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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

PENTECOSTAIS E OS ÚLTIMOS DIAS!

 


No início do Pentecostalismo os pentecostais ansiavam por uma “nova” era do Espírito nos últimos dias antes da volta de Cristo ("as últimas chuvas"), na qual os cristãos seriam batizados no Espírito Santo para lhes conceder uma consciência mais intensa da presença de Deus, mais santidade, maior unidade e maior poder para a missão, especialmente com sinais carismáticos como cura divina, expulsão de demônios, profecia, unção na pregação, ousadia na evangelização e o falar línguas.

Lembro-me que ao receber o batismo no Espírito Santo a nossa juventude (e todos os novos convertidos!) Postulavam três grandes temas: (1) santificação; (2) evangelização e o (3) arrebatamento da Igreja. Esses temas visíveis no contexto prático litúrgico ou doxológico do pentecostalismo assembleiano brasileiro são pertencentes aos cinco pilares cristológico do pentecostalismo histórico e pneumático: Jesus salva, Jesus cura, Jesus santifica, Jesus batiza no Espírito Santo e fogo e Jesus voltará brevemente como Rei para governar nesta Terra.

Vale lembrar que foram os críticos do Movimento que enfatizavam as línguas como distintivo identificatório do pentecostalismo, e não os próprios pentecostais. Honestidade deveria permear aqueles críticos que dizem que o Pentecostalismo é meramente um "Movimento de Línguas". Lerdo engano! É, sim, um movimento do Espírito Escatológico manifestando na comunidade cristã os carismas e os poderes do Escaton (porvir). A pregação do Reino de Deus com poder do Espírito manifestado em salvação, libertação, curas, exorcismos, novas línguas e milagres fazem parte da imagem pentecostal raiz da crença dos pentecostais (Marcos 16.15-20; Atos 2.17-21). Assim como o dia de Pentecostes foi marcante para os primeiros cristãos trazendo os “últimos dias” como uma Era do Espírito com poder, os primeiros pentecostais (eu continuo postulando!) também acreditavam que estavam vivendo nos “últimos dias” ao usar a imagem das “últimas chuvas” como determinante para uma vida de santificação e testemunho missional ante a expectativa da volta iminente de Cristo Jesus para arrebatar a Igreja.

Pode-se afirmar que a escatologia bíblica fornece o impulso inicial da pregação pentecostal e a orientação para o pensamento renovador para uma construção de uma Teologia Pentecostal distinta em vez de ser relegada, a escatologia bíblica, como notado historicamente nas demais Teologias Sistemáticas, a uma reflexão tardia do fazer teológico.


TEIXEIRA, Ivan. Escatologia Bíblica Pentecostal: O Espírito, o Reino e o Porvir - (no prelo).



quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

PENTECOSTALICIDADE DO ENCONTRO

 


Teologia Bíblica Pentecostal da Presença Relacional de Deus

 

Nós pentecostais somos fascinados pela presença de Deus. A presença de Deus nos cativa, nos acorrenta, nos impulsiona e é o maior desejo de um crente pentecostal. A presença de Deus é a marca da espiritualidade pentecostal. Apesar de entender que o querigma cristológico (pregação centrada em Cristo) é central na espiritualidade do pentecostalismo histórico, todavia o âmago deste centro espiritual e querigmático é a presença de Deus. Ou, como tenho argumentado noutro lugar, o encontro presencial com Deus é o centro da nossa espiritualidade e doxologia pentecostal.

Tenho proposto e desenvolvido a tese nos meus escritos que o encontro com Deus deve ser central em todo o contexto pentecostal. Defendo que o Evento de Pentecostes é o evento que torna a presença de Deus em nós – Igreja – pelo Espírito Santo. Apesar de que entendo que existam acusações de que o pentecostalismo seja uma religião subjetivista ou emocionalista, ou ainda centrada no homem – claro, que discordo peremptoriamente. Minha proposta é postular um pentecostalismo centrado no encontro com Deus. Apensar de o encontro litúrgico pentecostal ser teológico (ser centrado em Deus), eu entendo que também seja antropológico[1], pois pessoas se reúnem ali para esse encontra.

Creio que por meio do Espírito Santo nós podemos ter um encontro presencial e relacional com Deus. A Bíblia Sagrada revela que a presença de Deus é relacional e que Ele deseja Se encontrar com o Seu povo.

Olhando a Teologia do Antigo Testamento percebemos que “conhecer a Deus” significa, na mente judaica, ter um relacionamento com Deus, desfrutar de Sua presença relacional. O “conhecer a Deus” no Antigo Testamento não significa meramente obter informações sobre uma pessoa, mas conhece-la e manter comunhão com ela. Noutras palavras, desfrutar de sua presença. Por isso, defendo que a teologia pentecostal – conhecimento de Deus pentecostal – deve seguir esse matiz da mentalidade judaica e não escorregar para um mero conhecimento filosófico e especulativo que traz mais confusão do que edificação para a igreja. Ou usando as palavras de Paulo: nossa teologia deve equilibrar-se numa admoestação que visa o amor que procede de coração puro e de consciência boa e de fé sem hipocrisia, e não se perdendo em loquacidade frívolas. Nossa teologia pentecostal deve promover o serviço de Deus e na fé (cf. 1Timóteo 1.4-6). Noutras palavras, nossa teologia pentecostal ou o labor pentecostal teológico deve nos levar a um encontro com Deus, ao mesmo tempo que leva o povo que ministramos para encontrar-se com Deus.

O pentecostalismo de encontro pode ser desdobrado num variado contexto: Adoração, pregação, missão, discipulado, ministério, hermenêutica, teologia e etc.,

Para exemplificar posso dizer que o encontro com Deus é o centro da adoração pentecostal (Salmo 27.4; 84.2; 95.2; 100.2; Miquéias 6.6-8).

O centro proposital da PREGAÇÃO deve ser mostrar a centralidade de Deus em Cristo por meio do dinamismo do Espírito Santo (1Coríntios 2.1-5; 1Tessalonicenses 1.5-6). Em Gálatas 3.1,2, Paulo usa uma expressão gráfica para dizer que apresentou o Cristo crucificado diante dos olhos das igrejas na Galácia.

A MISSÃO da Igreja deve ser a proclamação da centralidade da glória e das obras de Deus às nações (Salmo 96.3), ou seja, levar os povos a se encontrar com este Deus glorioso e que faz maravilhas. Certa ocasião li nalgum lugar que “liberalismo é levar as pessoas a Cristo, e o Cristianismo é levar Cristo às pessoas”. Talvez haja alguma diferença noutro contexto, mas entendo que tanto levar as pessoas a Cristo como levar Cristo às pessoas resulta num encontro da pessoa com Cristo.

A IGREJA deve levar às pessoas a terem um encontro com Cristo para serem salvas e receberem o refrigério pela presença do Senhor (Atos 3.20).

O DISCIPULADO e o MINISTÉRIO pentecostais devem também se centralizar em levar o novo crente à maturidade de Cristo Jesus por meio da pedagogia do Espírito Santo (Efésios 4.12-16; 1João 2.20; Colossenses 4.12).

A VIDA CRISTÃ deve ser um contínuo desfrutar da presença justa, alegre e tranquilizadora de Jesus por meio do Espírito Santo (Romanos 14.17).

Na COMPREENSÃO das Escrituras o Espírito Santo nos guia na verdade, testifica dela, ilumina a verdade e nos faz conhecer a Deus por meio da verdade (João 14.26; 15.26; 16.13.13-15; 1João 2.20,27). Chamo isso de hermenêutica do Espírito onde o Espírito no leva a compreender a verdade de Deus e nos conduz a um encontro salvador e santificador com Cristo Jesus. O Espírito Santo faz com que a verdade seja viva a tal ponto de nos transforma. Ele é o Espírito que vivifica a Palavra de Deus (João 6.63). E essa Palavra nos vivifica (Salmo 119.25,50,93,107,154).

Assim como estudiosos têm apontado clara e convincentemente que a presença relacional de Deus é realmente o tema central da teologia bíblica[2], seguindo essa visão nós devemos postular que o encontro com a presença relacional de Deus deve ser o coração da teologia pentecostal.

Desde o início no Gênesis percebemos que os seres humanos foram criados para a glória de Deus e para desfrutar a presença relacional de Deus. Todavia, esse relacionamento foi quebrado pela desobediência e pecado. O restante da Bíblia descreve a restauração e renovação desse relacionamento, culminando com Deus habitando com o Seu povo no livro de Apocalipse.


Ivan Teixeira 

 



[1] Isso não tem nada a ver com um culto antropocêntrico.

[2] DUVALL, J. Scott & HAYS, J. Daniel. God Relational Presence: The Cohesive Center of Biblical Theology. PO Box 6287, Grand Rapids, MI 49516-6287. Ebook edition created 2019.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Evidência do Batismo no Espírito Santo: As Línguas!

 


 


Boa parte dos estudiosos que concordam com a atualidade do dom de línguas não se ofendem com a descrição de Paulo (1Coríntios 12 e 14); TODAVIA, não aceitam a descrição de Lucas de que as línguas são evidência do batismo no Espírito Santo. E quando "aceitam" a perspectiva de Lucas a leem ou submetendo-a a perspectiva paulina da conversão (1Coríntios 12.13) ou a perspectiva da crítica de eruditos do século XX como Hans Conzelmann[1] que divide a história lucana em três períodos dando base a que se entenda o batismo no Espírito Santo dos samaritanos, de Cornélio e os dos efésios como uma experiência ligada a períodos de transição na história da salvação, relacionando o batismo como incorporação no Corpo de Cristo. Por isso, muitos pontuam que os três eventos citados simplesmente descrevem pontos críticos na história da salvação que não mais se repetirão – que o batismo no Espírito, as línguas e as profecias foram pertencentes àquele período e que Lucas não quis postular que tal experiência é normativa ou paradigmática para todos os cristãos em todo o período da igreja, ou mesmo que Lucas quis transmitir que os cristãos do primeiro século falavam em línguas e profetizavam como resultado do batismo no Espírito Santo. Particularmente, entendo, que para Lucas o batismo no Espírito Santo, as línguas e os enunciados proféticos pertencem como promessa do Pai a todos quantos Deus chamar para fazer parte de Sua igreja (cf. Atos 2.39). Seria de grande valia os estudiosos atentarem para essas palavras de Pedro quando explicava o evento aos seus ouvintes que presenciaram os discípulos cheios do Espírito Santo falando noutras línguas.

Lucas claramente associa as línguas ao que João Batista (Lucas 3.16), Jesus (Atos 1.5) e Pedro (Atos 11.16) chamaram CLARAMENTE de batismo no Espírito Santo. Ou seja, para Lucas – e seus ouvintes – o batismo no Espírito Santo foi (e é!) evidenciado pelo falar em línguas (Atos 2.4; 10.46; 19.6), bem como nalguns casos pela profecia (Atos 19.6) e glorificação ou enaltecimento de Deus – adoração-louvor – (Atos 2.11 e 10.46). As línguas, a profecia e os enunciados proféticos-litúrgicos glorificando a Deus não se limitaram a períodos transicionais da História da Salvação, mas pertencem a todos quantos o Senhor nosso Deus chamar – ou seja, a toda a igreja até a vinda do Senhor!

Em três ocasiões explícitas – do que João Batista, Jesus e Pedro chamam de Batismo no Espírito Santo – na narrativa em Atos, Lucas descreve as línguas como evidência de que as pessoas receberam a promessa do Pai – ou o derramamento do Espírito Santo conforme profetizado por Joel. As línguas são no mínimo formas de evidenciar o batismo no Espírito Santo, o que fica inconfundivelmente claro no texto de Atos 10.44-47: “sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo, POIS, os ouvimos falando em línguas e engrandecendo a Deus”. Em duas ocasiões (Atos 8 e 9) as línguas e a profecia estão em vista implicitamente, caso contrário à proposta de Simão ficaria sem sentido (Atos 8.19)! A proposta do erudito James Dunn[2] de que os samaritanos não se converteram, de fato, até que os apóstolos de Jerusalém viessem e impusessem as mãos sobre eles é insustentável à luz do contexto de Atos 8 e do restante do livro escrito por Lucas! Claramente os samaritanos se converteram, mas ainda não haviam recebido o batismo no Espírito Santo – essa é a crença pentecostal clássica!

Você pode até não crê que o dom de línguas ou as línguas como evidência do batismo no Espírito Santo não seja para hoje, ficando restrita ao primeiro século – coisa que não creio! – MAS negar que as línguas, na narrativa lucana, constitua a prova de que as pessoas receberam o “batismo no Espírito Santo” (não que receberam o Espírito na conversão!) é negar a veracidade da narrativa do livro de Atos, portanto é negar a Palavra de Deus por meio de Lucas!

Neste ponto vale pontuar que a proposta do erudito Hans Conzelmann que divide a história lucana em três períodos dando base a que se entenda o batismo no Espírito Santo dos samaritanos, de Cornélio e o dos efésios como pertencente a períodos de transição na história da salvação, relacionando o batismo como incorporação no Corpo de Cristo pode até ser compreensível numa tese ou postulado Sistemático, mas não se sustenta como resultado de exegese quando nega o batismo no Espírito Santo como posterior à salvação, pois todos os cinco eventos citados por Lucas faz referência a experiências de pessoas convertidas recebendo o dom do Espírito Santo evidenciado pelo falar em línguas, profecias e enaltecimento de Deus. Pode-se pontuar que a única exceção seja no caso de Cornélio e os de sua casa que receberam a salvação e o batismo concomitantemente, fato que se pode testemunhar em centenas e em até milhares de vezes quando uma pessoa crê em Cristo e ao mesmo tempo ou concomitantemente recebe o batismo no Espírito Santo. Testemunhei isso várias vezes no meu ministério! Mesmo assim, o batismo no Espírito Santo foi para os salvos e não para que fossem salvos.


TEIXEIRA, Ivan. Batismo no Espírito Santo e Fogo: A Crença Pentecostal na Promessa do Pai, p.59-62. Rio de Janeiro, RJ, Brasil: Editora RUJA, 2021 (prelo).




[1] CONZELMAMM, Hans. The Theology of St. Luke. 2nd ed. Nova York: Harper & Row, 1961.

[2] DUNN, James D. G. Baptism in the Holy Spirit: a re-examination of the New Testament teaching on the gift of the Spirit in relation to Pentecostalism today, p.55-72. Philadelphia/London, Reino Unido: Westminster/SCM, 1970.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

ESCATOLOGIA PENTECOSTAL_O ESPÍRITO_O REINO E O PORVIR

 

Pentecostais e os últimos dias! 

No início do Pentecostalismo os pentecostais ansiavam por uma “nova” era do Espírito nos últimos dias antes da volta de Cristo ("as últimas chuvas"), na qual os cristãos seriam batizados no Espírito Santo para lhes conceder uma consciência mais intensa da presença de Deus, maior unidade e maior poder para a missão, especialmente com sinais carismáticos como cura divina, profecia, unção na pregação, ousadia na evangelização e o falar línguas.

Lembro-me que ao receber o batismo no Espírito Santo a nossa juventude (e todos os novos convertidos!) Postulavam três grandes temas: (1) santificação; (2) evangelização e o (3) arrebatamento da Igreja. Esses temas visíveis no contexto prático litúrgico do pentecostalismo assembleiano são pertencentes aos cinco pilares cristológico do pentecostalismo histórico e pneumático: Jesus salva, Jesus cura, Jesus santifica, Jesus batiza no Espírito Santo e fogo e Jesus voltará brevemente como Rei para governar nesta Terra.

Vale lembrar que foram os críticos do Movimento que enfatizavam as línguas como distintivo identificatório do pentecostalismo, e não os próprios pentecostais. Honestidade deveria permear aqueles críticos que dizem que o Pentecostalismo é meramente um "Movimento de Línguas". Lerdo engano! É, sim, um movimento do Espírito Escatológico manifestando na comunidade cristã os carismas e os poderes do Escaton (porvir). A pregação do Reino de Deus com poder do Espírito manifestado em salvação, libertação, curas, exorcismos, novas línguas e milagres fazem parte da imagem pentecostal raiz da crença dos pentecostais (Marcos 16.15-20; Atos 2.17-21). Assim como o dia de Pentecostes foi marcante para os primeiros cristãos trazendo os “últimos dias” como uma Era do Espírito com poder, os primeiros pentecostais também acreditavam que estavam (e estão!) vivendo nos “últimos dias” ao usar a imagem das “últimas chuvas” como determinante para uma vida de santificação e testemunho missional ante a expectativa da volta iminente de Cristo Jesus para arrebatar a Igreja.

Pode-se afirmar que a escatologia bíblica fornece o impulso inicial da pregação pentecostal e a orientação para o pensamento renovador para uma construção de uma Teologia Pentecostal distinta em vez de ser relegada, como notado historicamente nas demais Teologias Sistemáticas, a uma reflexão tardia do fazer teológico.


Escatologia pentecostal do peregrino!

Os pentecostais afirmam altissonante: “Não somos daqui, somos dos céus!”. Os pentecostais são um povo do Espírito e, consequentemente do Reino e do Porvir. Os pentecostais acreditam que são o povo dos últimos dias, um povo escatológico, um povo do porvir, um povo do céu, um povo que aguarda a plenitude da Nova Era, pelo Espírito, por ocasião da Vinda do Senhor Jesus. Os pentecostais se alinham a Paulo quando disse: “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3.20, ARA), e ao escritor de Hebreus quando descreve os “Heróis da Fé”: “[...] confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra” (11.13). Pedro fala que os cristãos devem se portar “com temor durante o tempo da vossa peregrinação” (1Pedro 1.17). Todavia, nota-se atualmente um “pentecostalismo” prostituto, mundano e enamorado com o secularismo, o pragmatismo e o entretenimento, e viciado nas campanhas mirabolantes norteadas pelas teologias da prosperidade e do empreendedorismo coaching se afastou da escatologia pentecostal do peregrino que almeja chegar ao lar feliz!


O gemido escatológico pentecostal!

Os pentecostais escatológicos bíblicos gemem com o Espírito e a criação porque sabem que estão nos “últimos dias” e aguardam, a qualquer momento, a vinda do Senhor Jesus, “a adoção”, para libertá-los deste “corpo de humilhação” (Romanos 8.23; Filipenses 3.21). Eles não são daqui! Nós pentecostais não aguardamos a vinda do Anticristo, a Grande Tribulação ou mesmo o Dia de YHWH (SENHOR), e muito menos temos pretensão de implantar um “reino” da igreja aqui na terra, infelizmente muitas denominações têm se desviado por este caminho – “império dos homens”. Os pentecostais pneumáticos e escatológicos, tal como os primeiros cristãos, aguardam a Bendita Esperança que pode ocorrer a qualquer momento para os arrebatar “num abrir e fechar de olhos” para o encontro do Senhor nos ares. Como diz um dos nossos cânticos congregacionais: “Nossa esperança é a Sua Vinda, O Rei dos reis vem nos buscar, Nós aguardamos, Jesus, ainda, Té a luz da manhã raiar” (Harpar Cristã, 300). Isso é confuso à mentalidade dos “pentecostalismos” mundanos e que seguem a agenda secular do entretenimento e do empreendedorismo. Estes são descritos na visão do vidente de Patmos como aqueles que se prostituíram, juntamente com os reis da terra, com o vinho da devassidão da “grande meretriz que se acha sentada sobre muitas águas” que embebeda “os que habitam na terra” (Apocalipse 17.1,2). Tais “pentecostalismos” devem ser rejeitados pelos pentecostais pneumáticos que almejam e aguardam a Vinda do Senhor e de Seu reino. Os pentecostais escatológicos cantam: “Eu avisto uma terra feliz, Onde irei para sempre morar; Há mansões nesse lindo país, Que Jesus foi pra nós preparar. Vou morar, vou morar; Nessa terra, celeste porvir!” (Harpa Cristã, 614). Aleluia!


Escaton pentecostal!

Deve-se pontuar que a ênfase pneumatológica pentecostal perpassa a centralidade cristológica (os Cinco Pontos) e visa a esperança escatológica do Reino de Deus em sua plenitude que se dará na volta pré-tribulacional e pré-milenar do Cristo.

Para os pentecostais, seguindo Pedro (Atos 2.17-21), os “últimos dias” chegaram com o nascimento da nova comunidade, a Igreja, evidenciado pelo/no derramamento do Espírito Santo com Seus dons: “profecias, visões, sonhos, maravilhas, prodígios e sinais”. Na perspectiva do escaton pentecostal os δυνάμεις τε μέλλοντος αἰῶνος, “os poderes do mundo vindouro” (ACF) ou “os poderes da Era que há de vir” (NVI) ou ainda “o dinamismo da Era futura” (BP), são desfrutados e experimentados agora porque o cristão tem as primícias do Espírito e são selados e possuem o penhor do Espírito escatológico. O desfrute dos poderes do escaton agora, garante, pelo Espírito, o desfrute da plenitude na Vinda de Cristo Jesus. Se aqui desfrutamos e experimentamos as primícias do Espírito escatológico com Seus carismas e poderes quanto mais por ocasião da vinda do Senhor, nós, os que cremos, desfrutaremos e experimentares a plenitude do Espírito (pneuma), do Reino (basileia) e dos poderes do Porvir (escaton)!


Escatologia pentecostal enraizada no Pentecostes!

A escatologia pentecostal é uma doutrina enraizada no Evento de Pentecostes à luz da hermenêutica de Pedro de que os últimos dias chegaram (Escaton) no derramamento do Espírito (Pneuma) empoderando a Igreja para a proclamação do evangelho do Reino (Basileia) de Deus. Daí minha postulação e proposta para uma escatologia pentecostal sobre os fundamentos do Espírito (pneuma), do Reino (basileia) e do porvir (escaton).

O pentecostal escatológico é pneumático (Espírito e carismas), querigmático (pregação centrada no Rei Jesus) e missional porque experimenta, pelo Espírito, os poderes do mundo vindouro, e proclama “as virtudes Daquele que o chamou e o libertou das trevas transportando-o para o Reino do Filho do Seu amor, e para a Sua maravilhosa luz” (1Pedro 2.9; Colossenses 1.13), e ainda vive na expectativa de que a qualquer momento o Senhor virá arrebatar a Sua Igreja.



TEIXEIRA, Ivan. Escatologia Pentecostal: O Espírito, O Reino e o Porvir, p.20-24. Rio de Janeiro, RJ, Brasil: Editora Ruja, 2021.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

ESCATOLOGIA PENTECOSTAL_O ESPÍRITO_ O REINO E O PORVIR

 

O cristão pentecostal acredita que apesar do cenário sombrio dos últimos dias, como veremos, ele pode proclamar o evangelho da salvação no poder do Espírito Santo levando muitas pessoas a Cristo para serem salvas e acrescentadas à Igreja. O crente pentecostal acredita que somente revestido do poder do Espírito Santo (Atos 1.8) pode-se dá testemunho eficazmente da graça de Deus em Cristo.

O crente pentecostal acredita que o cenário dos últimos dias se revela como uma grande oportunidade para proclamar a grandeza do Reino de Deus na pessoa do Cristo e no poder do Espírito Santo. Ele entende que a Vinda do Senhor é iminente, por isso não perde tempo com os negócios desta vida, porque o seu objetivo é satisfazer àquele que o chamou pelo Espírito. O crente pentecostal vive conscientemente da realidade presente do Reino de Deus, mas, pelo Espírito, possuidor das primícias pneumáticas, anela pela chegada plena do Reino de Deus por ocasião da Vinda do Senhor Jesus. Ele vive o “já” no poder do Espírito, mas espera o “ainda não” tendo as primícias do Espírito (Romanos 8.23). A escatologia pentecostal deve basear-se em três pilares: O Espírito, o Reino e o Porvir! Essa é minha proposta e desafio para o pentecostalismo brasileiro. Claro, que isso nada mais é do que se voltar para as Escrituras (ad fontes pentecostal!).

Nós pentecostais devemos ser o povo do Espírito, a comunidade do reino de Deus e a Noiva que aguarda as bordas do Cordeiro. O Espírito, o Reino e o Porvir devem nortear a pentecostalicidade da Igreja – o ser pentecostal. Procura-se o revestimento do Espírito para se tornar uma testemunha ousada do Cristo (Full Gospel, Atos 1.4,5,8; 2.17,18,39); Busca-se a realidade presente do reinado de Deus e o experimentar de suas dádivas pneumáticas (Romanos 14.17; 1Coríntios 4.20); Espera-se a consumação e a restauração de todas as coisas pela Vinda do Senhor Jesus (Atos 3.21; Romanos 8.23-25).

O pentecostal escatológico vive no presente no poder do Espírito e proclama a grandeza do Cristo pelos Cinco Pontos do Pentecostalismo histórico-bíblico (Salvador, Santificador, Curador, Batizador e Aquele que vem); ele olha para o passado cristológico pelo olhar pneumático, pois foi convencido pelo Espírito do pecado, da justiça e do juízo em relação à obra do Cristo; e, por último o pentecostal escatológico vislumbra o futuro tendo as primícias, o selo e o penhor do Espírito. O pentecostal escatológico vive entre as Eras.


TEIXEIRA, Ivan. Escatologia Pentecostal: O Espírito, O Reino e O Porvir, p.9-11. (Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Editora RUJA, 2021).

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

DOUTRINA PENTECOSTAL DA IGREJA

 

(Insights iniciais)


Qualquer observador entenderá que a igreja evangélica brasileira enfrenta crises, e que certas deficiências são notadas em seu meio. Nós não precisamos nos esforçar muito para diagnosticar o quão moribunda se encontra as igrejas locais. É claro que há suas exceções e muitos pastores estão orando, pregando e liderando as igrejas para uma desenvoltura, reforma e avivamento. Apesar disso, vemos vários sinais de declínio, capitulação e deficiências nas igrejas locais.

Particularmente, eu creio e prego que nós devemos voltar àquela dependência do Espírito vista nos cristãos neotestamentário sob à luz do Evento do Calvário e do Pentecostes para uma restauração poderosa das nossas congregações locais. Caso as igrejas locais almejam ser bíblicas precisam andar nos trilhos das verdades reveladas tanto no Calvário quanto no Pentecostes. Noutras palavras, a igreja deve ser centrada e edificada por Cristo e n’Ele, mas também é construída pelo Espírito e vivificada, crescente e capacitada n’Ele. Nossa eclesiologia se sustenta sobre o Evento do Cristo crucificado e ressurreto, no Calvário, e sobre o Evento fundante, capacitante e movente do Espírito Santo no Pentecostes. Calvário e Pentecostes são a glória da redenção da humanidade.

Acredito que a eclesiologia pentecostal deve ser construída sobre os pilares do Pentecostes tendo uma consciência retrospectiva da redenção realizada no Calvário. O Calvário aponta para o Pentecostes, e o Pentecostes retrocede para o Calvário. O Cristo e o Espírito, como é peculiar ao Movimento Pentecostal, não são (e não deve ser!) meros adendos externos na construção do edifício eclesiástico. Cristo é a pedra angular, e o Espírito o construtor da morada espiritual de Deus sobre o fundamento dos apóstolos. Os cristãos são pedras vivas na edificação, construção e crescimento do edifício eclesial (1Pedro 2.5). Na eclesiologia fundada pelos apóstolos com o Cristo como pedra angular, nota-se a perpétua e movente ação carismática e pneumática do Espírito para tornar o edifício eclesial numa morada pneumática ou espiritual para Deus Pai (Efésios 2.20-22). Nós pentecostais devemos propor uma eclesiologia formada pelo Espírito sobre o fundamento dos apóstolos tendo o Cristo como a pedra angular.

Essa edificação eclesial pelo Espírito torna os cristãos uma casa do Espírito (ou espiritual) para que sejam um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais (pelo Espírito ou pneumático), agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo (1Pedro 2.5).

Uma eclesiologia pentecostal deve se desenvolver, primeiro, a partir do evento do Calvário que pelo sangue (morte) do Cristo destruiu toda hostilidade do pecador para com Deus Pai, e reconciliou toda a humanidade crente com Deus, formando um só corpo, a Igreja (Efésios 2.14-17). Segundo, articula-se no evento do Pentecostes afirmando que no Cristo, pelo Espírito e por meio do mesmo Espírito, todos os cristãos têm acesso ao Pai (v.18). Essa Igreja Pentecostal, fundada, inaugurada e nascida no Dia de Pentecoste, é totalmente dependente do Espírito para centrar-se no Cristo e n’Ele ser construída. Terceiro, a igreja pelo Espírito fundante-movente e pelo dinamis (poder) capacitador se torna missionária (uma eclesia enviada) e testemunhal (uma eclesia orante) do Cristo ressurreto e exaltado à Destra do Pai (uma eclesia adoradora). A Igreja Pentecostal é missionária, testemunha e adoradora do Cristo que morreu no Calvário e ressuscitou ao terceiro dia e foi assunto à Destra do Pai.

Pode-se dizer que no Cristo, a pedra angular do edifício eclesial, existe uma mega construção pneumática (do Espírito) para morada espiritual de Deus Pai (Efésios 2.20).

O planetário eclesial pentecostal deve orbitar no Calvário e no Pentecostes!

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

HERMENÊUTICA PENTECOSTAL: EXPECTATIVA DO ENCONTRO

Exegese do Encontro com Deus

Quando Pentecostais leem a Bíblia uma expectativa de encontro permeia a leitura, a interpretação e a pregação. O Pentecostal ler a Bíblia não meramente para absorver entendimentos teológicos, mas para se encontrar com o Deus que se revelou em Cristo e, agora, é acessível pelo Espírito. Pentecostais não leem a Bíblia como um livro qualquer de História que ficou distante de sua vida, mas eles vêem as histórias bíblicas como suas próprias, e encarnam em si os personagens bíblicos com seus desafios, pecados, derrotas e vitórias por meio de um Deus que não está distante, mas que se envolve, intervém poderosamente salvando, curando, santificando, batizando no Espírito e gerando uma esperança bendita na Vinda do Senhor Jesus. Para o Pentecostal o ambiente da leitura e interpretação (Pregação e ensino também) é gerado ou proporcionado pelo Espírito. Ou seja, ele ler no Espírito, interpreta no Espírito, prega no Espírito, adora e canta no Espírito, evangeliza no Espírito e vive a vida cristã no e pelo Espírito. É o Espírito Santo que proporciona um ambiente expectante do encontro com Deus em Cristo.

 

Isso postula, queiram certos Pentecostais ou não, que nossa hermenêutica (e leitura) da Bíblia difere dos demais - pelo menos de uma grande maioria protestante. MORMENTE, DOS CESSSACIONISTAS!

Podemos, sem medo, pelo menos particularmente, afirmar que a expectativa se torna um fator peculiar na hermenêutica pentecostal e para o hermeneuta, pregador e ouvintes Pentecostais. Tanto o evento da leitura e da interpretação geram uma expectativa, bem como no evento da Pregação, pois tanto o pregador quanto os ouvintes Pentecostais se envolvem na mesma expectativa. Tenho chamado de expectativa do encontro com Deus.

A hermenêutica pentecostal é uma exegese do *encontro com Deus*. A leitura do texto bíblico gera pelo Espírito no crente pentecostal a expectativa de tornar as histórias bíblicas suas próprias histórias.

O crente pentecostal não deve simplesmente divagar no/sobre o texto para meramente angariar informações e postular proposições teológicas. Seu objetivo é existencial, experimentar Deus e se encher da plenitude do conhecimento de Cristo pelo dinamismo do Espírito Santo.

PODE-SE dizer que os Pentecostais seguem a linha da expectativa do judeu na Teologia do Antigo Testamento que entende o conhecer a Deus como um relacionamento real e existencial com Deus, e não meramente um conhecimento teórico sobre Deus, mas DE Deus.

Ivan Teixeira
Pentecostal de Mente e Coração.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

A PROFECIA DO PROFETA ÁGABO

 

Noto que no embate discursivo sobre o dom da profecia certos intérpretes têm postulado que o profeta Ágabo errou nos detalhes como que fazendo acréscimos à mensagem, ou interpretações próprias, que recebeu do Espírito. Vamos a texto de Atos 21.10,11:

Demorando-nos ali alguns dias, desceu da Judeia um profeta chamado Ágabo; e, vindo ter conosco, tomando o cinto de Paulo, ligando com ele os próprios pés e mãos, declarou: Isto diz o Espírito Santo: Assim os judeus, em Jerusalém, farão ao dono deste cinto e o entregarão nas mãos dos gentios.

 

Deve-se notar que antes do profeta Ágabo certos discípulos “movidos pelo Espírito”, recomendavam a Paulo que não fosse a Jerusalém (Atos 20.4). Lucas não registra nenhuma palavra de Paulo sobre o assunto. De Tiro[1] a caravana paulina chegou a Ptolemaida, onde saudaram os irmãos, passando um dia com eles (v.7). No dia seguinte, foram para Cesaréia; e ficaram na casa de Filipe, o evangelista, que era um dos sete, e ele tinha quatro filhas que profetizavam (v.8). Interessante notar que as profetisas não tiveram nenhuma mensagem para Paulo, pelo menos Lucas não registra. Isso pode ensinar muito aos irmãos que nem todas as vezes se deve profetizar ou procurar “forçar” uma profecia. Precisa ser do Espírito, e não de mera preocupação com a “reputação de profeta”, visto que alguns pensam que sendo profetas têm que profetizar a todo o momento. Esse incidente das filhas de Filipe ensina muita coisa com relação ao ministério profético e sobre o exercício do dom de profecia.

Depois de alguns dias desceu da Judeia um profeta chamado Ágabo (v.9), o mesmo profeta que profetizou, pelo Espírito, que estava por vir grande fome por todo o mundo, a qual sobreveio nos dias de Cláudio (11.28). Flávio Josefo relata que ocorreu uma fome por volta do ano 46. Possivelmente na casa do grande evangelista, Ágabo pegou o cinto de Paulo atou-se com ele de mãos e pés, e disse: “Isto diz o Espírito Santo: o dono deste cinto será amarrado em Jerusalém pelos judeus, que o entregarão aos gentios” (v.11).

 

Lições que devemos pontuar!

Creio que algumas observações sobre o incidente como um todo trazem grandes lições para os profetas e sobre o ministério do dom de profecia.

Primeiro, nem todas as vezes o Espírito Santo usa os que reconhecidamente têm o dom de profecia.

Segundo, nem todas as vezes o Espírito falava diretamente com Paulo, mas usava outras pessoas para lhe falar (20.23).

Terceiro, o Espírito Santo pode mover pessoas de longe para trazer uma palavra profética para nós. Ele moveu Ágabo da Judeia para a Cesaréia para entregar uma mensagem à Paulo.

Quarto, o ministério profético e o exercício do dom de profecia eram exercidos tanto por homens quanto por mulheres. Não há menção de exclusividade ministerial. Aqueles ou aquelas que foram capacitados pelo Espírito Santo estavam “livres” para o exercício ministerial, eclesial e missional.

Quinto, os carismas do Espírito eram bastante presentes e abundantes nas reuniões congregacionais dos cristãos do primeiro século, não obstante a presença dos doze apóstolos e dos demais como Paulo. O apostolado das testemunhas oculares do Cristo ressurreto nunca foi um obstáculo ao exercício dos dons espirituais pelos demais crentes. Restringir os carismas e os milagres ao ministério apostólico dos doze é ir contra as Escrituras. Os dons e os milagres eram distribuídos e operados por todos aqueles que o Espírito Santo soberanamente dava.

Sexto, o Espírito Santo é soberano na utilização dos Seus instrumentos. Ele usa quem quer, onde quer e os envia para qualquer lugar. Pode-se indagar o porquê o Espírito Santo não usou as filhas de Filipe ou mesmo outro irmão ali presente, mas foi necessário vir um profeta de longe para falar com Paulo. Apesar de que podemos fazer tais indagações, deve-se entender que em última análise a resposta do Espírito é: Eu quis que fosse assim! Nossa reação deve ser a mesma dos discípulos: “Faça-se a vontade do Senhor” (v.14).

Sétimo, deve-se abrir mão da vontade pessoal e da opinião dos amigos para se fazer a vontade de Deus. Podemos dizer que Paulo abriu mão de tal forma de sua própria vontade que a vontade de Deus se tornou a sua. Noutras palavras, sua vontade era fazer a vontade de Deus e os discípulos compreenderam isso.

Oitavo, os planos de Deus sempre nos surpreenderão e estarão além do nosso alcance e entendimento. Nós devemos à semelhança de Paulo ter prontidão para fazer tudo aquilo que for da vontade de Deus. Se for, como Paulo, para morrer em Jerusalém que morramos. Mas sabemos que não foi da vontade de Deus que Paulo morresse em Jerusalém, pois ainda havia alguma estrada para se caminhar. A vontade e o plano de Deus sempre estarão além das nossas expectativas e, no final nos surpreenderá. O Senhor Jesus disse para Pedro: “O que eu faço não o sabes agora, compreendê-lo-ás depois” (João 13.7).

Nono, um detalhe interessante é que Paulo não se apressa a chegar em Jerusalém. Já se haviam passado seis semanas desde que ele deixara Filipos. De Cesaréia, ele teria de viajar 105km até Jerusalém. Essa jornada levaria dois, senão três dias. Devido aos diversos avisos que Paulo recebera em muitos lugares (20.23), ele não tinha pressa de chegar em Jerusalém. Paulo mesmo sabendo da vontade de Deus e da revelação do Espírito Santo sobre as cadeias e sofrimentos que o esperava ele não se apressa, mas continua exercendo o ministério por onde ele passa. Ele se demora em alguns lugares para pregar aos irmãos e ter comunhão com os santos.

 

Entregue a profecia, sem mais explicações!

Devemos pontuar que a profecia de Ágabo descrevia o que aconteceria a Paulo em Jerusalém caso ele fosse, mas o profeta não deu palpite se ele deveria ir ou não. Ele simplesmente entregou o que o Espírito Santo lhe revelou. Esse é outro aprendizado que os atuais profetas e os que recebem o dom de profecia precisam atentar. Deve-se entregar a mensagem sem mais explicações. A decisão é da pessoa que recebe a mensagem do Espírito. E o texto mostra que Paulo decidiu enfrentar o perigo, pois seu objetivo era anunciar o evangelho de Cristo Jesus também aos gentios. O próprio Senhor Jesus disse a Paulo: “[...]Vai, porque Eu te enviarei para longe aos gentios” (22.21). Era um plano revelado do Senhor Jesus a Paulo ir aos gentios para testemunhar do evangelho da graça. Ágabo, pelo Espírito, o confirmou! Isso é peculiar ao ministério profético e ao dom de profecia.

 

Atos proféticos ou simbolismos encenados!

Outro detalhe, a profecia de Ágabo foi combinada com um “ato profético”, relembrando o simbolismo encenado dalguns profetas do Antigo Testamento. Exemplos, Aías (1Reis 11.29-31), “Isaías, Jeremias e Ezequiel também usaram sinais visuais para avisar os israelitas de seu exílio iminente (cf. Isaías 20.2; Jeremias 13.1-11; Ezequiel 4.1-12)”[2]. É bom notar que as palavras do profeta[3] Ágabo “não são muito diferentes das predições de Jesus a Seu próprio respeito (Lucas 9.44; 18.32; 24.7), bem como as predições do Senhor a respeito de Pedro (João 21.18)”[4].

Sobre isso aprendemos que se pode entregar uma profecia ou uma mensagem do Senhor por meio de atos proféticos para ilustrar ou interpretar a revelação dada pelo Espírito. Não vejo motivo para não o fazer caso necessário. O que não se deve fazer é distorcer ou manipular a revelação dada pelo Espírito. “Atos proféticos” são saudáveis e peculiares ao ministério profético, serve para dramatizar a profecia.

 

Cumprimento da profecia de Ágabo

Agora, leiamos o incidente do cumprimento da profecia de Ágabo em Atos 21:

v.27: Quando já estavam por findar os sete dias, os judeus vindos da Ásia, tendo visto Paulo no templo, alvoroçaram todo o povo e o agarraram, v.30: Agitou-se toda a cidade, havendo concorrência do povo; e, agarrando a Paulo, arrastaram-no para fora do templo, e imediatamente foram fechadas as portas. v.31: Procurando eles matá-lo, chegou ao conhecimento do comandante da força que toda a Jerusalém estava amotinada. v.32: Então, este, levando logo soldados e centuriões, correu para o meio do povo. Ao verem chegar o comandante e os soldados, cessaram de espancar Paulo. v.33: Aproximando-se o comandante, apoderou-se de Paulo e ordenou que fosse acorrentado com duas cadeias, perguntando quem era e o que havia feito.

 

Segundo o texto de Atos 21.11, a essência da profecia de Ágabo era que Paulo seria preso e encarcerado, e ele o foi. Então, não há motivos para afirmar que Ágabo exagerou na profecia ou mesmo que errou ou ainda que fez acréscimos. Ele, tal como outros profetas antes dele, encenou a profecia e a proferiu. E o cumprimento teve detalhes que Ágabo não previu ou que o Espírito Santo não lhe mostrou. É exagero de certos continuístas declarar algum “defeito” ou “erros” na profecia de Ágabo para apoiar o ponto de vista da profecia falível e não canônica (ou seja, aquelas que foram compostas como Escrituras). Não precisamos deste malabarismo para apoiar ou postular o que as Escrituras deixam claro sobre profecias e certos escritos que não entraram na composição dos livros bíblicos.

Nós sabemos que nas diversas igrejas do primeiro século, sem dúvidas, haviam dezenas e até centenas de profetas, profecias e escritos que não foram inseridos nos 27 livros do Novo Testamento, e nem por isso o ministério profético, as profecias e certos escritos não devem ser considerados  como não dados pelo Espírito para as necessidades dos cristãos e das congregações locais. Temos noção de que pelo menos duas outras Cartas de Paulo aos coríntios não estão na composição dos 27 livros do Novo Testamento. Então, repito, não há motivo para “manipular” o texto da profecia de Ágabo em busca de falhas para provar que o dom de profecia ou o ministério profético ainda estão em evidência nas igrejas. Basta entendermos que os dons do Espírito Santo foram dados para a igreja com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para a obra do ministério no labor congregacional para a edificação. Por isso, rejeito as postulações do Dr. Wayne Grudem e de outros estudiosos sobre os “defeitos” da profecia de Ágabo, ou como uma “predição quase correta” e que “continha imprecisões em detalhes”[5]. A explicação de Grudem de que “Ágabo teve uma visão de Paulo prisioneiro dos romanos em Jerusalém cercado de uma multidão irada dos judeus”, pode até ser atraente, mas deixa de ser profecia (“diz o Espírito Santo”, v.11) para se tornar uma “interpretação de tal ‘visão’ ou ‘revelação’ do Espírito Santo”[6].

O Dr. Grudem postula tal explicação para se encaixar no “tipo de profecia falível” de sua proposta, no sentido do profeta falhar quando em suas palavras relata ou interpreta algo que Deus lhe trouxe de maneira espontânea à mente (seja por revelação, visão ou sonho). Essa é uma posição interessante, mas usar o texto de Atos 21.10,11 para apoiar, creio que é forçar goela abaixo.

 

A tabela abaixo nos ajuda a compreender melhor.

 21.11

21.27-33

ligado (gr. δήσας);

Agarraram (gr. χεῖρας); (vv.27,30)

entregarão (gr. παραδώσουσιν)

Arrastado (gr. εἷλκον); (v.30)

 

Intencionavam “matá-lo” (gr. ἀποκτεῖναι); (v.31).

 

Espancado (gr. τύπτοντες); (v.32)

 

Acorrentado (gr. δεθῆναι); (v.33)

 

Pode-se dizer que a profecia de Ágabo se cumpriu!

O profeta disse que o apóstolo Paulo seria ligado, semelhantemente como ele se ligou ou agarrou com o cinto de Paulo seus pés e mãos. Sabemos que Paulo foi ligado, agarrado, arrastado e até espancado. Certamente o arrastaram segurando ou ligando seus pés e mãos enquanto outros o espancavam.

A profecia de Ágabo se cumpriu, apesar do seu “ato profético” para ilustrar o que aconteceria com Paulo pelas mãos dos judeus. E por fim, Paulo foi “entregue” aos gentios e encaminhado a César para testemunhar do evangelho de Cristo Jesus perante as autoridades e reis. Embora os judeus não entregassem Paulo voluntariamente nas mãos dos soldados romanos, mas, sim, os romanos o tiraram das mãos deles (conforme Lucas narra naquela ocasião), os judeus foram os responsáveis pelo fato de Paulo cair nas mãos dos romanos e permanecer em custódia. É interessante pontuar que o próprio Paulo afirmou que ele foi “entregue nas mãos dos romanos” vindo preso desde Jerusalém (28.17), exatamente conforme o profeta Ágabo havia predito: “e o entregarão nas mãos dos gentios” (21.11). Isso coloca por terra toda e qualquer inexatidão levantada por alguns estudiosos atuais sobre a profecia de Ágabo.

 

Contexto nos contextos!

Esse incidente com o apóstolo Paulo deve ser tratado à luz doutros textos bíblicos relacionados à sua chamada divina para sofrer pelo nome de Jesus. Pode-se dizer que a primeira profecia que Paulo recebeu foi de Ananias quando o Senhor o disse: “[...] este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome” (9.15,17). Paulo estava plenamente convicto dessa chamada, pois o Espírito Santo sempre lhe revelava: “E agora, movido pelo Espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que ali me acontecerá, senão que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que me esperam cadeias e tribulações. Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus. Agora, eu sei que todos vós, em cujo meio passei pregando o reino, não vereis mais o meu rosto” (20.22-25). Paulo estava ciente que sofreria. O Espírito o movia e o revelava. Ele estava decidido a completar a carreira e o ministério que recebeu do Senhor Jesus, mesmo que isso lhe custasse cadeias, sofrimentos e até a própria vida.

Quando Paulo saiu de Mileto e chegou em Tiro, encontra alguns discípulos que confirma aquilo que o Espírito Santo já havia lhe revelado anteriormente (21.4). Depois, mais uma confirmação por meio do profeta Ágabo (21.11). Apesar do rogo dos irmãos para que ele não subisse a Jerusalém, Paulo afirmou: “[...] estou pronto não só para ser preso [conforme a profecia de Ágabo], mas até para morrer em Jerusalém, pelo nome do Senhor Jesus” (21.13). Os irmãos conformados disseram: “Faça-se a vontade do Senhor” (v.14).

Paulo entendeu que não apenas seria preso, mas que também poderia morrer. Ele disse para os irmãos em Mileto: “Agora, eu sei que todos vós, em cujo meio passei pregando o reino, não vereis mais o meu rosto” (20.25). Paulo estava completamente disposto a enfrentar não somente o que foi desenhado pelo ato profético de Ágabo como também uma possível morte em Jerusalém. O que ele mais queria era cumprir o ministério que havia recebido do Senhor: “testemunhar o evangelho da graça de Deus” (20.24; cf. 9.15,16; 22.21).

Realmente, Paulo foi preso, agarrado, arrastado, espancado, acorrentado e quase o mataram (21.27,30,32,33). A profecia de Ágabo cumpriu-se com mais detalhes ainda que o profeta não falou!

É digo de nota que o Espírito Santo predisse a prisão e o encarceramento de Paulo, mas não sua morte. Por implicação, seu ministério iria continuar mesmo na prisão[7].

O Espírito Santo sempre guiou o apóstolo em todos os momentos de seu ministério, movendo-o e ocasionalmente (ou sempre!) revelando-lhe os acontecimentos que lhe aguardavam. Paulo sofreu tremendamente, mas o Espírito Santo o preservou até à sua chegada em Roma. Em Atos 28.30,31, Lucas nos dá sua última narrativa sobre o grande apóstolo:

Por dois anos permaneceu Paulo na sua própria casa, que alugara, onde recebia a todos que o procuravam, pregando o Reino de Deus, e, com toda a intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo.

 

Pode-se dizer que Paulo em sua expectativa limitada à luz das profecias e dos eventos que lhe aguardavam como prisão, espancamento e etc., acreditava que seu fim estava próximo (“estou pronto a morrer!”), no entanto, o Espírito Santo lhe surpreendeu a tal ponto que o apóstolo depois que chegou a Roma ficou dois anos tranquilo em sua própria casa recebendo os irmãos e pregando o Reino de Deus e ensinando com toda intrepidez, sem impedimento algum, as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo.

Ele realmente foi ligado, entregue aos gentios e quase morreu, mas o Espírito Santo preservou Seu servo para testemunhar do evangelho da graça perante os gentios, reis, o imperador e também perante os seus patrícios que residiam em Roma. Deus lhe deu uma casa e uma grande oportunidade para pregar e ensinar. Glorificado seja Deus!

 

Soli Deo Gloria!

 



[1] Tiro fica a cerca de 180km ao norte-noroeste de Jerusalém e cerca de 105km de Cesaréia.

[2] KISTEMAKER, Simon J. Comentário do Novo Testamento: Exposição de Atos, Vol.2, p.338. São Paulo, SP, Brasil. Editora Cultura Cristã, 2003.

[3] A diferença entre os profetas do Antigo e os do Novo Testamentos não deve ser ignorada. Enquanto a função dos profetas do Antigo Testamento era revelar a vinda do Messias, Ágabo predisse acontecimentos futuros imediatos. Consultar GUTHRIE, Donald. New Testament Theology (Downers Grove: Inter-Varsity, 1981), p.740.

[4] WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo: Atos, p.208. São Paulo, SP, Brasil: Editora Vida, 1996.

[5] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática, p.894. São Paulo, SP, Brasil: Vida Nova, 1999.

[6] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática, p.894. São Paulo, SP, Brasil: Vida Nova, 1999.

[7] KISTEMAKER, Simon J. Comentário do Novo Testamento: Exposição de Atos, Vol.2, p.339. São Paulo, SP, Brasil. Editora Cultura Cristã, 2003.