.39: "Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar".

E para que não haja ambiguidade sobre a natureza da promessa, Pedro já tinha salientado para os seus ouvintes que a promessa é a descrita pelo profeta Joel (Atos 2.16-21) e não a de Ezequiel que é uma clara referência à conversão!

Ivan Teixeira.
MACARTHUR, John F. Comentario MacArthur del Nuevo Testamento: Hechos, p.23,24.Grand Rapids, Michigan 49505. Editorial Portavoz, 2014.