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quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Evidência do Batismo no Espírito Santo: As Línguas!

 


 


Boa parte dos estudiosos que concordam com a atualidade do dom de línguas não se ofendem com a descrição de Paulo (1Coríntios 12 e 14); TODAVIA, não aceitam a descrição de Lucas de que as línguas são evidência do batismo no Espírito Santo. E quando "aceitam" a perspectiva de Lucas a leem ou submetendo-a a perspectiva paulina da conversão (1Coríntios 12.13) ou a perspectiva da crítica de eruditos do século XX como Hans Conzelmann[1] que divide a história lucana em três períodos dando base a que se entenda o batismo no Espírito Santo dos samaritanos, de Cornélio e os dos efésios como uma experiência ligada a períodos de transição na história da salvação, relacionando o batismo como incorporação no Corpo de Cristo. Por isso, muitos pontuam que os três eventos citados simplesmente descrevem pontos críticos na história da salvação que não mais se repetirão – que o batismo no Espírito, as línguas e as profecias foram pertencentes àquele período e que Lucas não quis postular que tal experiência é normativa ou paradigmática para todos os cristãos em todo o período da igreja, ou mesmo que Lucas quis transmitir que os cristãos do primeiro século falavam em línguas e profetizavam como resultado do batismo no Espírito Santo. Particularmente, entendo, que para Lucas o batismo no Espírito Santo, as línguas e os enunciados proféticos pertencem como promessa do Pai a todos quantos Deus chamar para fazer parte de Sua igreja (cf. Atos 2.39). Seria de grande valia os estudiosos atentarem para essas palavras de Pedro quando explicava o evento aos seus ouvintes que presenciaram os discípulos cheios do Espírito Santo falando noutras línguas.

Lucas claramente associa as línguas ao que João Batista (Lucas 3.16), Jesus (Atos 1.5) e Pedro (Atos 11.16) chamaram CLARAMENTE de batismo no Espírito Santo. Ou seja, para Lucas – e seus ouvintes – o batismo no Espírito Santo foi (e é!) evidenciado pelo falar em línguas (Atos 2.4; 10.46; 19.6), bem como nalguns casos pela profecia (Atos 19.6) e glorificação ou enaltecimento de Deus – adoração-louvor – (Atos 2.11 e 10.46). As línguas, a profecia e os enunciados proféticos-litúrgicos glorificando a Deus não se limitaram a períodos transicionais da História da Salvação, mas pertencem a todos quantos o Senhor nosso Deus chamar – ou seja, a toda a igreja até a vinda do Senhor!

Em três ocasiões explícitas – do que João Batista, Jesus e Pedro chamam de Batismo no Espírito Santo – na narrativa em Atos, Lucas descreve as línguas como evidência de que as pessoas receberam a promessa do Pai – ou o derramamento do Espírito Santo conforme profetizado por Joel. As línguas são no mínimo formas de evidenciar o batismo no Espírito Santo, o que fica inconfundivelmente claro no texto de Atos 10.44-47: “sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo, POIS, os ouvimos falando em línguas e engrandecendo a Deus”. Em duas ocasiões (Atos 8 e 9) as línguas e a profecia estão em vista implicitamente, caso contrário à proposta de Simão ficaria sem sentido (Atos 8.19)! A proposta do erudito James Dunn[2] de que os samaritanos não se converteram, de fato, até que os apóstolos de Jerusalém viessem e impusessem as mãos sobre eles é insustentável à luz do contexto de Atos 8 e do restante do livro escrito por Lucas! Claramente os samaritanos se converteram, mas ainda não haviam recebido o batismo no Espírito Santo – essa é a crença pentecostal clássica!

Você pode até não crê que o dom de línguas ou as línguas como evidência do batismo no Espírito Santo não seja para hoje, ficando restrita ao primeiro século – coisa que não creio! – MAS negar que as línguas, na narrativa lucana, constitua a prova de que as pessoas receberam o “batismo no Espírito Santo” (não que receberam o Espírito na conversão!) é negar a veracidade da narrativa do livro de Atos, portanto é negar a Palavra de Deus por meio de Lucas!

Neste ponto vale pontuar que a proposta do erudito Hans Conzelmann que divide a história lucana em três períodos dando base a que se entenda o batismo no Espírito Santo dos samaritanos, de Cornélio e o dos efésios como pertencente a períodos de transição na história da salvação, relacionando o batismo como incorporação no Corpo de Cristo pode até ser compreensível numa tese ou postulado Sistemático, mas não se sustenta como resultado de exegese quando nega o batismo no Espírito Santo como posterior à salvação, pois todos os cinco eventos citados por Lucas faz referência a experiências de pessoas convertidas recebendo o dom do Espírito Santo evidenciado pelo falar em línguas, profecias e enaltecimento de Deus. Pode-se pontuar que a única exceção seja no caso de Cornélio e os de sua casa que receberam a salvação e o batismo concomitantemente, fato que se pode testemunhar em centenas e em até milhares de vezes quando uma pessoa crê em Cristo e ao mesmo tempo ou concomitantemente recebe o batismo no Espírito Santo. Testemunhei isso várias vezes no meu ministério! Mesmo assim, o batismo no Espírito Santo foi para os salvos e não para que fossem salvos.


TEIXEIRA, Ivan. Batismo no Espírito Santo e Fogo: A Crença Pentecostal na Promessa do Pai, p.59-62. Rio de Janeiro, RJ, Brasil: Editora RUJA, 2021 (prelo).




[1] CONZELMAMM, Hans. The Theology of St. Luke. 2nd ed. Nova York: Harper & Row, 1961.

[2] DUNN, James D. G. Baptism in the Holy Spirit: a re-examination of the New Testament teaching on the gift of the Spirit in relation to Pentecostalism today, p.55-72. Philadelphia/London, Reino Unido: Westminster/SCM, 1970.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

DEUS (YHWH) O SER INSONDÁVEL QUE SE REVELOU! AS DUAS MÃOS DE DEUS! (Santo Ireneu)

 Representação pictórica de Deus (Manus Dei)

Separação da Luz da Escuridão, de Michelangelo, - primeira metade de 1512


AS DUAS MÃOS DE DEUS!

(Santo Ireneu)

 

Eu creio que todos aqueles que estudam teologia, em especial a matéria chamada teontologia (doutrina do Ser de Deus) tem se maravilhado e dado uma pausa na leitura para admirar este Ser dos seres, Deus dos deuses e o Criador de todas as coisas. Quantas vezes debruçado nas Escrituras uma grandiosa e inenarrável alegria me inundou e minha mente perplexa ante a revelação de Deus inclinou-se para adorá-lo na beleza de Sua santidade!

O grande Anselmo de Cantuária mostra à luz da fé e da razão que “Deus é o Ser do qual não se pode pensar nada maior e, também, que é impossível pensá-lo não existente”. Eu não tenho dúvidas de que todos os seres existentes só são seres por causa do grande Ser. Eu sou o que sou por causa do EU SOU o que SOU (heb. Ehyeh Asher Ehyeh). Essa expressão hebraica também pode ser traduzida como EU SEREI O QUE SEREI (Êxodo 3.14, BTX). Deus nunca deixou de Ser o que Ele sempre foi e nunca deixará de Ser o que Ele É e sempre É o Ser que tem sido desde toda a eternidade, antes de todas as coisas. Ele é o Ser que É o Ser que sempre É: EU SOU!

Nós, cristãos, temos que pontuar com Bernand Ram que o teólogo não estuda Deus em Si, mas Deus em Sua revelação. Quando os escritores bíblicos falam sobre Deus não fazem segundo os seus pensamentos sobre algum “ser”, mas sobre aquilo que o Ser Eterno revelou de Si mesmo. Os teólogos dizem que Deus manifesta a Si mesmo na “economia”, isto é, no processo ordenado de Sua auto-revelação. Deus se revelou, e nós podemos conhecê-lo. O Senhor Jesus disse que a essencialidade da vida eterna é conhecer o Pai como o único Deus verdadeiro e a Ele, o Seu enviado (João 17.3). A Bíblia não é a palavra de homens acerca de Deus, mas a auto-revelação de Deus em palavras humanas. Isso foi necessário para termos um conhecimento do Ser Insondável em Sua revelação sondável. Ele é incognoscível em Seu Ser eterno, mas cognoscível em Sua revelação tempo-espaço aos Seus servos e servas!

Nos escritos de Santo Ireneu do ponto de vista de Seu Ser intrínseco, Deus é o Pai de todas as coisas, inefavelmente Uno e contendo em Si mesmo desde toda a eternidade Seu Verbo e Sua Sabedoria (o Espírito Santo) (Adversus Hereses IV. 20,1-3; Demons. Pred. Apost. 47).


As Duas Mãos do Ser Eterno (YHWH)!

Agora, segundo Santo Ireneu, do ponto de vista de Sua auto-revelação, ou empenhando-se na Criação e na Redenção, Deus extrapola ou manifesta o Verbo e a Sabedoria. Estes, como Filho e Espírito, são Suas “Mãos”, imagem sem dúvida tirada de Jó 10.8: “Tuas Mãos me fizeram, e me plasmaram todo”; e de Salmos 119.73: “Tuas Mãos me fizeram e me formaram”. Assim, Santo Ireneu afirma que “pela própria essência e natureza de Seu Ser existe apenas Um só Deus”, enquanto que ao mesmo tempo, “de acordo com a economia de nossa Redenção existem tanto o Pai como o Filho”, ao que poderia acrescentar: “e o Espírito Santo”. (Adversus Hereses IV. 20,1-3; Demons. Pred. Apost. 47).

Santo Ireneu ensina a coexistência do Verbo com o Pai desde toda a eternidade. Ele ainda ensina que o Verbo e o Espírito Santo colaboram no trabalho da criação sendo, se tal fosse possível, as “Mãos” de Deus. Devo pontuar, que a metáfora das Duas Pessoas da Trindade como as “Duas Mãos de Deus” subscreve apenas o trabalho do Verbo e do Espírito Santo tanto na criação quanto na redenção, e não que o Verbo e o Espírito sejam literalmente as mãos de Deus. Como diz o grande bispo: “Foi função do Verbo trazer as criaturas à existência, e do Espírito ordená-los e adorná-los”. (Adversus Hereses IV, pref., 4; 5,1,3; 5,5,1; 5,6,1). O uso da linguagem figurada insere-se na “economia” da auto-revelação de Deus que falamos acima.

 

Deus possibilita o conhecimento de Deus e o Revela!

Podemos dizer que a possibilidade do conhecimento de Deus se dá pelo próprio Deus. O bispo de Lyon escreveu que “[...] era [e é!] impossível conhecer a Deus sem a ajuda de Deus, então Ele ensina os homens a conhecerem a Deus por meio do Seu Verbo” (Adv. Hereses IV. 5,1;). Isso foi ensinado pelo grande apóstolo Paulo quando se referiu a possibilidade de tal conhecimento de Deus ou de Suas profundezas pelo Espírito Santo. Ele escreveu: “e Deus as revelou a nós por meio do Espírito; porque o Espírito tudo o esquadrinha, ainda as profundezas de Deus” (1Coríntios 2.10, BTX).

Notamos pelas Escrituras que o conhecimento e revelação do Ser de Deus em Suas profundezas é peculiar as Pessoas do Verbo e do Espírito Santo. Sobre o Espírito já vimos que o apóstolo salientou: “[...] o Espírito tudo o esquadrinha, ainda as profundezas de Deus”. Sobre o Verbo, Ele mesmo disse sobre Si em Mateus 11.27: “[...] Ninguém conhece plenamente o Filho senão o Pai, e ninguém conhece plenamente o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Bíblia Textual, BTX). O pleno conhecimento das Pessoas da Divindade é peculiar a cada Pessoa. A revelação e o conhecimento de cada Pessoa-Divina às pessoas-criaturas dependem da outra Pessoa-Divina o quiser revelar!

As Pessoas eternas conhecem uma a outra eterna e plenamente. As Pessoas eternas do Verbo e do Espírito conhecem plenamente o Pai e o revelam a quem Eles querem! Afirma Santo Ireneu: “Deus é inefável, mas o Verbo o declara para nós”; e também: “o que é invisível no Filho é o Pai, e o que é visível no Pai é o Filho”. Nas Teofanias do Velho Testamento foi realmente o Verbo que falou com os patriarcas. (Adv. Hereses 4,6,3; 4,6,6; 4,9,1; 4,10,1). Sobre o Espírito Santo, o bispo Ireneu postula: “[...] sem o Espírito Santo, é impossível ver o Verbo de Deus”; e também “o conhecimento do Pai é o Filho, mas o conhecimento do Filho de Deus somente pode ser obtido através do Espirito Santo”. Nossa santificação é totalmente obra do Espírito Santo, “o qual o Filho ministra e dispensa a quem o Pai quer e como quer” (S. Ireneu: Demonst. 6,7).

Essa teologização Trinitária (se assim posso dizer!) deságua na glorificação eterna e recíproca de cada Pessoa na unidade da Divindade. O Senhor Jesus disse: “E agora Pai, glorifica-me Tu junto a Ti mesmo, com a glória que tinha contigo antes de existir o mundo” (João 17.5, BTX). Pai e Filho se deliciam juntinhos (“junto a Ti”) na glória da Divindade desde toda a eternidade (“antes de existir o mundo”). Existe claramente um externar de amor e glória um para com outro eternamente! O Espírito é o elo ontológico do amor do Pai e do Filho na Divindade. Esse mesmo Espírito derrama esse mesmo amor do Pai e do Filho, em glória, no coração de cada crente elevando-o à comunhão plena da Divindade (Romanos 5.2), fazendo-os participantes da natureza divina (2Pedro 1.4). Isso não significa que serenos deuses, mas que o Cristo em Sua vinda nos glorificará pelo Seu Espírito para sermos como Ele é (cf. 2Tessalonicenses 1.10; Romanos 8.29,30; 2Coríntios 3.18; Filipenses 3.21; 1João 3.2). Essa glorificação é a (re)criação da imagem da divindade em nós quando alcançarmos a unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade e à medida estatura da plenitude do Cristo (Efésios 4.13). Esse é o alvo, disse Paulo, que todo cristão deve prosseguir “para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3.14).

O amor e glória Divinos gerados pelo Espírito nos filhos leva-os a clamar: Aba, Pai! (Romanos 8.15). Sendo feitos filhos no Filho pelo Espírito Santo todos os cristãos participam do amor trinitário do Pai e do Filho pelo amor do Espírito. O Espírito que liga, por assim dizer, o Pai e o Filho neste amor e glória eternos, agora, no Filho, une os filhos de Deus e os faz participantes do amor e da glória da Divindade!

Não apenas nós não compreendemos Este Ser insondável, mas também participamos dessa comunhão amorosa, gloriosa e insondável das Pessoas da Santíssima Trindade! Semelhante ao apóstolo, devemos nos quedar e adorar:

Ó profundidade da riqueza,

Tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus!

Quão insondáveis são os Seus juízos e quão inescrutáveis os Seus caminhos!

Ou quem primeiro lhe deu a Ele para que lhe venha a ser restituído?

Porque d’Ele e por meio d’Ele e para Ele são todas as coisas. A Ele, pois, a glória eternamente. Amém.

(Romanos 11.33-36).

 

Ivan Teixeira

 

 

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

JOÃO CALVINO: TEÓLOGO DO ESPÍRITO?

Ministério de “bastidores” do Espírito?

 

O pastor Augustus Nicodemus num livreto tem postulado e popularizado que Calvino é considerado “o teólogo do Espírito Santo”. Ele diz que “esse título não foi dado a Calvino pelos seus contemporâneos, mas sim pelos estudiosos modernos”.

Particularmente, apesar do meu apreço ao grande reformador por alguns dos seus escritos, preciso discordar altissonante desta afirmação dos estudiosos modernos. Isso é forçar demais a barra. O próprio Nicodemus afirmou que Calvino “nunca escreveu uma obra específica sobre o assunto, como, por exemplo, John Owen e Abraham Kuyper, cujos livros sobre o tema são fundamentais para a Igreja contemporânea[1]. Embora em suas Institutas de Religião Cristã João Calvino trate frequentemente da pessoa e obra do Espírito Santo, não dedicou ao assunto um capítulo exclusivo[2].

 

 

Ministério de holofote?

Augustus Nicodemus em sua tentativa para manter o epíteto sobre Calvino como teólogo do Espírito Santo afirma que o mesmo “tinha a visão bíblica-neotestamentário de que o Espírito Santo geralmente agia nos bastidores, como o agente da Trindade”.

O teólogo anglicano J. I. Packer, no seu livro Na Dinâmica do Espírito, falou que o Espírito Santo tem o ministério do holofote. Disse ele:

O Espírito age como um holofote oculto que focaliza a sua luz no Salvador, fazendo-o resplandecer. A mensagem do Espírito para nós nunca é: olhe para mim; escute-me; venha a mim; conheça-me; mas sempre é: olhe para Jesus e veja a Sua glória; ouça-o e escute as Suas palavras; vá a Ele e tenha vida. Conheça-o e prove o Seu dom de alegria e paz.

 

Tal ideia, devo afirmar, não é de todo bíblica. O ministério do Espírito Santo não pode ser definido como um ministério de “holofote” ou como o agente da Trindade que age nos “bastidores” do plano da Redenção. Lendo as Escrituras vemos um ministério claro, ativo e bem presente na vida dos cristãos e das congregações locais.

Devo descartar tanto a assertiva do Dr. Nicodemus de que a visão de Calvino é “bíblica-neotestamentário” quando descreve a atividade do Espírito Santo nos “bastidores” bem como rejeito as postulações do Dr. Packer quando explica o “ministério de holofote” do Espírito: “A mensagem do Espírito para nós nunca é: olhe para mim; escute-me; venha a mim; conheça-me”. No primeiro caso, não há base neotestamentária para um ministério de bastidores do Espírito. Uma simples leitura do livro de Atos desmonta isso! Já no segundo caso, o Cristo glorificado afirmou altissonante: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas”. Isso ressoa pelo menos por sete vezes no livro de Apocalipse. É o Espírito Santo dizendo: “olha para mim; escute-me; venha a mim; conheça-me”, pois tenho muita coisa a te ensinar sobre o Cristo crucificado e exaltado (dos Evangelhos e das Cartas), bem como sobre o Cristo glorificado e entronizado (do livro de Apocalipse). Tenho que descartar peremptoriamente as postulações destes dois estudiosos! Se tem uma coisa certa é que o Espírito Santo atua presente e palpavelmente na Igreja e nos Seus. Se porventura vemo-lo nos bastidores de algumas igrejas, a responsabilidade é dos que apagam o fogo dos Seus carismas e O entristecem com seus pecados. Isso sem falar daqueles que ultrajam o Espírito da graça que revela o gracioso Salvador, Jesus Cristo!

O Livro de Atos dos apóstolos e os escritos de Paulo e de outros no Novo Testamento pontuam de forma extraordinário o ministério bem presente e pungente do Espírito Santo. Esse ministério presente, atuante e movente do Espírito Santo claramente se centraliza na obra e pessoa de Jesus Cristo no convencimento dos pecadores e na edificação dos santos. Mas, Ele não pode ser descrito como um ministério de bastidores.

Uma pequena amostra para você sentir o peso da presença movente do Espírito Santo no livro de Atos. Agora, se isso pode ser chamado de ministério de “holofote” e de “bastidores”, nós precisamos urgentemente ressignificar muita coisa nas Escritura, na Teologia e, é claro, na gramática.

1) Capítulo 1 — A promessa do Espírito Santo (vv.4,5).

2) Capítulo 2 — O derramamento do Espírito Santo (vv.1-4).

3) Capítulo 3 — milagres pelo Espírito Santo (vv.8-10).

4) Capítulo 4 — ousadia pelo Espírito Santo (vv.29-31).

5) Capítulo 5 — a deidade do Espírito Santo (vv.3,4).

6) Capítulo 6 — trabalho no poder do Espírito Santo (vv.2-5).

7) Capítulo 7 — pregação inspirada pelo Espírito Santo (vv.51,55).

8) Capítulo 8 — expansão da igreja pelo Espírito Santo (vv.1-8,15-17,39).

9) Capítulo 9 — conversão pelo Espírito Santo (vv.1-6,31).

10) Capítulo 10 — Céu aberto para salvar pelo Espírito Santo (vv.19,20,44).

11) Capítulo 11 — salvação para todos pelo Espírito Santo (vv.11-14).

12) Capítulo 12 — livramento pelo Espírito Santo (vv.5-11).

13) Capítulo 13 — obra missionária dirigida pelo Espírito Santo (vv.2-9,52).

14) Capítulo 14 — confirmação da obra pelo Espírito Santo (vv.21-27).

15) Capítulo 15 — assembleia de líderes sob o Espírito Santo (vv.8,28).

16) Capítulo 16 — prisão desfeita pelo Espírito Santo (vv.23-34).

17) Capítulo 17 — avanço incessante da igreja pelo Espírito Santo (w.22-30).

18) Capítulo 18 — liderança da igreja através do Espírito Santo (w.9-11,21-23).

19) Capítulo 19 — demonstração de poder pelo Espírito Santo (w.2,11-20).

20) Capítulo 20 — revelação concedida pelo Espírito Santo (vv.22-31).

21) Capítulo 21 — previsão de fatos pelo Espírito Santo (vv.4,11).

22) Capítulo 22 — presença constante do Espírito Santo (vv.6-30).

23) Capítulo 23 — proteção contínua do Espírito Santo (vv. 10-24,35).

24) Capítulo 24 — coragem contínua pelo Espírito Santo (vv.10-I6).

25) Capítulo 25 — convicção total pelo Espírito Santo (vv.6-12,23-26).

26) Capítulo 26 — heroísmo pelo Espírito Santo (todo o capítulo).

27) Capítulo 27 — consolação pelo Espírito Santo (vv.9,10,21-25,35).

28) Capítulo 28 — progressão da igreja pelo Espírito Santo (vv.23-3I)[3].

Parece-me impossível detectar qualquer cristão, ministério e igrejas locais do Primeiro século, pelo livro de Atos, que não tenha sido regenerado, renovado, revestido e impactado pela Pessoa e obra de Deus Espírito Santo. Algumas referências são impressionantes: Atos 13.52: “Os discípulos, porém, transbordavam de alegria e do Espírito Santo”. Atos 9.31: “A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judeia, Galiléia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número”.

Poderíamos dizer que nenhuma atividade, ministério ou reunião era feita sem a Pessoa e a Obra do Espírito Santo. Ele falava, separa, revestia, ajudava e fazia muito mais para a glória de Deus Pai na proclamação do evangelho de Jesus Cristo.

 

Soli Deo Gloria!

  



[1] Jown Owen, The Holy Spirit: His Gifts and Power (Grand Rapids: Kruegel, 1960); Abraham Kuyper, The Work of the Holy Spirit (Grand Rapids: Eerdmans, 1946). Outros autores poderiam ser acrescentados, como o Puritano inglês Thomas Goodwin, e mais recentemente, Benjamim B. Warfield e George Smeaton.

[2] Cf. João Calvino, As Institutas, ou Tratado da Religião Cristã, 4 vols., trad. Waldyr C. Luz (São Paulo: CEP e Luz para o Caminho, 1989). Calvino trata da divindade do Espírito em I.13.14-14, e da sua obra redentora (aplicando a salvação) no livro III, especialmente nos capítulos 1-2.

[3] GILBERTO, Antônio. Teologia Sistemática Pentecostal, p.178. Bangu, RJ, Brasil: CPAD, 2ª Edição: 2008.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

LIVRO DE ATOS: O EVANGELHO DO ESPÍRITO SANTO

 

Tenho que discordar das assertivas de eruditos e estudiosos como João Calvino, James I. Packer e Augustus Nicodemus que apontam o ministério do Espírito Santo como um ministério de bastidores ou de holofote. Implicando uma ação às escondidas e na calada da noite eclesiástica. O livro de Atos (e as Epístolas) demonstra que o Espírito Santo atuava no palco central e como o personagem central nas igrejas para ensinar, testificar e glorificar a Cristo Jesus. O Espírito Santo estava bem presente no ministério e nas vidas dos cristãos do primeiro século conforme o registro de Lucas.

Em Atos, a doutrina do Espírito Santo é ensinada em muitos capítulos. Por causa dessa ênfase, o pai da igreja primitiva, Crisóstomo, se refere a Atos como o Evangelho do Espírito Santo. O Espírito de Deus fala diretamente por intermédio dos profetas. Na Antioquia o Espírito usa Ágabo para predizer a fome no mundo (11.28). Mediante os profetas e em harmonia com a igreja antioquiana, ele torna seu desejo conhecido a respeito do ministério de Paulo e Barnabé (13.1,2). E em Cesaréia, o Espírito novamente emprega o profeta Ágabo para falar a Paulo diretamente (21.10,11).

Paulo experimenta o poder do Espírito Santo que o compelia a ir a Jerusalém (20.22), onde iria enfrentar dificuldades e aflições (v.23). Paulo obedece à direção do Espírito. Ele também demonstra sua confiança em Deus (21.13).

Em alguma ocasião antes de Paulo decidir viajar a Jerusalém, ele escreveu sua Epístola aos Romanos. Nessa epístola ele exortava os cristãos em Roma a orarem a Deus em seu favor. Ele pediu-lhes que orassem a fim de que ele pudesse ser livrado dos não-crentes na Judéia e que seus serviços aos santos em Jerusalém fossem aceitáveis. E ele esperava que em resposta às suas orações ele pudesse visitar a igreja de Roma (Romanos 15.30-32). Paulo deseja repartir com os crentes romanos algum dos carismas do Espírito Santo para que fossem confirmados (Romanos 1.11).

Paulo então confiou que as orações dos santos seriam respondidas e que o Espírito Santo o guiaria através das dificuldades que ele estava por enfrentar. Pela fé ele aceitou as palavras do Espírito ditas por intermédio de Ágabo como sendo uma revelação detalhada de acontecimentos futuros (Atos 21.10,11).

Não há como negar e discordar daqueles que descrevem o ministério do Espírito como de holofote ou agindo nos bastidores.



CRISÓSTOMO, John. Homilies on the Acts of the Apostles 1.5.

KISTEMAKER, Simon J. Comentário do Novo Testamento: Exposição de Atos, Vol.2, p.339,340. São Paulo, SP, Brasil. Editora Cultura Cristã, 2003.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

BATISMO NO ESPÍRITO SANTO: APENAS PARA OS APÓSTOLOS?

O conhecido pastor John MacArthur, o qual admiro, em seu Comentário do Livro de Atos, reconhece que o batismo no Espírito foi um evento posterior à conversão, afirmando que eles receberam-no "em forma pouco comum" (p.24), mas postula que é uma experiência exclusivamente para os apóstolos tendo em vista "os seus deveres especiais" (p.24).

Nenhuma descrição de foto disponível.TODAVIA, numa página anterior (p.23) ele tinha afirmado claramente que " ainda que a promessa do poder foi PRINCIPALMENTE para os apóstolos, também prevê SECUNDARIAMENTE que o poder habilitador do Espírito Santo se daria a TODOS os crentes" (p.23).

O ponto é que ele afirma que o evento como posterior à conversão se deu apenas para os apóstolos deixando de identificá-lo como um revestimento de poder - posterior à conversão - para TODOS os crentes, com vistas a missão de testemunhar ousadamente de Jesus.

Isso é um claro exemplo de como nossa Teologia Sistemática ou pressupostos teológicos que levamos ao texto nos impede de ver exatamente o que o escritor bíblico tem a nos dizer sobre o que ele escreveu - neste caso, o batismo no Espírito Santo como revestimento de poder e não como referência à conversão! O Dr. MacArthur num ponto de exegese bíblica chega a dizer isso. Ele afirma que esse batismo de poder - promessa do Pai - é primeiramente para os apóstolos, mas também para todos os crentes. Porém, no final seu pressuposto teológico e a não distinção da linguagem lucana da paulina o leva a dizer que, primeiro que essa experiência pós conversão é apenas para os apóstolos; segundo que TODO o crente já foi batizado no Espírito Santo ignorando assim a perspectiva de Lucas e o uso de suas terminologias. Ele enxerga tudo na óptica paulina! Isso é lamentável.

Para não ser muito extenso nestas minhas observações, apenas afirmo que o pastor MacArthur deixou escapar que para Pedro (e Lucas e os demais) o "batismo no Espírito Santo", "a promessa do Pai", o "poder do Alto", o "revestimento de poder" e etc., não é uma propriedade (ou promessa) SOMENTE para os apóstolos, mas, como disse Pedro em Atos 2.39: "Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar".

E para que não haja ambiguidade sobre a natureza da promessa, Pedro já tinha salientado para os seus ouvintes que a promessa é a descrita pelo profeta Joel (Atos 2.16-21) e não a de Ezequiel que é uma clara referência à conversão!

Ivan Teixeira.
MACARTHUR, John F. Comentario MacArthur del Nuevo Testamento: Hechos, p.23,24.Grand Rapids, Michigan 49505. Editorial Portavoz, 2014.

segunda-feira, 18 de março de 2019

BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO!


Não é apenas e simplesmente experimental, mas bíblico também!

Lamento que certos críticos afirmam que o batismo no Espírito Santo é um ensino baseado na experiência que foi levada à Bíblia para ser comprovada.
Faço a seguinte pergunta a estes críticos: Quando Lucas escreveu o Livro de Atos, ele estava escrevendo sobre algo que os quase 120 (At 2.1-4), os samaritanos (At 8.14-17), Cornélio e os demais (At 10.44-47) e os efésios (At 19.1-6) experimentaram. Então, será que Lucas pode ser acusado por ter trazido as experiências destes irmãos para a Bíblia?
Minha resposta é: Claro que não! Lucas demonstra que o que estes irmãos receberam foi o “batismo com o Espírito Santo” (Lc 3.16; At 1.5; 10.16) o “revestimento de poder do alto” (Lc 24.24), a “promessa do Pai” (At 1.5), o “poder ou virtude” (At 1.8), o “derramamento do Espírito” (At 2.17-18; Jl 2.28-29), a “promessa do Espírito Santo” (At 2.33), o “dom do Espírito” (At 2.38), e “a promessa” (At 2.39). Esta expressão lucanas falam da riquezas e amplitude desta preciosa doutrina. O batismo com o Espírito Santo é uma verdade escriturística que foi (e é!) verificável pela experiência dos servos e servas de Deus.
A doutrina do batismo com o Espírito Santo é resultado de uma exegese científica das Escrituras Sagradas (Método Indutivo) comprovado pela estudo e observação sistemática dos fatos escriturísticos – textos bíblicos (Método Dedutivo). Nós devemos interpretar uma palavra ou expressão à luz do versículo encontrado (exegese – Método Indutivo). Então, o versículo deve ser entendido no contexto literário mais amplo, como o parágrafo, o capítulo, o livro, o propósito do autor sagrado, o Testamento e, finalmente, dentro de toda a Escritura.
Nós pentecostais também utilizamos especialmente o Método Dedutivo Descritivo – reunião dos dados bíblicos (teologia bíblica), visto que entendemos que quando Lucas escreveu o Livro de Atos o fez não apenas como mero historiador, mas como um teólogo também. Noutras palavras, a descrição histórica de Lucas tem valor doutrinário e implica normatividade e não mera repetibilidade, pois descreve uma história que deve ser a história de todo o povo de Deus em todas as épocas. Nos dois volumes de Lucas, Lucas-Atos, temos uma perspectiva do autor que ele quis que o povo de Deus entendesse e, consequentemente se tornasse realidade nas suas vidas e ministérios.
Agora, o Movimento Pentecostal nos chamou a atenção para o que podemos chamar de Nível de Verificação, ou seja, o Nível de Experiência Contemporânea. Desde o final do século XIX e início do século XX (não ignoramos outras épocas da História) milhões de pessoas têm experimentado o batismo com o Espírito Santo evidenciado pelo falar em línguas.
Nós acreditamos que as verdades bíblicas devem ser promulgadas e experimentadas. Ou seja, nós acreditamos que embora a experiência não estabeleça a teologia (ou doutrina), ela verifica ou demonstra a verdade doutrinária.
Assim, no Dia de Pentecostes, o apóstolo Pedro, guiado pelo Espírito Santo, descreveu a experiência do batismo com o Espírito Santo como um cumprimento da doutrina do derramamento do Espírito Santo (At 2.17-18; Jl 2.28-29). Veja, a experiência não estabeleceu a doutrina, mas a verificou ou demonstrou.
Nós pentecostais não saímos por aí procurando experiências aleatoriamente e alheias às Escrituras, mas cremos que as verdades bíblicas são demonstráveis, principalmente se forem promessas para os filhos e filhas de Deus, conforme é o batismo com o Espírito Santo (At 1.4; 2.33, 39).
Agora, você pode não querer crer, ignorar, não gostar e etc., do batismo com o Espírito Santo, mas dizer que não é bíblico e doutrinário é no mínimo ignorar as evidências textuais da Bíblia e no máximo, principalmente quando você diz que é heresia, ser um idiota!

IVAN TEIXEIRA

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

PERSPETIVA DE LUCAS EM SEUS ESCRITOS!

A independência teológica de Lucas.
É crença geral entre os estudiosos que Paulo se tornou o principal teólogo e intérprete do Novo Testamento. Como resultado, os escritos de Lucas sobre o Espírito Santo são interpretados pela ótica de Paulo e não do próprio Lucas. Isso é o que James Barr chamou de “transferência ilegítima de identidade”.
Os estudiosos geralmente definem a característica frase de Lucas “batizado no Espírito Santo” de acordo com o significado de Paulo. Esses estudiosos da teologia paulina entendem que o “batismo no Espírito Santo” descrito por Lucas é idêntico ao “batismo em um só corpo” descrito por Paulo.
Essa metodologia interpretativa que lê Lucas como se fosse Paulo é totalmente absurda.
“Batizado no Espírito” = Lucas 3x e Paulo 1x;
“Cheio do Espírito Santo” = Lucas 11x e Paulo 1x.

Para Lucas, o Espírito Santo não se relaciona à salvação nem à santificação, como é comumente afirmado, mas exclusivamente a uma terceira dimensão do serviço de vida cristão, revestimento de poder para pregar e ser testemunha ousada do Cristo ressurreto. Paulo está proeminentemente preocupado com a incorporação em Cristo, pelo qual os crentes se tornam membros do Corpo de Cristo e um do outro (1Co 12.13).
As Escrituras nos ensinam a total compreensão das relações doutrinárias do Espírito Santo: Ele está relacionado à salvação (início da vida cristã); a santificação (crescimento da vida cristã) e ao serviço (capacitação para o trabalho missional).
A teologia de Lucas do Batismo no Espírito tem certo enfoque “carismático” e missiológico (empoderamento para o serviço bem-dotado). Lucas está preocupado com o poder para o testemunho (At 1.8)[1].
A doutrina do batismo do Espírito de Lucas é “carismática”, tendo a ver com o fortalecimento divino da igreja como uma testemunha viva, enquanto a de Paulo é primariamente soteriológica, tendo fundamentalmente a ver com estar em Cristo.
Também vale a pena destacar a diferença teológica do tratamento que Paulo e Lucas se valem, ou seja, os propósitos para os quais Lucas e Paulo empregam o tratamento do falar em línguas. O interesse de Paulo (1Co 12 e 14) está na função prática do dom na adoração pessoal e especialmente na assembleia; o interesse de Lucas é o significado teológico das línguas como evidência do batismo com o Espírito Santo, o recebimento do dom, o cumprimento da promessa do Pai e o revestimento de poder para testemunhar de Jesus Cristo (At 1.5,8,33,38; 10.46; 11.16-17; 19.6).
Paulo e Lucas não estão em desacordo, mas se completam no tratamento do mesmo dom (línguas). Cremos que ambos tinham em vista as mesmas comunidades. Lucas era companheiro e médico amado de Paulo.
Craig S. Keener faz a seguinte observação:
A ênfase de Lucas controla a maioria das diferenças teológicas [entre Paulo e Lucas]: porque as línguas funcionam como um sinal de poder para testemunhar às nações (1.8), elas são particularmente úteis para Lucas, que as enfatiza especialmente como uma atividade inaugural e em um ambiente multicultural. As Línguas faladas serve a uma função narrativa mais exaltada para Lucas, como prova simbólica do fortalecimento da igreja para proclamar Cristo através das culturas[2].

Então, deve-se notar que cada escritor bíblico teve suas intenções, propósito ou propósitos e ênfases distintas quando escreveram sobre a Pessoa e a Obra do Espírito Santo. Tais teologias não se digladiam no campo bíblico, mas se completam e se harmonizam como uma grande orquestra composta de muitos instrumentos.
Lucas, por exemplo, geralmente enfatiza a dimensão mais associada à inspiração ou poder profético (incluindo milagres e inspiração para o culto). João inclui tanto a dimensão profética (especialmente no material de Paracleto) quanto a ênfase na purificação espiritual (dominante principalmente nos capítulos anteriores ao material de Paracleto). Marcos parece destacar o Espírito muito menos no geral, mas o posicionamento de metade de suas menções ao Espírito na sua introdução indica o significado da pneumatologia para Marcos também[3].

Respeite Lucas Como Um Teólogo Legítimo E Competente!
Certamente você como eu já falamos esta frase: “Você não me entendeu!”, ou “Você distorceu o que eu disse!”, e ainda: “Esse não foi o significado que quis transmitir ao usar esta palavra ou frase!”, também: “Você tirou minha frase ou palavra do contexto de minha fala ou escrita!”. Lucas foi vítima disso, pois muitos teólogos paulino desconsideraram o contexto das palavras ou frases de Lucas e ignoraram sua perspectiva teológica, principalmente o da expressão que lhe é peculiar: “batismo com o Espírito Santo” (cf. Lc 3.16; At 1.5; 11.16).
É notório que a teologia protestante ou reformada, sob a influência de Lutero e Calvino, havia sido reduzida à teologia paulina. A riqueza desses maravilhosos insights paulinos não deve ser minimizada. No entanto, o cânon do Novo Testamento é um pouco maior que as epístolas de Paulo. Por meio de sua abordagem narrativa simples ao livro de Atos, os pentecostais puderam integrar os insights significativos de Lucas com os de Paulo, João e outros escritores inspirados do Novo Testamento. O resultado foi uma leitura mais completa e holística do Novo Testamento[4].
Essa metodologia interpretativa que lê Lucas como se fosse Paulo é totalmente absurda.
A situação complica quando você se familiariza com este material paulino e acaba ficando condicionado a esta visão que não enxerga as diferentes perspectivas teológicas de cada escritor bíblico. Posso acrescentar que ao ler certos teólogos do Novo Testamento ou comentaristas que negligencia a teologia carismática de Lucas enfatizando ou elencando apenas certos temas preferidos você acaba condicionado a este tipo de tratamento que mesmo lendo o Evangelho de Lucas ou Atos dos Apóstolos você acaba não dando importância a visão pneumatológica de Lucas. Isso é trágico, pois a teologia do Espírito Santo descrito por Lucas é grandiosa e distinta para a teologia do Novo Testamento.
Entretanto, graças a Deus que Ele tem capacitado estudiosos competentes para perceber a individualidade e perspectiva da teologia de Lucas nos seus dois preciosos livros, Lucas-Atos. Desde a compreensão de que Lucas não é simplesmente um historiador competente, mas também um teólogo competente pelo estudioso do Novo Testamento I. Howard Marshall, a teologia carismática de Lucas tem sido legitimada, por assim dizer. Ou seja, antes os estudiosos de Paulo viam as referências lucanas ao Espírito Santo pela perspectiva teológica de Paulo como que se referindo a obra do Espírito Santo na vida cristã, um batismo para incorporação do regenerado no Corpo de Cristo (cf. 1Co 12.13). Daí nós podemos ver a razão que muitos compreendem a expressão “batismo com o Espírito Santo” somente pela ótica paulina, negligenciando assim a perspectiva de Lucas de que o “batismo com o Espírito Santo” é um revestimento de poder para testemunhar ousadamente de Jesus Cristo como Salvador e Senhor exaltado. No lugar de se entender cada escritor bíblico no seu contexto, entende-o na perspectiva e contexto doutro escrito bíblico sobrepondo assim as teologias de cada um deles. É sábio entender cada escritor no seu próprio contexto entendendo suas perspectivas e significados dos termos que lhes são peculiares. Um exemplo famoso de sobreposição de teologias é o de Lutero com relação a belíssima Epístola de Tiago que ele chamou de “Epístola de palha”. Pensando que Tiago usava a expressão “justificação pelas obras” no mesmo sentido de Paulo nas Epístolas de Romanos e Gálatas, Lutero, por assim dizer, descartou Tiago E é claro que para muitos teólogos Paulo sempre terá a primazia na teologia. Isso é um grande erro!
Agora, depois do Movimento Pentecostal e etc., muitos estudiosos de Paulo transferem seu entendimento do “batismo em um só corpo”, que deve ser entendido no seu contexto de regeneração (Rm 6.3; 1Co 12.13; Gl 3.27; Ef 4.5), para a perspectiva de Lucas do “batismo com o Espírito Santo”. Isso é claramente um erro! Cada escritor bíblico deve ser entendido em suas respectivas teologias para que possamos no final, por assim dizer, ouvir essa grande orquestra, com diversos instrumentos (perspectivas teológicas), tocar harmoniosamente as grandes verdades teologais. Isso é maravilhoso, pois as teologias de cada escritor bíblico são unidas e harmonizadas no todo da revelação de Deus. Temos diversos autores humanos enfatizando aspectos importantes da verdade, mas um Único Autor Divino regendo esses grandes músicos teológicos do cânon sagrado.
Na teologia de Lucas o “batismo com o Espírito Santo” (Lc 3.16At 1.5; 11.16) é visto como o cumprimento da “promessa do Pai” (At 1.4-5; cf. Lc 24.49), “receber poder ao descer o Espírito” (At 1.8), “revestimento de poder do Alto” (Lc 24.49), “cheios/cheio do Espírito Santo” (At 2.4; 4.8,31), “derramamento do Espírito Santo” (At 2.17-18), “a promessa do Espírito Santo” (At 2.33), “o dom do Espírito Santo” (At 2.38), “a promessa para todos quantos o Senhor nosso Deus chamar” (At 2.39), “cair o Espírito Santo sobre” (At 10.44) e etc., Para Lucas o Espírito Santo age poderosamente sobre os crentes a fim de capacitá-los para pregação do Evangelho e para uma vida de poder em meio aos desafios e dificuldades atraídas pela confissão de Jesus Cristo.
Lucas usa vários termos ou expressões para descrever essa poderosa e necessária obra do Espírito Santo. Certo teólogo acertadamente comenta:
Não parece importar muito como se expressa isso. Pedro diz que o Espírito “caiu” sobre Cornélio e sobre os que estavam com ele “como também sobre nós, no princípio” (At 11.15), apesar de o mesmo verbo não ser usado em Atos 2. Sejam quais forem as palavras, a grande verdade é que Deus, em Cristo, concedeu o Espírito aos que depositam sua fé n’Ele, e essa dádiva do Espírito Santo é a capacitação necessária para o serviço cristão. Desse ponto em diante, Atos está cheio de relatos do que as pessoas fizeram quando o Espírito Santo estava agindo nelas e por meio delas[5].

Pelos relatos de Lucas entendemos que o batismo com o Espírito Santo, o derramamento do Espírito Santo, ser cheio do Espírito, não era meramente uma menção a regeneração ou batismo num só corpo, como na visão de Paulo, mas sim um revestimento de poder para testemunhar ousadamente de Jesus Cristo como Salvador e Senhor exaltado, que muitas vezes é evidenciado pelo falar em línguas (cf. At 2.4; 10.36; 19.6). Também creio que o batismo do Espírito Santo pode ser evidenciado por outros dons do Espírito Santo conforme descrito por Paulo em 1ª Coríntios 12. Ampliando mais o nosso entendimento, também creio que o batismo com o Espírito Santo pode ser evidenciado por uma ousadia incomum de pregar o evangelho como aconteceu com Pedro; esse batismo pode ser evidenciado por uma experiência sobrenatural de santificação (como descrito na tradição wesleyana) e por outras experiências oriundas do Espírito Santo. As línguas são apenas uma evidência inicial e não única do batismo com o Espírito Santo. Há muito mais neste precioso e necessário batismo!
Concordo com o grande pregador Lloyd-Jones quando escreve:
O perigo, porém, está em pensar no batismo do Espírito Santo só em termos de dons, e não em termos de algo muito mais importante, ou seja, afinal de contas, o sinal ou prova de que já recebemos ou não o Espírito consiste, seguramente, em algo que ocorre na esfera de nossa experiência espiritual. Vocês não podem ler os relatos do Novo Testamento sobre pessoas a quem o Espírito vinha, as pessoas sobre quem Ele descia, ou que O recebiam como os cristãos gálatas e todos esses outros, sem compreender que o resultado era que todo o seu espírito era inflamado totalmente. O Senhor Jesus Cristo Se lhes tornava real de uma forma que jamais haviam experimentado antes. O Senhor Jesus Cristo Se lhes manifestava espiritualmente, e o resultado era a explosão de um grande amor por Cristo, profusamente derramado em seus corações pelo Espírito Santo.

Isso também é resultado do batismo ou derramamento do Espírito Santo sobre todos aqueles que creem. Nós não podemos limitar o Espírito Santo pelo nossa teologia finita ou pela nossa experiência limitada. O Senhor Jesus Cristo disse: “O vento sopra onde quer!” (Jo 3.8). Você e eu não podemos limitar as ações do Espírito Santo! Mas, nunca devemos atribuir ao Espírito Santo certas loucuras da contemporaneidade.

Parece que Lucas sempre é rejeitado quando se requer a prioridade no entendimento pneumatológico.
Por exemplo, certo teólogo comentando sobre João 20.22, conhecido como o Pentecostes Joanino, afirma que entre os estudiosos há o problema de entendimento sobre que “relação há entre o sopro do Espírito Santo com o derramamento do Espírito Santo em Pentecostes”. Ele escreve que uma das sugestões é afirmar que “o relato de João é irreconciliável com o de Lucas, e este deve ser, portanto, considerado como uma invenção”[6]. Mesmo que particularmente creio que ambos os relatos são textos inspirados (soprados por Deus), atrevo-me a fazer a pergunta: “Por que não rejeitar o de João?”. “Por que não darmos um pouquinho de crédito a Lucas para falar sobre sua perspectiva carismática em teologia?”.  Parece que as pessoas têm medo do poder e dos carismas do Espírito Santo manifestos nas igrejas! Concordo com afirmação de Donald Guthrie: “No entanto, o relato de João não pode suplantar o derramamento histórico em Pentecostes”[7], registrado por Lucas.
Louvamos a Deus porque Ele tem levantado estudiosos capazes para descrever e argumentar proficuamente sobre a importância da identidade teológica de Lucas na pneumatologia. Nós pentecostais não rejeitamos as perspectivas pneumatológicas de João, Paulo e etc., mas entendemos a importância de se convidar Lucas para a cátedra pneumatológica das Escrituras e ouvi-lo em seus distintivos doutrinários.

IVAN TEIXEIRA




[1] MACCHIA, Frank D. Baptized in the Spirit: A global pentecostal theology, p.18. Grand Rapids, Michigan 49530: Zondervan, 2006.
[2] KEENER, C. S. (2012–2013). Acts: An Exegetical Commentary & 2: Introduction and 1:1–14:28 (Vol. 1, p. 815–816). Grand Rapids, MI: Baker Academic.
[3] KEENER, C. S. (2010). The Spirit in the Gospels and Acts: Divine Purity and Power (p. xi). Grand Rapids, MI: Baker Academic.
[4] MENZIES, Robert P. Speaking in Tongues: Jesus and the Apostolic Church as Models for the Church Today, p.28. Cleveland, Tennessee: USA,
[5] MORRIS, Leon. Teologia do Novo Testamento, p.233. São Paulo, SP, Brasil: Edições Vida Nova, 2003.
[6] GUTHRIE, Donald. Teologia do Novo Testamento, p.538. São Paulo, SP, Brasil: Cultura Cristã, 2011.
[7] GUTHRIE, Donald. Teologia do Novo Testamento, p.538. São Paulo, SP, Brasil: Cultura Cristã, 2011.