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segunda-feira, 14 de setembro de 2020

ESCATOLOGIA PENTECOSTAL_O ESPÍRITO_O REINO E O PORVIR

 

Pentecostais e os últimos dias! 

No início do Pentecostalismo os pentecostais ansiavam por uma “nova” era do Espírito nos últimos dias antes da volta de Cristo ("as últimas chuvas"), na qual os cristãos seriam batizados no Espírito Santo para lhes conceder uma consciência mais intensa da presença de Deus, maior unidade e maior poder para a missão, especialmente com sinais carismáticos como cura divina, profecia, unção na pregação, ousadia na evangelização e o falar línguas.

Lembro-me que ao receber o batismo no Espírito Santo a nossa juventude (e todos os novos convertidos!) Postulavam três grandes temas: (1) santificação; (2) evangelização e o (3) arrebatamento da Igreja. Esses temas visíveis no contexto prático litúrgico do pentecostalismo assembleiano são pertencentes aos cinco pilares cristológico do pentecostalismo histórico e pneumático: Jesus salva, Jesus cura, Jesus santifica, Jesus batiza no Espírito Santo e fogo e Jesus voltará brevemente como Rei para governar nesta Terra.

Vale lembrar que foram os críticos do Movimento que enfatizavam as línguas como distintivo identificatório do pentecostalismo, e não os próprios pentecostais. Honestidade deveria permear aqueles críticos que dizem que o Pentecostalismo é meramente um "Movimento de Línguas". Lerdo engano! É, sim, um movimento do Espírito Escatológico manifestando na comunidade cristã os carismas e os poderes do Escaton (porvir). A pregação do Reino de Deus com poder do Espírito manifestado em salvação, libertação, curas, exorcismos, novas línguas e milagres fazem parte da imagem pentecostal raiz da crença dos pentecostais (Marcos 16.15-20; Atos 2.17-21). Assim como o dia de Pentecostes foi marcante para os primeiros cristãos trazendo os “últimos dias” como uma Era do Espírito com poder, os primeiros pentecostais também acreditavam que estavam (e estão!) vivendo nos “últimos dias” ao usar a imagem das “últimas chuvas” como determinante para uma vida de santificação e testemunho missional ante a expectativa da volta iminente de Cristo Jesus para arrebatar a Igreja.

Pode-se afirmar que a escatologia bíblica fornece o impulso inicial da pregação pentecostal e a orientação para o pensamento renovador para uma construção de uma Teologia Pentecostal distinta em vez de ser relegada, como notado historicamente nas demais Teologias Sistemáticas, a uma reflexão tardia do fazer teológico.


Escatologia pentecostal do peregrino!

Os pentecostais afirmam altissonante: “Não somos daqui, somos dos céus!”. Os pentecostais são um povo do Espírito e, consequentemente do Reino e do Porvir. Os pentecostais acreditam que são o povo dos últimos dias, um povo escatológico, um povo do porvir, um povo do céu, um povo que aguarda a plenitude da Nova Era, pelo Espírito, por ocasião da Vinda do Senhor Jesus. Os pentecostais se alinham a Paulo quando disse: “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3.20, ARA), e ao escritor de Hebreus quando descreve os “Heróis da Fé”: “[...] confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra” (11.13). Pedro fala que os cristãos devem se portar “com temor durante o tempo da vossa peregrinação” (1Pedro 1.17). Todavia, nota-se atualmente um “pentecostalismo” prostituto, mundano e enamorado com o secularismo, o pragmatismo e o entretenimento, e viciado nas campanhas mirabolantes norteadas pelas teologias da prosperidade e do empreendedorismo coaching se afastou da escatologia pentecostal do peregrino que almeja chegar ao lar feliz!


O gemido escatológico pentecostal!

Os pentecostais escatológicos bíblicos gemem com o Espírito e a criação porque sabem que estão nos “últimos dias” e aguardam, a qualquer momento, a vinda do Senhor Jesus, “a adoção”, para libertá-los deste “corpo de humilhação” (Romanos 8.23; Filipenses 3.21). Eles não são daqui! Nós pentecostais não aguardamos a vinda do Anticristo, a Grande Tribulação ou mesmo o Dia de YHWH (SENHOR), e muito menos temos pretensão de implantar um “reino” da igreja aqui na terra, infelizmente muitas denominações têm se desviado por este caminho – “império dos homens”. Os pentecostais pneumáticos e escatológicos, tal como os primeiros cristãos, aguardam a Bendita Esperança que pode ocorrer a qualquer momento para os arrebatar “num abrir e fechar de olhos” para o encontro do Senhor nos ares. Como diz um dos nossos cânticos congregacionais: “Nossa esperança é a Sua Vinda, O Rei dos reis vem nos buscar, Nós aguardamos, Jesus, ainda, Té a luz da manhã raiar” (Harpar Cristã, 300). Isso é confuso à mentalidade dos “pentecostalismos” mundanos e que seguem a agenda secular do entretenimento e do empreendedorismo. Estes são descritos na visão do vidente de Patmos como aqueles que se prostituíram, juntamente com os reis da terra, com o vinho da devassidão da “grande meretriz que se acha sentada sobre muitas águas” que embebeda “os que habitam na terra” (Apocalipse 17.1,2). Tais “pentecostalismos” devem ser rejeitados pelos pentecostais pneumáticos que almejam e aguardam a Vinda do Senhor e de Seu reino. Os pentecostais escatológicos cantam: “Eu avisto uma terra feliz, Onde irei para sempre morar; Há mansões nesse lindo país, Que Jesus foi pra nós preparar. Vou morar, vou morar; Nessa terra, celeste porvir!” (Harpa Cristã, 614). Aleluia!


Escaton pentecostal!

Deve-se pontuar que a ênfase pneumatológica pentecostal perpassa a centralidade cristológica (os Cinco Pontos) e visa a esperança escatológica do Reino de Deus em sua plenitude que se dará na volta pré-tribulacional e pré-milenar do Cristo.

Para os pentecostais, seguindo Pedro (Atos 2.17-21), os “últimos dias” chegaram com o nascimento da nova comunidade, a Igreja, evidenciado pelo/no derramamento do Espírito Santo com Seus dons: “profecias, visões, sonhos, maravilhas, prodígios e sinais”. Na perspectiva do escaton pentecostal os δυνάμεις τε μέλλοντος αἰῶνος, “os poderes do mundo vindouro” (ACF) ou “os poderes da Era que há de vir” (NVI) ou ainda “o dinamismo da Era futura” (BP), são desfrutados e experimentados agora porque o cristão tem as primícias do Espírito e são selados e possuem o penhor do Espírito escatológico. O desfrute dos poderes do escaton agora, garante, pelo Espírito, o desfrute da plenitude na Vinda de Cristo Jesus. Se aqui desfrutamos e experimentamos as primícias do Espírito escatológico com Seus carismas e poderes quanto mais por ocasião da vinda do Senhor, nós, os que cremos, desfrutaremos e experimentares a plenitude do Espírito (pneuma), do Reino (basileia) e dos poderes do Porvir (escaton)!


Escatologia pentecostal enraizada no Pentecostes!

A escatologia pentecostal é uma doutrina enraizada no Evento de Pentecostes à luz da hermenêutica de Pedro de que os últimos dias chegaram (Escaton) no derramamento do Espírito (Pneuma) empoderando a Igreja para a proclamação do evangelho do Reino (Basileia) de Deus. Daí minha postulação e proposta para uma escatologia pentecostal sobre os fundamentos do Espírito (pneuma), do Reino (basileia) e do porvir (escaton).

O pentecostal escatológico é pneumático (Espírito e carismas), querigmático (pregação centrada no Rei Jesus) e missional porque experimenta, pelo Espírito, os poderes do mundo vindouro, e proclama “as virtudes Daquele que o chamou e o libertou das trevas transportando-o para o Reino do Filho do Seu amor, e para a Sua maravilhosa luz” (1Pedro 2.9; Colossenses 1.13), e ainda vive na expectativa de que a qualquer momento o Senhor virá arrebatar a Sua Igreja.



TEIXEIRA, Ivan. Escatologia Pentecostal: O Espírito, O Reino e o Porvir, p.20-24. Rio de Janeiro, RJ, Brasil: Editora Ruja, 2021.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

PÁPIAS E O PRÉ-MILENISMO NA IGREJA NOS PRIMEIROS SÉCULOS

  


Papias (grego: Παπίας) viveu, aproximadamente, entre os anos 70 a 140 d.C. Segundo os testemunhos que se têm, era bispo de Hierápolis, na Frígia, atual Pambukcallesi turca. Foi contemporâneo e amigo de Inácio de Antioquia e de Policarpo de Esmirna. Segundo Ireneu de Lião, teria sido ouvinte de João e companheiro de Policarpo. Jerônimo, no De viris Illustribus 18, diz que “Pápias foi bispo de Hierápolis, na Ásia, e discípulo de João.

 

Papias e o milenarismo

Papias tem sido considerado uma importante fonte do ensino “oral dos discípulos dos apóstolos”, já que ele viveu, aproximadamente, entre os anos 70 a 140 d.C. Pápias foi o primeiro a aplicar a palavra clássica exegese (ecsegéseis), que já há muito tempo significava interpretação ou comentário. Seus cinco livros foram intitulados Exegeses das Palavras do Senhor (grego: Λογίων Κυριακῶν Ἐξήγησις(H.E, 39.1).

Papias traz as mais antigas informações sobre a composição dos evangelhos de Mateus e Marcos, e seus textos sempre são procurados por quantos se ocupam da questão das origens e autenticidade dos evangelhos. Seu nome torna-se obrigatório em toda introdução ao Novo Testamento. Segundo Papias, coisa que eu creio, Mateus compôs seu evangelho no “dialeto hebraico”. O evangelho de Marcos não é outra coisa que a interpretação da pregação de Pedro adaptada às várias circunstâncias. Papias estava preocupado, em sua época, não com aquilo que outras pessoas escreviam nos livros ou pensavam sobre certos assuntos, mas queria saber o que os próprios apóstolos do Senhor haviam dito. Ele escreveu: “Se acontecia, por acaso, vir algum dos que tinham seguido os presbíteros, eu me informava a respeito da palavra dos presbíteros [apóstolos, como vemos hoje!]: o que haviam dito André, Pedro, Filipe, Tomé, Tiago, João, Mateus, ou qualquer outro dos discípulos do Senhor” (H. E. III, 39.4).

Papias ensinava, para nosso proveito neste momento, sobre o Reino de Mil anos de Jesus Cristo, depois que a criação for renovada e libertada. Ele era um homem que não apreciava os que falavam muito, e sim os que ensinavam a verdade, e que “junto dos que comemoram os mandamentos do Senhor impostos aos fiéis e nascidos da própria verdade” (H.E. III, 39,3) transmite as verdades ditas pelos presbitérios/apóstolos do Senhor. Ele valorizava como “uma palavra viva e permanente” os ditos provenientes dos presbíteros (apóstolos) e “[...]; o que dizem Aristion e o presbitério João, discípulos do Senhor”, mas dos que “livros” (H.E. III, 29,4).

Eusébio de Cesaréia escreveu que Papias entendeu erroneamente as narrações dos apóstolos sobre o milênio, pois o mesmo afirmava “que haverá mil anos após a ressurreição dos mortos e que o reino de Cristo se realizará materialmente aqui na terra”. O historiador Eusébio confirma que muitos, inclusive Ireneu, que sucederam Pápias seguiram-no nesta visão interpretativa de um reino literal de mil anos quando o Senhor Jesus voltar. Segundo Eusébio (“penso que”) o que os apóstolos narraram sobre o milênio deve ser entendido “figurada e simbolicamente” (HE, III, 29,12).

Deve-se notar que Eusébio (263–339), seguindo a escola alegorizante de Alexandria e também a Agostinho (354–430) e Jerônimo (345–420) cria que a Era áurea de Apocalipse 20, o Milênio, já teria sido estabelecida com a derrota da Roma pagã pela Igreja e pela ascensão do Cristianismo a uma posição de domínio virtual no Império. Neste ponto, as sementes do preterismo, do historicismo e do idealismo lançaram a base da interpretação alegórica e substituíram a interpretação literal da profecia[1] que entendia, conforme Papias e outros Pais como Ireneu (Adv. Haer. V.32.1,2; 33.1,2,3)[2] e Justino Martin, o reinado de Cristo literalmente na Terra por mil anos.

Podemos dizer, sem medo de errar, que o amilenismo e o pós-milenismo começou a ser ensinado por uma Igreja politizada depois de Constantino que não mais estimava a volta iminente de Cristo Jesus e nem o Seu reino literal de mil anos na Terra. Foi necessário, é claro, como tem sido hoje, a rejeição da intepretação literal das profecias e abraçar, via escola alexandrina, interpretações simbólicas, alegóricas e espiritualizantes das profecias. “Uma vez que o futurismo é o produto da aplicação mais coerente de uma interpretação literal ao texto das Escrituras, começou a decrescer à medida que a interpretação alegórica ganhou proeminência na passagem do quarto para o quinto século. Por causa da fusão entre a Igreja e o Estado no tempo de Constantino, muitos líderes da Igreja quiseram suprimir a interpretação literal do pré-milenismo, que colocava o Império Romano no papel de vilão”[3]. Como disse Larry V. Crutchfield: “Não fosse a seca de exegese sadia provocada pelo alegorismo alexandrino e, mais tarde, por Agostinho, quem sabe que tipo de colheita”[4] de uma visão literal das profecias poderia ter produzido – bem antes de John Nelson Darby e do século dezenove!

Não nos assusta certo historiador ter pontuado que a igreja começou nos primeiros séculos como uma noiva indo ao encontro do seu Noivo, mas enamorada com o mundo se tornou uma prostituta satisfeita com os amores e prestígios terrenos[5]. Agora, assentada comodamente no seu trono mundano, desfrutava das riquezas terrenais. O fervor evangelístico diminuiu e a expectativa da Vinda do Senhor foi perdida ou obscurecida. Neste ponto, aproveito para destacar que por ocasião do Movimento Pentecostal (séc. XIX) o entendimento literal das profecias foi abraçado e a igreja se tornou zelosa na evangelização e vigilante em santidade porque acreditava que Jesus poderia vir a qualquer momento.

 

O pré-milenismo dos Pais da Igreja

Claramente os primeiros Pais eram pré-milenistas conforme declara estudiosos como George Eldon Ladd e Robert H. Gundry[6]. Apesar de que devemos ter o cuidado de encaixar qualquer dos Pais da Igreja em sistemas teológicos desenvolvidos como temos hoje, não podemos negar que os primeiros Pais tinham uma forte crença pré-milenar, e que a “Igreja Primitiva”, como pontua Ladd, “vivia na expectativa da volta de Cristo”[7]. Ou seja, criam numa “volta iminente” ou a “qualquer momento” do Senhor Jesus para arrebatar Sua Igreja. A crença coerente dos primeiros Pais na volta iminente de Cristo é um ingrediente-chave das postulações pré-tribulacionistas atuais. O Dr. John Walvoord escreveu: “O fato histórico é que a visão que os primeiros Pais da Igreja tinham da profecia não correspondia àquela que é defendida pelos pré-tribulacionistas hoje em dia [como um Sistema Teológico], exceto pelo ponto importante de que ambos os grupos sustentam a iminência do Arrebatamento”[8], uma doutrina chave para a formulação sistemática do pré-tribulacionismo dispensacional.

 

Doutrina da iminência e as sementes do pré-tribulacionismo!

A posição dos primeiros Pais quanto à iminência e, em alguns casos, referências a um escape à Tribulação (cf. Ireneu, Adv. Haer. V.35) constituem o que pode ser chamado, para citar o Dr. Erickson, “as sementes das quais a doutrina do Arrebatamento pré-tribulacional pôde ser desenvolvida [...]”[9]. Então, afirmar, como alguns, que a doutrina do Arrebatamento pré-tribulacional é invenção da jovem MacDonald e que o Dr. Darby aprendeu dela não se sustenta.

Não apenas temos o testemunho e o entendimento dos Pais sobre a doutrina do Arrebatamento iminente ou vinda pré-milenar, mas também temos uma forte base escriturística tanto para o pré-milenarismo quanto para o pré-tribulacionismo. Por exemplo, várias passagens da Bíblia pontuam que Jesus virá primeiro para os Seus e depois com os Seus (João 14.1-3; 1Tessalonicenses 4.13-18; 2Tessalonicenses 2.1; compare 1Tessalonicenses 3.13; Judas 14; Apocalipse 19.14). O Arrebatamento é caracterizado no Novo Testamento como uma “Vinda para traslado”, na qual Cristo vem para Sua Igreja, levando-a para a Casa de Seu Pai (João 14.3; 1Tessalonicenses 4.15-17; 1Coríntios 15.51-52). Um ponto forte é o fato de que as Bodas ocorrem no céu (Apocalipse 19.7-9), antes da Volta triunfal de Cristo à Terra, acompanhado de Sua Igreja redimida e triunfante (Apocalipse 19.11-16). Isso exige um Arrebatamento pré-tribulacional para que as Bodas e o Tribunal de Cristo tenham lugar.

O Dr. Erickson, que é pós-tribulacionista, reconhece: “Com certeza, o pré-milenismo dos primeiros séculos da Igreja pode ter incluído uma crença num Arrebatamento pré-tribulacional da Igreja [...]”[10]. Isto é, em essência, o que devemos afirmar, pois não destacamos que os primeiros Pais fossem pré-tribulacionistas no sentido moderno e dispensacional do termo, mas apenas que as sementes já se achavam ali, embora, tristemente, foram esmagadas pelas botas do alegorismo e da Igreja Estatal antes que pudessem brotar e dar fruto.

No meu entendimento, sob a visão dos Pais da Igreja que era claramente pré-milenar, nós devemos rejeitar tanto o pós-milenarismo quanto o amilenarismo como postulações de uma igreja politizada e estatal que seguiu interpretações alegóricas de textos proféticos que devem ser entendidos no sentido usual e comum.

 

Ireneu cita Pápias e fala sobre o Reino literal do Milênio

Retornando a Papias (creio que foram necessárias as observações acima) pode-se dizer, junto com o bispo Ireneu, quando se fala das bênçãos e da abundância dos frutos (Adv. Haer. V.33.3)[11] que os santos desfrutarão no Reino milenar que “Tudo isto é crível para os que têm fé. A Judas, o traidor que não acreditava e que perguntava: Como o Senhor poderia criar tais frutos?, o Senhor respondeu: Vê-los-ão os que viverão naquele tempo” ou seja, no tempo do Reino milenar. Após essa descrição Santo Ireneu cita a importante passagem de Isaías que profetizou sobre os gloriosos tempos do Reino Milenar (11.6-9; 65.25), onde “todos os animais se servirão deste alimento, que receberão da Terra, viverão em paz e harmonia entre si e estarão completamente submetidos aos homens” (Adv. Haer. 32.3,4). Ireneu até rejeita aqueles que “se esforçam por aplicar estes textos [Isaías 11.6-9; 65.25) de maneira metafórica àqueles homens selvagens, [...] [que] abraçam a fé e vivem de acordo com os justos”. Em seu argumento o bispo de Lyon afirma que Deus realizará estas coisas “na ressurreição dos justos”, ou seja, no reino milenar. Depois de citar vários textos de Isaías, Jeremias, Ezequiel e de Apocalipse, falando das bênçãos e realidades do reino, Ireneu conclui: “Essas promessas, portanto, significam com toda evidência o festim que esta criação, que recebeu a promessa de Deus, dará aos justos no reino” (Adv. Haer. V. 34,3). Ou seja, a criação que agora geme e está juntamente com dores de parto será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus na ressurreição dos justos no reino milenar. Como diz C. I. Scofield: “Até mesmo a criação animal e material, sob maldição por causa do homem (Gênesis 3.17), será libertada por Cristo (Romanos 8.19-22; comp. Isaías 11.6-9)”[12].

Ireneu rejeitava claramente a intepretação alegórica das profecias sobre o Reino terrestre do “Rei Justo” (Adv. Haer V.34.4). Ele escreveu:

Se alguns quiserem interpretar estas profecias em sentido alegórico não chegarão a acordo entre si sobre todos os pontos e serão refutados pelas próprias palavras sobre as quais discutem e dizem: “Quando as cidades das gentes estarão despovoadas por falta de habitantes e as casas por falta de homens e a terra ficará deserta”. “Eis, pois, diz Isaías, o dia do Senhor terrível, cheio de furor e de ira. Ele vem para tornar deserta a terra e exterminar os pecadores”. Ele diz ainda: “Será eliminada, para que não veja a glória do Senhor”. E depois que isso tiver acontecido, diz: “O Senhor afastará os homens e os que ficarem se multiplicarão sobre a terra”. “Construirão casas que eles mesmos habitarão e plantarão vinhas cujos frutos eles mesmos comerão” (Isaías 6.11; 13.9; 26.10; 6.12; 65.21). Todas estas profecias se referem, sem contestação, à ressurreição dos justos, que se realizará depois do advento do Anticristo e da eliminação de todas as nações submetidas à sua autoridade, quando os justos reinarão sobre a terra, aumentarão pela aparição do Senhor e se acostumarão, por ele, a participar da glória do Pai e, com os santos anjos, participarão da vida, da comunhão e da unidade espirituais, neste reino. Os que o Senhor encontrar na carne, esperando-o vindo dos céus, depois de ter suportado a tribulação e escapado das mãos do ímpio, são aqueles dos quais fala o profeta: “Os abandonados sobre a terra se multiplicarão”, e também todos os que, dentre os pagãos, o Senhor tiver preparado, para que, após ser deixados, se multipliquem sobre a terra, sejam governados pelos santos e sirvam a Jerusalém.

O profeta Jeremias falou mais claramente ainda sobre Jerusalém e o reino que será estabelecido nela, dizendo: “Dirige o teu olhar para o oriente, Jerusalém, e vê a alegria que te vem da parte de Deus! Olha, estão chegando teus filhos a quem vistes partir; eles vêm, reunidos do nascente ao poente pela palavra do Santo, jubilando com a glória de Deus. Despe, Jerusalém, a veste da tua tristeza e desgraça e reveste para sempre a beleza da glória que vem do teu Deus. Cobre-te com o manto da justiça e cinge a cabeça com o diadema da glória eterna. Pois Deus mostrará o teu esplendor a toda a terra que está debaixo do céu e te chamará com o nome que vem de Deus para sempre: Paz-da-justiça e Glória-da-piedade. Levanta, Jerusalém, coloca-te sobre o alto e olha na direção do oriente: vê teus filhos, reunidos desde o pôr do sol até o nascente à ordem do Santo, alegres por Deus ter-se lembrado deles. Eles saíram de ti a pé, arrastados por inimigos, mas Deus os reconduziu a ti, carregados de glória, como por um trono real. Pois Deus ordenou que sejam abaixadas toda alta montanha e as colinas eternas, e se encham os vales para aplainar a terra, a fim de que Israel possa acorrer com segurança, à glória de Deus. Também as florestas e todas as árvores aromáticas darão sombra a Israel, por ordem de Deus. Pois Deus conduzirá Israel com alegria, à luz da sua glória, com a misericórdia e a justiça que dele procedem” (Adv. Haer. V. 35.1).

 

Podemos continuar citando mais textos de Ireneu que demonstram claramente sua crença no cumprimento literal das profecias acerca do Reino do Justo. Ele claramente entende que “a terra será renovada por Cristo e Jerusalém será reconstruída conforme o modelo da Jerusalém do alto” (Adv. Haer. V. 35.2). O entendimento dos pré-milenistas sobre um reino terrestre de mil anos aqui na Terra depois da Volta em glória do Senhor (Apocalipse 19) para cumprir as profecias de Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel e Apocalipse (cap.20) está de acordo com o de Ireneu, esse grande Pai da Igreja, bem como de Pápias.

Pápias e Ireneu, ambos considerados de grande importância no entendimento das verdades bíblicas, se unem com vários outros Pais, na crença de um reino milenar de Cristo Jesus numa terra restaurada após o período da Ira de Deus sobre os pecadores. Afirmar, como alguns, que a crença pré-milenar, e até mesmo pré-tribulacional, são crenças do dispensacionalismo do século XIX não se sustenta e deve ser rejeitada com honestidade.

 

Ivan Teixeira



[1] ICE, Thomas & DEMY, Timothy J. (General Editors). Back to the Future: Keeping the Future in the Future, The Return: Understanding Christ’s Second Coming and the End Times, p.13. Grand Rapids, MI 49501, USA. Kregel Publications, 1999.

[2] Contra as Heresias: Denúncia e refutação da falsa gnose (2ª edição, Paulus, 1994).

[3] ICE, Thomas & DEMY, Timothy J. (General Editors). Back to the Future: Keeping the Future in the Future, The Return: Understanding Christ’s Second Coming and the End Times, p.13. Grand Rapids, MI 49501, USA. Kregel Publications, 1999.

[4] ICE, Thomas & DEMY, Timothy J. (General Editors). The Blessed Hope and the Tribulation in the Apostolic Fathers, The Return: Understanding Christ’s Second Coming and the End Times, p.13. Grand Rapids, MI 49501, USA. Kregel Publications, 1999.

[5] Não me lembro ipsis litteris das palavras e do escritor, mas a essência do que ele escreveu está nas palavras acima.

[6] GUNDRY, Robert H. The Church and the Tribulation, p.173. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1973.

[7] LADD, George Eldon. The Blessed Hope, p.19. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publ. Co., 1956.

[8] WALVOORD, John F.  The Blessed Hope and the Tribulation, p.25. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1955.

[9] ERICKSON, Millard J. Contemporary Options in Eschatology, p.131. Grand Rapids: Baker Book House, 1977.

[10] ERICKSON, Millard J. Contemporary Options in Eschatology, p.112. Grand Rapids: Baker Book House, 1977.

[11] Contra as Heresias: Denúncia e refutação da falsa gnose (2ª edição, Paulus, 1994).

[12] SCOFIELD, C. I. Bíblia de Estudo Scofield, p.1044.  (Holy Bible, 2009, copyright por Oxford University Press, Inc.).