Mostrando postagens com marcador Pais da Igreja. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pais da Igreja. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

A DOUTRINA DO ARREBATAMENTO SOB ATAQUE!

 


 Tenho notado ultimamente um ataque atabalhoado e paupérrimo à doutrina bíblica do arrebatamento da Igreja. Muitos no afã de desacreditarem essa doutrina bíblica tão querida aos cristãos que aguardam o Senhor voltar a qualquer momento têm elencado caricaturas ridículas que não merece nossa preciosa atenção, mas apenas salientar o quão ridículo tem sido o desespero dos críticos para negar essa tão cara e importante doutrina do Cristianismo histórico, principalmente do pentecostalismo histórico e bíblico. Apesar de entender que a articulação Sistemática da doutrina do arrebatamento como a temos hoje surgiu inicialmente sob os auspícios dos professores e eruditos do Trinity College, em Dublin, e nas Conferências proféticas de Powerscourt (1831–1833) no século XIX, nós temos observado, de uma forma ou de outra, que certos estudiosos antigos têm tido uma visão de uma Vinda pré-tribulacional de Cristo Jesus para livrar a Sua Igreja da Grande Tribulação. O que prevalece nos Pais da Igreja e noutros teólogos posteriores – tirando o desvio interpretativo alegorizante do amilenismo e pós-milenismo – é um claro entendimento sobre uma vinda a “qualquer momento” e sobre um reino literal de Cristo na Terra. O entendimento de uma “Vinda a qualquer momento” é importante na articulação sistemática do arrebatamento pré-tribulacional. Novamente afirmo com o Dr. Erickson, que é pós-tribulacionista: “Com certeza, o pré-milenismo dos primeiros séculos da Igreja pode ter incluído uma crença num Arrebatamento pré-tribulacional da Igreja [...]”[1].

Deve-se pontuar que a primeira metade do século XIX viu crescer a crença “milenarista desenvolvida a partir das Igrejas Tradicionais que passava pelos canais perfeitamente sensatos de tratados teológicos, periódicos especiais e conferências em casas aristocráticas”[2] e não a partir de lunáticos escanteados ou de um profetismo individualista. Foram o ensino desenvolvido a partir das Igrejas Tradicionais e de grandes professores da época que influenciou tremendamente o pensamento de John N. Darby.

As Conferência Proféticas de Albury Park, no Surrey, em 1826–28, tiveram como anfitrião Henry Drummond, ex-membro da Câmara dos Comuns. Com raras exceções, Drummond convidava leigos e clérigos das igrejas nacionais da Inglaterra e da Escócia. Sobre as Conferências Proféticas Sandeen observou:

Nas reuniões da Conferência propriamente ditas, o programa era igualmente entre os três tópicos de maior interesse na época – cronologia profética, segundo advento e restauração dos judeus. Não se apelava a qualquer argumento ou autoridade nessas sessões a não ser a autoridade de citações bíblicas diretas ou de um argumento cujo objetivo fosse conciliar referências bíblicas[3].

 

Tais Conferências trouxeram um reavivamento profético em Londres e chegaram ao conhecimento de John N. Darby por meio de um certo Bellert em 1827.

Isso diferente muito das argumentações contra o Arrebatamento que são mais baseadas no que teólogo fulano de tal falou, no lugar de uma análise exegética e uma metodologia apropriada, pois um raciocínio claro favorece conclusões claras sobre as doutrinas bíblicas. Análises irônicas, desrespeitosas e vulgares trazem mais confusão do que edificação para a Igreja de Deus. Quando você compara o debate respeitoso e honesto sobre o tema do Arrebatamento de homens do quilate dos doutores Gleason Archer (midi-tribulacional) Paul Feinberg (pré-tribulacionista) e Douglas Moo (pós-tribulacionista)[4] com comentários desrespeitosos e atabalhoados de muitos hoje, você percebe o quanto esses estão distante da erudição honesta. Isso sem falar do amor fraternal cristão!

Mas, lamentavelmente, homens como o erudito N. T. Wright e John Gerstner e o estudioso Hank Hanegraaff chegaram ao absurdo e a desonestidade em suas afirmações contra os que ensinam o Arrebatamento pré-tribulacional dispensacionalista. Já o erudito Vern Poythress, no seu livro Understanding Dispensationlists (Entendendo os Dispensacionalistas), faz uma crítica ao dispensacionalismo de uma maneira respeitosa que se concentra em questões reais. O teólogo aliancista O. Palmer Robertson demonstrou uma crítica gentil e apropriada digna de respeito. Ele escreveu: “[...]. Espera-se que o contínuo intercâmbio possa ser baseado no amor e no respeito”[5]. Mas nem sempre é assim como se ver nas redes sociais e em certos livros.

John Gerstner acusa os dispensacionalistas de ensinarem vários caminhos da salvação[6]. Hanegraff usa um tom “desprezível”, chegando a afirmar que o ensino dispensacionalista é “perigoso! Ameaça o evangelho de Jesus Cristo! Promove uma vida sem lei. Ameaça a divindade de Cristo. E ainda conduz ao racismo. Ele chega a comparar a visão dispensacionalista com as seitas! Diante de tais acusações deixo apenas um ponto para quebrar as “penas” de Hanegraff sobre a acusação “promove uma vida sem lei”: o Dr. John MacArthur é conhecido mundialmente como o grande defensor do senhorio de Cristo. Ele é dispensacionalista pré-tribulacionista e pré-milenarista! Para quem não sabe, a doutrina do senhorio postulada em três grandes livros do Dr. MacArthur afirma uma vida cristã com a lei de Cristo. Aceita-se Jesus como Salvador e como Senhor também!

Já o erudito N. T. Wright fala com desprezo quando diz: “A obsessão americana com a segunda vinda de Jesus – especialmente com interpretações distorcidas dela – continua inabalável. Visto do meu lado do Atlântico, o sucesso fenomenal dos livros Deixados para Trás parece intrigante, até bizarro. Poucos no Reino Unido acreditam que a popular série de romances se baseia: que haverá um “arrebatamento” literal em que os crentes serão arrebatados para o céu, deixando carros vazios batendo em rodovias e crianças voltando da escola apenas para descobrir que seus pais foram levados para estar com Jesus enquanto eles foram "deixados para trás". Esta versão pseudo-teológica [...] supostamente assustou muitas crianças a algum tipo de fé (distorcida)”[7].

Triste perceber que o Dr. Wright se esquece (?) que as Conferências Proféticas que postularam as primeiras sistematizações do arrebatamento pré-tribulacional aconteceram “do meu lado do Atlântico”. E o mais triste é perceber que um erudito do quilate dele elenca contrapontos baseados na série do Dr. Tim Lahaye e Jerry B. Jenkins que todos sabemos que nada mais é do que uma obra ficcional que narra os últimos dias na Terra. Não é um tratado teológico! O Dr. Wright ainda enfatiza que “Jesus não falou de Seu retorno de maneira tão vívida, mas sugere que apenas Paulo o fez”. No entanto, ele se esquece da afirmação de Paulo: “Isto vos dizemos pela PALAVRA do Senhor” (1Tessalonicenses 4.15)!

O arrebatamento da Igreja é sem dúvidas um ensino bíblico e não meramente uma “metáfora” para falar da transformação que os crentes experimentarão no final dos tempos como sugere o Dr. N. T. Wright! O arrebatamento e os eventos a ele relacionados como a ressurreição dos crentes mortos e a transformação dos crentes vivos é uma verdade e um evento literal que há de acontecer a qualquer momento e que será “num abrir e fechar de olhos” (1Tessalonicenses 4.13-18; 1Coríntios 15.51-53).

 

O ARREBATAMENTO FUNDAMENTADO

Tenho debruçado num trabalho amplo sobre a doutrina do arrebatamento da Igreja. Aqui, faço apenas pequenas observações bíblicas.

O ensino neotestamentário de que Cristo poderia voltar a qualquer momento e arrebatar a Sua Igreja sem sinais ou advertências prévias (i.e. iminência) é um argumento tão poderoso em favor do pré-tribulacionismo que se tornou uma das doutrinas mais ferozmente atacadas pelos oponentes da posição pré-tribulacionista. Eles percebem que, se o Novo Testamento de fato ensinar a iminência, um arrebatamento pré-tribulacional estará praticamente assegurado. Essa é uma das chaves hermenêuticas do Sistema teológico dispensacional.

Uma vez que é impossível saber exatamente quando ocorrerá um evento iminente, não se pode contar com a passagem de determinado período de tempo antes que tal evento iminente ocorra. À luz disso, é preciso estar sempre preparado para que ele aconteça a qualquer momento.

As exortações paulinas à Igreja não são para que se prepare para a Grande Tribulação e a morte, mas para que espere a Cristo, que vem do céu (Filipenses 3.20; Tito 2.13; Hebreus 9.28). Também devemos velar e ser sóbrios (1Tessalonicenses 5.6-8; Mateus 24.42, 48; 25.13; Apocalipse 16.15). Outras citações paralelas têm o propósito de manter os cristãos em uma atitude de expectativa, de estarem alerta, porque a qualquer momento o Senhor Jesus Cristo o Salvador pode chamá-los para os Ares (Marcos 13.32-37; Lucas 12.35-40; 21.34-36; Romanos 8.23; 1Coríntios 1.7; 1Tessalonicenses 1.10).

O Dr. John Walvoord declara: “A exortação a que aguardemos a ‘manifestação da glória’ de Cristo para os Seus (Tito 2.13 ARA) perde seu significado se a Tribulação tiver que ocorrer antes. Fosse esse o caso, os crentes deveriam observar os sinais”. Se a posição pré-tribulacionista sobre a Iminência não for aceita, então haverá sentido em procurar identificar os eventos relacionados à Tribulação (i.e., o Anticristo, as duas testemunhas, etc.) e não em esperar o próprio Cristo. O Novo Testamento, todavia, uniformemente instrui a Igreja a olhar para a Volta de Cristo, ao passo que os santos da Tribulação são exortados a observar os sinais.

A exortação neotestamentária a que nos consolemos mutuamente por causa da Volta de Cristo (João 14.1; 1Tessalonicenses 4.18) não mais teria sentido se os crentes tivessem, primeiro, que passar por qualquer porção da Tribulação. Em vez disso, o consolo teria que esperar a passagem pelos eventos da Tribulação. Não! A Igreja recebeu uma “Bendita Esperança”, em parte porque a Volta do Senhor é, de fato, Iminente.

O arrebatamento da Igreja não é mera ficção científica, não é produto dos cineastas de Hollywood e muito menos uma crença espalhafatosa de sensacionalistas futuristas, mas, como disse Paulo, é a “Palavra do Senhor”!

 

Ivan Teixeira!



[1] ERICKSON, Millard J. Contemporary Options in Eschatology, p.112. Grand Rapids: Baker Book House, 1977.

[2] HEMPTON, D. N. “Evangelicalism and Eschatology”, p.182-183. Journal of Ecclesiastical History 31 (Abril de 1980).

[3] SANDEEN, Ernest R. The Roots of Fundamentalism: Britihs and American Milleniarism 1800 – 1930. p.18-21. Chicago: The University of Chicago Press, 1970.

[4] ARCHER, Gleason L. FEINBERG, Paul & MOO, Douglas. The Rapture: Pre-, Mid-, or Post-Tribulational. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1984.

[5] ROBERTSON, O. Palmer. The Christ of the Covenants, p.202. Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 1980.

[6] GERSTNER, John H. Wrongly Dividing the Word of Truth: A Critique of Dispensationalism, p168. Brentwood, TN: Wolgemuth & Hyatt, 1991.

[7] Apud HINDSON, Ed & HITCHCOCK, Mark. Can We Still Believe in the Rapture? Copyright © 2017. Publicado por Harvest House Publishers. Eugene, Oregon 97408.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

PÁPIAS E O PRÉ-MILENISMO NA IGREJA NOS PRIMEIROS SÉCULOS

  


Papias (grego: Παπίας) viveu, aproximadamente, entre os anos 70 a 140 d.C. Segundo os testemunhos que se têm, era bispo de Hierápolis, na Frígia, atual Pambukcallesi turca. Foi contemporâneo e amigo de Inácio de Antioquia e de Policarpo de Esmirna. Segundo Ireneu de Lião, teria sido ouvinte de João e companheiro de Policarpo. Jerônimo, no De viris Illustribus 18, diz que “Pápias foi bispo de Hierápolis, na Ásia, e discípulo de João.

 

Papias e o milenarismo

Papias tem sido considerado uma importante fonte do ensino “oral dos discípulos dos apóstolos”, já que ele viveu, aproximadamente, entre os anos 70 a 140 d.C. Pápias foi o primeiro a aplicar a palavra clássica exegese (ecsegéseis), que já há muito tempo significava interpretação ou comentário. Seus cinco livros foram intitulados Exegeses das Palavras do Senhor (grego: Λογίων Κυριακῶν Ἐξήγησις(H.E, 39.1).

Papias traz as mais antigas informações sobre a composição dos evangelhos de Mateus e Marcos, e seus textos sempre são procurados por quantos se ocupam da questão das origens e autenticidade dos evangelhos. Seu nome torna-se obrigatório em toda introdução ao Novo Testamento. Segundo Papias, coisa que eu creio, Mateus compôs seu evangelho no “dialeto hebraico”. O evangelho de Marcos não é outra coisa que a interpretação da pregação de Pedro adaptada às várias circunstâncias. Papias estava preocupado, em sua época, não com aquilo que outras pessoas escreviam nos livros ou pensavam sobre certos assuntos, mas queria saber o que os próprios apóstolos do Senhor haviam dito. Ele escreveu: “Se acontecia, por acaso, vir algum dos que tinham seguido os presbíteros, eu me informava a respeito da palavra dos presbíteros [apóstolos, como vemos hoje!]: o que haviam dito André, Pedro, Filipe, Tomé, Tiago, João, Mateus, ou qualquer outro dos discípulos do Senhor” (H. E. III, 39.4).

Papias ensinava, para nosso proveito neste momento, sobre o Reino de Mil anos de Jesus Cristo, depois que a criação for renovada e libertada. Ele era um homem que não apreciava os que falavam muito, e sim os que ensinavam a verdade, e que “junto dos que comemoram os mandamentos do Senhor impostos aos fiéis e nascidos da própria verdade” (H.E. III, 39,3) transmite as verdades ditas pelos presbitérios/apóstolos do Senhor. Ele valorizava como “uma palavra viva e permanente” os ditos provenientes dos presbíteros (apóstolos) e “[...]; o que dizem Aristion e o presbitério João, discípulos do Senhor”, mas dos que “livros” (H.E. III, 29,4).

Eusébio de Cesaréia escreveu que Papias entendeu erroneamente as narrações dos apóstolos sobre o milênio, pois o mesmo afirmava “que haverá mil anos após a ressurreição dos mortos e que o reino de Cristo se realizará materialmente aqui na terra”. O historiador Eusébio confirma que muitos, inclusive Ireneu, que sucederam Pápias seguiram-no nesta visão interpretativa de um reino literal de mil anos quando o Senhor Jesus voltar. Segundo Eusébio (“penso que”) o que os apóstolos narraram sobre o milênio deve ser entendido “figurada e simbolicamente” (HE, III, 29,12).

Deve-se notar que Eusébio (263–339), seguindo a escola alegorizante de Alexandria e também a Agostinho (354–430) e Jerônimo (345–420) cria que a Era áurea de Apocalipse 20, o Milênio, já teria sido estabelecida com a derrota da Roma pagã pela Igreja e pela ascensão do Cristianismo a uma posição de domínio virtual no Império. Neste ponto, as sementes do preterismo, do historicismo e do idealismo lançaram a base da interpretação alegórica e substituíram a interpretação literal da profecia[1] que entendia, conforme Papias e outros Pais como Ireneu (Adv. Haer. V.32.1,2; 33.1,2,3)[2] e Justino Martin, o reinado de Cristo literalmente na Terra por mil anos.

Podemos dizer, sem medo de errar, que o amilenismo e o pós-milenismo começou a ser ensinado por uma Igreja politizada depois de Constantino que não mais estimava a volta iminente de Cristo Jesus e nem o Seu reino literal de mil anos na Terra. Foi necessário, é claro, como tem sido hoje, a rejeição da intepretação literal das profecias e abraçar, via escola alexandrina, interpretações simbólicas, alegóricas e espiritualizantes das profecias. “Uma vez que o futurismo é o produto da aplicação mais coerente de uma interpretação literal ao texto das Escrituras, começou a decrescer à medida que a interpretação alegórica ganhou proeminência na passagem do quarto para o quinto século. Por causa da fusão entre a Igreja e o Estado no tempo de Constantino, muitos líderes da Igreja quiseram suprimir a interpretação literal do pré-milenismo, que colocava o Império Romano no papel de vilão”[3]. Como disse Larry V. Crutchfield: “Não fosse a seca de exegese sadia provocada pelo alegorismo alexandrino e, mais tarde, por Agostinho, quem sabe que tipo de colheita”[4] de uma visão literal das profecias poderia ter produzido – bem antes de John Nelson Darby e do século dezenove!

Não nos assusta certo historiador ter pontuado que a igreja começou nos primeiros séculos como uma noiva indo ao encontro do seu Noivo, mas enamorada com o mundo se tornou uma prostituta satisfeita com os amores e prestígios terrenos[5]. Agora, assentada comodamente no seu trono mundano, desfrutava das riquezas terrenais. O fervor evangelístico diminuiu e a expectativa da Vinda do Senhor foi perdida ou obscurecida. Neste ponto, aproveito para destacar que por ocasião do Movimento Pentecostal (séc. XIX) o entendimento literal das profecias foi abraçado e a igreja se tornou zelosa na evangelização e vigilante em santidade porque acreditava que Jesus poderia vir a qualquer momento.

 

O pré-milenismo dos Pais da Igreja

Claramente os primeiros Pais eram pré-milenistas conforme declara estudiosos como George Eldon Ladd e Robert H. Gundry[6]. Apesar de que devemos ter o cuidado de encaixar qualquer dos Pais da Igreja em sistemas teológicos desenvolvidos como temos hoje, não podemos negar que os primeiros Pais tinham uma forte crença pré-milenar, e que a “Igreja Primitiva”, como pontua Ladd, “vivia na expectativa da volta de Cristo”[7]. Ou seja, criam numa “volta iminente” ou a “qualquer momento” do Senhor Jesus para arrebatar Sua Igreja. A crença coerente dos primeiros Pais na volta iminente de Cristo é um ingrediente-chave das postulações pré-tribulacionistas atuais. O Dr. John Walvoord escreveu: “O fato histórico é que a visão que os primeiros Pais da Igreja tinham da profecia não correspondia àquela que é defendida pelos pré-tribulacionistas hoje em dia [como um Sistema Teológico], exceto pelo ponto importante de que ambos os grupos sustentam a iminência do Arrebatamento”[8], uma doutrina chave para a formulação sistemática do pré-tribulacionismo dispensacional.

 

Doutrina da iminência e as sementes do pré-tribulacionismo!

A posição dos primeiros Pais quanto à iminência e, em alguns casos, referências a um escape à Tribulação (cf. Ireneu, Adv. Haer. V.35) constituem o que pode ser chamado, para citar o Dr. Erickson, “as sementes das quais a doutrina do Arrebatamento pré-tribulacional pôde ser desenvolvida [...]”[9]. Então, afirmar, como alguns, que a doutrina do Arrebatamento pré-tribulacional é invenção da jovem MacDonald e que o Dr. Darby aprendeu dela não se sustenta.

Não apenas temos o testemunho e o entendimento dos Pais sobre a doutrina do Arrebatamento iminente ou vinda pré-milenar, mas também temos uma forte base escriturística tanto para o pré-milenarismo quanto para o pré-tribulacionismo. Por exemplo, várias passagens da Bíblia pontuam que Jesus virá primeiro para os Seus e depois com os Seus (João 14.1-3; 1Tessalonicenses 4.13-18; 2Tessalonicenses 2.1; compare 1Tessalonicenses 3.13; Judas 14; Apocalipse 19.14). O Arrebatamento é caracterizado no Novo Testamento como uma “Vinda para traslado”, na qual Cristo vem para Sua Igreja, levando-a para a Casa de Seu Pai (João 14.3; 1Tessalonicenses 4.15-17; 1Coríntios 15.51-52). Um ponto forte é o fato de que as Bodas ocorrem no céu (Apocalipse 19.7-9), antes da Volta triunfal de Cristo à Terra, acompanhado de Sua Igreja redimida e triunfante (Apocalipse 19.11-16). Isso exige um Arrebatamento pré-tribulacional para que as Bodas e o Tribunal de Cristo tenham lugar.

O Dr. Erickson, que é pós-tribulacionista, reconhece: “Com certeza, o pré-milenismo dos primeiros séculos da Igreja pode ter incluído uma crença num Arrebatamento pré-tribulacional da Igreja [...]”[10]. Isto é, em essência, o que devemos afirmar, pois não destacamos que os primeiros Pais fossem pré-tribulacionistas no sentido moderno e dispensacional do termo, mas apenas que as sementes já se achavam ali, embora, tristemente, foram esmagadas pelas botas do alegorismo e da Igreja Estatal antes que pudessem brotar e dar fruto.

No meu entendimento, sob a visão dos Pais da Igreja que era claramente pré-milenar, nós devemos rejeitar tanto o pós-milenarismo quanto o amilenarismo como postulações de uma igreja politizada e estatal que seguiu interpretações alegóricas de textos proféticos que devem ser entendidos no sentido usual e comum.

 

Ireneu cita Pápias e fala sobre o Reino literal do Milênio

Retornando a Papias (creio que foram necessárias as observações acima) pode-se dizer, junto com o bispo Ireneu, quando se fala das bênçãos e da abundância dos frutos (Adv. Haer. V.33.3)[11] que os santos desfrutarão no Reino milenar que “Tudo isto é crível para os que têm fé. A Judas, o traidor que não acreditava e que perguntava: Como o Senhor poderia criar tais frutos?, o Senhor respondeu: Vê-los-ão os que viverão naquele tempo” ou seja, no tempo do Reino milenar. Após essa descrição Santo Ireneu cita a importante passagem de Isaías que profetizou sobre os gloriosos tempos do Reino Milenar (11.6-9; 65.25), onde “todos os animais se servirão deste alimento, que receberão da Terra, viverão em paz e harmonia entre si e estarão completamente submetidos aos homens” (Adv. Haer. 32.3,4). Ireneu até rejeita aqueles que “se esforçam por aplicar estes textos [Isaías 11.6-9; 65.25) de maneira metafórica àqueles homens selvagens, [...] [que] abraçam a fé e vivem de acordo com os justos”. Em seu argumento o bispo de Lyon afirma que Deus realizará estas coisas “na ressurreição dos justos”, ou seja, no reino milenar. Depois de citar vários textos de Isaías, Jeremias, Ezequiel e de Apocalipse, falando das bênçãos e realidades do reino, Ireneu conclui: “Essas promessas, portanto, significam com toda evidência o festim que esta criação, que recebeu a promessa de Deus, dará aos justos no reino” (Adv. Haer. V. 34,3). Ou seja, a criação que agora geme e está juntamente com dores de parto será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus na ressurreição dos justos no reino milenar. Como diz C. I. Scofield: “Até mesmo a criação animal e material, sob maldição por causa do homem (Gênesis 3.17), será libertada por Cristo (Romanos 8.19-22; comp. Isaías 11.6-9)”[12].

Ireneu rejeitava claramente a intepretação alegórica das profecias sobre o Reino terrestre do “Rei Justo” (Adv. Haer V.34.4). Ele escreveu:

Se alguns quiserem interpretar estas profecias em sentido alegórico não chegarão a acordo entre si sobre todos os pontos e serão refutados pelas próprias palavras sobre as quais discutem e dizem: “Quando as cidades das gentes estarão despovoadas por falta de habitantes e as casas por falta de homens e a terra ficará deserta”. “Eis, pois, diz Isaías, o dia do Senhor terrível, cheio de furor e de ira. Ele vem para tornar deserta a terra e exterminar os pecadores”. Ele diz ainda: “Será eliminada, para que não veja a glória do Senhor”. E depois que isso tiver acontecido, diz: “O Senhor afastará os homens e os que ficarem se multiplicarão sobre a terra”. “Construirão casas que eles mesmos habitarão e plantarão vinhas cujos frutos eles mesmos comerão” (Isaías 6.11; 13.9; 26.10; 6.12; 65.21). Todas estas profecias se referem, sem contestação, à ressurreição dos justos, que se realizará depois do advento do Anticristo e da eliminação de todas as nações submetidas à sua autoridade, quando os justos reinarão sobre a terra, aumentarão pela aparição do Senhor e se acostumarão, por ele, a participar da glória do Pai e, com os santos anjos, participarão da vida, da comunhão e da unidade espirituais, neste reino. Os que o Senhor encontrar na carne, esperando-o vindo dos céus, depois de ter suportado a tribulação e escapado das mãos do ímpio, são aqueles dos quais fala o profeta: “Os abandonados sobre a terra se multiplicarão”, e também todos os que, dentre os pagãos, o Senhor tiver preparado, para que, após ser deixados, se multipliquem sobre a terra, sejam governados pelos santos e sirvam a Jerusalém.

O profeta Jeremias falou mais claramente ainda sobre Jerusalém e o reino que será estabelecido nela, dizendo: “Dirige o teu olhar para o oriente, Jerusalém, e vê a alegria que te vem da parte de Deus! Olha, estão chegando teus filhos a quem vistes partir; eles vêm, reunidos do nascente ao poente pela palavra do Santo, jubilando com a glória de Deus. Despe, Jerusalém, a veste da tua tristeza e desgraça e reveste para sempre a beleza da glória que vem do teu Deus. Cobre-te com o manto da justiça e cinge a cabeça com o diadema da glória eterna. Pois Deus mostrará o teu esplendor a toda a terra que está debaixo do céu e te chamará com o nome que vem de Deus para sempre: Paz-da-justiça e Glória-da-piedade. Levanta, Jerusalém, coloca-te sobre o alto e olha na direção do oriente: vê teus filhos, reunidos desde o pôr do sol até o nascente à ordem do Santo, alegres por Deus ter-se lembrado deles. Eles saíram de ti a pé, arrastados por inimigos, mas Deus os reconduziu a ti, carregados de glória, como por um trono real. Pois Deus ordenou que sejam abaixadas toda alta montanha e as colinas eternas, e se encham os vales para aplainar a terra, a fim de que Israel possa acorrer com segurança, à glória de Deus. Também as florestas e todas as árvores aromáticas darão sombra a Israel, por ordem de Deus. Pois Deus conduzirá Israel com alegria, à luz da sua glória, com a misericórdia e a justiça que dele procedem” (Adv. Haer. V. 35.1).

 

Podemos continuar citando mais textos de Ireneu que demonstram claramente sua crença no cumprimento literal das profecias acerca do Reino do Justo. Ele claramente entende que “a terra será renovada por Cristo e Jerusalém será reconstruída conforme o modelo da Jerusalém do alto” (Adv. Haer. V. 35.2). O entendimento dos pré-milenistas sobre um reino terrestre de mil anos aqui na Terra depois da Volta em glória do Senhor (Apocalipse 19) para cumprir as profecias de Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel e Apocalipse (cap.20) está de acordo com o de Ireneu, esse grande Pai da Igreja, bem como de Pápias.

Pápias e Ireneu, ambos considerados de grande importância no entendimento das verdades bíblicas, se unem com vários outros Pais, na crença de um reino milenar de Cristo Jesus numa terra restaurada após o período da Ira de Deus sobre os pecadores. Afirmar, como alguns, que a crença pré-milenar, e até mesmo pré-tribulacional, são crenças do dispensacionalismo do século XIX não se sustenta e deve ser rejeitada com honestidade.

 

Ivan Teixeira



[1] ICE, Thomas & DEMY, Timothy J. (General Editors). Back to the Future: Keeping the Future in the Future, The Return: Understanding Christ’s Second Coming and the End Times, p.13. Grand Rapids, MI 49501, USA. Kregel Publications, 1999.

[2] Contra as Heresias: Denúncia e refutação da falsa gnose (2ª edição, Paulus, 1994).

[3] ICE, Thomas & DEMY, Timothy J. (General Editors). Back to the Future: Keeping the Future in the Future, The Return: Understanding Christ’s Second Coming and the End Times, p.13. Grand Rapids, MI 49501, USA. Kregel Publications, 1999.

[4] ICE, Thomas & DEMY, Timothy J. (General Editors). The Blessed Hope and the Tribulation in the Apostolic Fathers, The Return: Understanding Christ’s Second Coming and the End Times, p.13. Grand Rapids, MI 49501, USA. Kregel Publications, 1999.

[5] Não me lembro ipsis litteris das palavras e do escritor, mas a essência do que ele escreveu está nas palavras acima.

[6] GUNDRY, Robert H. The Church and the Tribulation, p.173. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1973.

[7] LADD, George Eldon. The Blessed Hope, p.19. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publ. Co., 1956.

[8] WALVOORD, John F.  The Blessed Hope and the Tribulation, p.25. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1955.

[9] ERICKSON, Millard J. Contemporary Options in Eschatology, p.131. Grand Rapids: Baker Book House, 1977.

[10] ERICKSON, Millard J. Contemporary Options in Eschatology, p.112. Grand Rapids: Baker Book House, 1977.

[11] Contra as Heresias: Denúncia e refutação da falsa gnose (2ª edição, Paulus, 1994).

[12] SCOFIELD, C. I. Bíblia de Estudo Scofield, p.1044.  (Holy Bible, 2009, copyright por Oxford University Press, Inc.).

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

DEUS (YHWH) O SER INSONDÁVEL QUE SE REVELOU! AS DUAS MÃOS DE DEUS! (Santo Ireneu)

 Representação pictórica de Deus (Manus Dei)

Separação da Luz da Escuridão, de Michelangelo, - primeira metade de 1512


AS DUAS MÃOS DE DEUS!

(Santo Ireneu)

 

Eu creio que todos aqueles que estudam teologia, em especial a matéria chamada teontologia (doutrina do Ser de Deus) tem se maravilhado e dado uma pausa na leitura para admirar este Ser dos seres, Deus dos deuses e o Criador de todas as coisas. Quantas vezes debruçado nas Escrituras uma grandiosa e inenarrável alegria me inundou e minha mente perplexa ante a revelação de Deus inclinou-se para adorá-lo na beleza de Sua santidade!

O grande Anselmo de Cantuária mostra à luz da fé e da razão que “Deus é o Ser do qual não se pode pensar nada maior e, também, que é impossível pensá-lo não existente”. Eu não tenho dúvidas de que todos os seres existentes só são seres por causa do grande Ser. Eu sou o que sou por causa do EU SOU o que SOU (heb. Ehyeh Asher Ehyeh). Essa expressão hebraica também pode ser traduzida como EU SEREI O QUE SEREI (Êxodo 3.14, BTX). Deus nunca deixou de Ser o que Ele sempre foi e nunca deixará de Ser o que Ele É e sempre É o Ser que tem sido desde toda a eternidade, antes de todas as coisas. Ele é o Ser que É o Ser que sempre É: EU SOU!

Nós, cristãos, temos que pontuar com Bernand Ram que o teólogo não estuda Deus em Si, mas Deus em Sua revelação. Quando os escritores bíblicos falam sobre Deus não fazem segundo os seus pensamentos sobre algum “ser”, mas sobre aquilo que o Ser Eterno revelou de Si mesmo. Os teólogos dizem que Deus manifesta a Si mesmo na “economia”, isto é, no processo ordenado de Sua auto-revelação. Deus se revelou, e nós podemos conhecê-lo. O Senhor Jesus disse que a essencialidade da vida eterna é conhecer o Pai como o único Deus verdadeiro e a Ele, o Seu enviado (João 17.3). A Bíblia não é a palavra de homens acerca de Deus, mas a auto-revelação de Deus em palavras humanas. Isso foi necessário para termos um conhecimento do Ser Insondável em Sua revelação sondável. Ele é incognoscível em Seu Ser eterno, mas cognoscível em Sua revelação tempo-espaço aos Seus servos e servas!

Nos escritos de Santo Ireneu do ponto de vista de Seu Ser intrínseco, Deus é o Pai de todas as coisas, inefavelmente Uno e contendo em Si mesmo desde toda a eternidade Seu Verbo e Sua Sabedoria (o Espírito Santo) (Adversus Hereses IV. 20,1-3; Demons. Pred. Apost. 47).


As Duas Mãos do Ser Eterno (YHWH)!

Agora, segundo Santo Ireneu, do ponto de vista de Sua auto-revelação, ou empenhando-se na Criação e na Redenção, Deus extrapola ou manifesta o Verbo e a Sabedoria. Estes, como Filho e Espírito, são Suas “Mãos”, imagem sem dúvida tirada de Jó 10.8: “Tuas Mãos me fizeram, e me plasmaram todo”; e de Salmos 119.73: “Tuas Mãos me fizeram e me formaram”. Assim, Santo Ireneu afirma que “pela própria essência e natureza de Seu Ser existe apenas Um só Deus”, enquanto que ao mesmo tempo, “de acordo com a economia de nossa Redenção existem tanto o Pai como o Filho”, ao que poderia acrescentar: “e o Espírito Santo”. (Adversus Hereses IV. 20,1-3; Demons. Pred. Apost. 47).

Santo Ireneu ensina a coexistência do Verbo com o Pai desde toda a eternidade. Ele ainda ensina que o Verbo e o Espírito Santo colaboram no trabalho da criação sendo, se tal fosse possível, as “Mãos” de Deus. Devo pontuar, que a metáfora das Duas Pessoas da Trindade como as “Duas Mãos de Deus” subscreve apenas o trabalho do Verbo e do Espírito Santo tanto na criação quanto na redenção, e não que o Verbo e o Espírito sejam literalmente as mãos de Deus. Como diz o grande bispo: “Foi função do Verbo trazer as criaturas à existência, e do Espírito ordená-los e adorná-los”. (Adversus Hereses IV, pref., 4; 5,1,3; 5,5,1; 5,6,1). O uso da linguagem figurada insere-se na “economia” da auto-revelação de Deus que falamos acima.

 

Deus possibilita o conhecimento de Deus e o Revela!

Podemos dizer que a possibilidade do conhecimento de Deus se dá pelo próprio Deus. O bispo de Lyon escreveu que “[...] era [e é!] impossível conhecer a Deus sem a ajuda de Deus, então Ele ensina os homens a conhecerem a Deus por meio do Seu Verbo” (Adv. Hereses IV. 5,1;). Isso foi ensinado pelo grande apóstolo Paulo quando se referiu a possibilidade de tal conhecimento de Deus ou de Suas profundezas pelo Espírito Santo. Ele escreveu: “e Deus as revelou a nós por meio do Espírito; porque o Espírito tudo o esquadrinha, ainda as profundezas de Deus” (1Coríntios 2.10, BTX).

Notamos pelas Escrituras que o conhecimento e revelação do Ser de Deus em Suas profundezas é peculiar as Pessoas do Verbo e do Espírito Santo. Sobre o Espírito já vimos que o apóstolo salientou: “[...] o Espírito tudo o esquadrinha, ainda as profundezas de Deus”. Sobre o Verbo, Ele mesmo disse sobre Si em Mateus 11.27: “[...] Ninguém conhece plenamente o Filho senão o Pai, e ninguém conhece plenamente o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Bíblia Textual, BTX). O pleno conhecimento das Pessoas da Divindade é peculiar a cada Pessoa. A revelação e o conhecimento de cada Pessoa-Divina às pessoas-criaturas dependem da outra Pessoa-Divina o quiser revelar!

As Pessoas eternas conhecem uma a outra eterna e plenamente. As Pessoas eternas do Verbo e do Espírito conhecem plenamente o Pai e o revelam a quem Eles querem! Afirma Santo Ireneu: “Deus é inefável, mas o Verbo o declara para nós”; e também: “o que é invisível no Filho é o Pai, e o que é visível no Pai é o Filho”. Nas Teofanias do Velho Testamento foi realmente o Verbo que falou com os patriarcas. (Adv. Hereses 4,6,3; 4,6,6; 4,9,1; 4,10,1). Sobre o Espírito Santo, o bispo Ireneu postula: “[...] sem o Espírito Santo, é impossível ver o Verbo de Deus”; e também “o conhecimento do Pai é o Filho, mas o conhecimento do Filho de Deus somente pode ser obtido através do Espirito Santo”. Nossa santificação é totalmente obra do Espírito Santo, “o qual o Filho ministra e dispensa a quem o Pai quer e como quer” (S. Ireneu: Demonst. 6,7).

Essa teologização Trinitária (se assim posso dizer!) deságua na glorificação eterna e recíproca de cada Pessoa na unidade da Divindade. O Senhor Jesus disse: “E agora Pai, glorifica-me Tu junto a Ti mesmo, com a glória que tinha contigo antes de existir o mundo” (João 17.5, BTX). Pai e Filho se deliciam juntinhos (“junto a Ti”) na glória da Divindade desde toda a eternidade (“antes de existir o mundo”). Existe claramente um externar de amor e glória um para com outro eternamente! O Espírito é o elo ontológico do amor do Pai e do Filho na Divindade. Esse mesmo Espírito derrama esse mesmo amor do Pai e do Filho, em glória, no coração de cada crente elevando-o à comunhão plena da Divindade (Romanos 5.2), fazendo-os participantes da natureza divina (2Pedro 1.4). Isso não significa que serenos deuses, mas que o Cristo em Sua vinda nos glorificará pelo Seu Espírito para sermos como Ele é (cf. 2Tessalonicenses 1.10; Romanos 8.29,30; 2Coríntios 3.18; Filipenses 3.21; 1João 3.2). Essa glorificação é a (re)criação da imagem da divindade em nós quando alcançarmos a unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade e à medida estatura da plenitude do Cristo (Efésios 4.13). Esse é o alvo, disse Paulo, que todo cristão deve prosseguir “para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3.14).

O amor e glória Divinos gerados pelo Espírito nos filhos leva-os a clamar: Aba, Pai! (Romanos 8.15). Sendo feitos filhos no Filho pelo Espírito Santo todos os cristãos participam do amor trinitário do Pai e do Filho pelo amor do Espírito. O Espírito que liga, por assim dizer, o Pai e o Filho neste amor e glória eternos, agora, no Filho, une os filhos de Deus e os faz participantes do amor e da glória da Divindade!

Não apenas nós não compreendemos Este Ser insondável, mas também participamos dessa comunhão amorosa, gloriosa e insondável das Pessoas da Santíssima Trindade! Semelhante ao apóstolo, devemos nos quedar e adorar:

Ó profundidade da riqueza,

Tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus!

Quão insondáveis são os Seus juízos e quão inescrutáveis os Seus caminhos!

Ou quem primeiro lhe deu a Ele para que lhe venha a ser restituído?

Porque d’Ele e por meio d’Ele e para Ele são todas as coisas. A Ele, pois, a glória eternamente. Amém.

(Romanos 11.33-36).

 

Ivan Teixeira